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Ninguém escolhe impunemente o que lembrar. Ou, pior, o que deixar desaparecer. Três livros — só três. O resto se desfaz: desintegra-se em silêncio, como papel antigo que nunca chegou a ser lido com atenção. A proposta parece absurda, mas diz mais sobre nós do que qualquer teste de personalidade. A memória literária é um espelho enviesado: revela o que nos move, nos salva, nos acusa. Há quem salve o épico, o mito, a fundação da linguagem. Outros preferem a vertigem moderna, o romance que não termina, o fragmento confessional. Alguns elegem a infância da palavra. Outros, seu último fôlego. E há quem escolha o que já não suporta perder. A seleção dos três não define apenas o que permanece, mas o que somos quando perdemos tudo o que parecia definitivo. É um gesto quase brutal, sim — mas também uma chance de olhar com nitidez. O que você lê quando não há mais tempo? Quem escreve, por você, aquilo que você nunca conseguiu dizer? A resposta não está nos títulos salvos, mas na ausência que resta. Porque o silêncio, nesse caso, também é um tipo de leitura. E o desaparecimento — quem diria — pode ser a frase mais íntima que você já escreveu.

Salve 3 livros — e seja julgado por isso:
Carlos Willian Leite

Jornalista com atuação em cultura e enojornalismo. Escreve sobre vinhos, livros, audiovisual e streaming. É sócio da Eureka Comunicação e fundador da Bula Livros.

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