Desenho de  Wendy MacNaughton
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POR EM 23/11/2009 ÀS 09:32 PM

O olho

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O olhoexistem aqui: mais ou menos trezentas pessoas e o olho não presta; mas não se engane leitor, não é do tipo de ausência presente: poesia tagarelada nas aulas de Heidegger; é de outra lonjura que a retina manca: nem tchum pra tanta cabeça: cabelo: couro cabeludo: e por dentro alguém que nem é aquilo mesmo. pior de tudo: sou jovem demais; foge da minha jurisdição adjetivá-las de fadigadas; em primeira instância perdi as pernas; em segunda estância o controle; no supremo Ela me tomou o juízo; não; não; não, leitor! metáforas só vão embaralhar a vista: tampar o sol com a peneira, isso sim! esse comichão na nuca: carujando lembrança que nem vai: preguiça do aqui, leitor: apodrece: cavuca silêncio: ferroando no vão: em vão; ah, leitor! você não compreende essa coisa; não dá pra engolir feito aprazolam genérico e dormir; ah, se eu fosse médium: encorporava você: nesta cadeira azul pra ver o que eu não vejo; um momento leitor:


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POR EM 14/11/2009 ÀS 10:44 AM

Encontro de amigos

publicado em

Fui o primeiro a chegar, tudo era silêncio, as luzes ainda estavam apagadas. Entrei, deixei alguns livros sobre a escrivaninha, sentei-me e fiquei esperando para ver quem entrava depois de mim.  Era muito cedo, li alguns textos, fiz algumas pesquisas, conferi a manchete dos principais jornais, e esperei. Por algum momento, tive a impressão de que alguém havia chegado. Pura impressão! Somente eu permanecia ali. Impacientei-me, deixei um aviso de que eu estava presente, mas que me ausentaria por um instante. Saí, fui à padaria da esquina, tomei um café delicioso, li o jornal diário, e voltei para interagir com os amigos, mas nada, eles ainda não tinham chegado. Fiquei preocupado, será que eu me enganara quanto ao horário? Não! Pude ver que já passava das oito e eles não chegavam, ninguém dava sinal de vida. Resolvi adiantar umas atividades, escrevi algumas páginas, permaneci ali na expectativa, coloquei uma música e deixei-me embalar. Imerso que estava na música, não me dei conta de que Marcelo acabara de entrar. Chegou, permaneceu quieto, não falou com ninguém, apenas anunciou que chegara.


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POR EM 26/09/2009 ÀS 09:46 AM

Madalena

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O vidro da porta estremece. Silêncio. Ouve passos afobados no passeio, e batidas firmes na janela. É o agiota, tem certeza. Conhece esse jeito de chamar. Onde iria arranjar trezentos contos? A janela de aço bambeia. Sapatos picotando no cimento do alpendre. E ela bem quieta. A terceira vez nessa semana, e a semana só tem sete dias. Se o João descobrir ela se ferra. É caso daquelas brigas onde ela sabe que chora. E põe a culpa na filha, que é gastadeira, danada, desmiolada; faz contas nas lojas e depois ela tem que cobrir. Lavando roupa pra fora, faxineira e até uns salgados. Mas o dinheiro é miúdo. É luz, e mantimento e o telefone cortado. “Cê não põe freio nessa menina, tem que por freio nessa menina” – ele avisa quando vira a cara pro canto e suspira.

Barulho na porta. Antes isso que a loja, ela pensa. O homem da loja é encrenqueiro. E falador. Um fofoqueiro. Coisa mais feia do mundo é homem fofoqueiro. Seu Carlos? Não. De jeito nenhum. Agiota que dá com a língua nos dentes perde dinheiro. Seu Carlos é muito discreto. Sabe fazer negócio. Sempre que precisa pode contar com ele. Quantas vezes? Muitas, muitas vezes... Cada sufoco!... E ela sabe que vai precisar de novo. Cedo ou tarde. As contas sempre aumentam, ela sabe muito bem. O dinheiro do João só encurta. A menina depois de moça dá muito gasto.

— Madalena! — grita a voz lá fora.

Agora não tem dúvida. E fica quieta espiando a sombra de pernas esgueirando—se debaixo da porta. Vai ter que atender, não tem jeito.

Abre a porta.

— D. Madalena. Tudo bem?
— É o senhor, Seu Carlos, vamo chega, uai!
— Já tem dias que venho aqui, mas não encontro a senhora...
— Pois é, Seu Carlos... É essas faxinas que faço pra fora, né? Senta, Seu Carlos. Aceita um café?

Ele senta e aceita o café. E quando ela deixa a sala, com seu vestido branco de florzinha amarela, ele espia as batatas das pernas parrudas que ela depilou hoje pela manhã.

— O café, Seu Carlos – na xícara de porcelana que ganhou da avó no casamento.

Ela senta e cruza as pernas.

— Cafezinho da senhora é uma beleza, D. Madalena... A Joana não acerta na mão, sabe?
— Sei, Seu Carlos...
— Quase não tomo café. Não dá nem gosto... Mas esse café da senhora, é uma beleza!
— Ai, obrigada... Desde pequena que eu faço. Acabei pegando o jeito, né?... O senhor aceita um pão-de-queijo?
— Não, muito obrigado. Vou ficar só no cafezinho mesmo.

Ficam em silêncio. E ela imagina uma desculpa bem boa pra dar. Pensa em falar que não recebeu um dinheiro que tinha pra receber. Que a filha ficou doente e foi obrigada a gastar o dinheiro que tinha separado pra ele.

— A situação tá feia, né, D. Madalena? — ele diz repousando a xícara no colo.
— É essa crise Seu Carlos... Todo mundo anda apertado — e baixa os olhos.
— Nunca vi crise assim, D. Madalena. E se não fosse por isso, eu não viria aqui falar com a senhora.
— E se já não bastasse a crise, ainda acontece cada coisa com a gente, né?... Minha filha ficou doente esses dias, e remédio anda tão caro...
— Anda mesmo, mas doença não pode esperar. Em primeiro lugar a saúde, D. Madalena.
— Ah, sim... A saúde em primeiro lugar.
— Mas o quê que ela teve?

Ela hesita.

— Como que é mesmo... Um nome complicado... Tem hora que eu me esqueço...
— Mas é grave?
— Se tratar no começo, o doutor disse que não... Mas remédio anda tão caro, Seu Carlos... Tava com o dinheiro do senhor aqui separadinho, mas a menina adoeceu e eu tive que gastar. Tenho dinheiro pra receber por conta de faxina, mas o povo atrasa, sabe?
— Sei como é essas coisas, D. Madalena. Mas a menina tá melhor?
— Mais ou menos...
— Esses trem de saúde são muito complicado mesmo... A Joana, minha esposa, também tá doente.

Teve internada, fez um monte de exame e eu não paguei o hospital até hoje, D. Madalena. Estão me mandando cobrança em cima de cobrança... E eu não sei o que eu faço. Porque do jeito que a Joana tá, periga deu ter que internar ela de novo, aí não sei como é que vou fazer...

— Complicado demais...
— Muito complicado.
— Acontece que eu não tenho mesmo... Não tenho de onde tirar.
— Seu marido não tem?
— Meu marido nem sabe do nosso negócio, Seu Carlos... Ele me vigia muito nos gastos, já expliquei isso pro senhor...
— Sim, eu lembro...
— Pra mim pedir dinheiro pra ele, tenho que falar pra quê que é... E ele não me passa o dinheiro, ele mesmo vai lá e paga... O João é muito sistemático... E se ele souber que eu devo o senhor. Nossa senhora...
— Eu compreendo... Mas acontece que eu preciso desse dinheiro, D. Madalena — diz meio sem graça.
— Eu entendo o senhor, mas se não fosse essa doença da minha filha... Aceita mais um café?

Ele aceita. E quando ela levanta, ele vê a calcinha branca aparecer no meio das cochas sem que ela perceba
.
— Cafezinho bom...
— Mas como eu tava falando... Se não fosse a doença da minha filha...
— E eu ainda tenho passado por outros problemas, D. Madalena...
— Que problemas, Seu Carlos?
— Ah, a Joana não anda muito bem comigo... Ainda mais com a doença agora...
— E que doença ela tem?
— Não anda bem da cabeça... Tem a conta do hospital.... E esses médicos de cabeça são muito caros, e tudo à vista, a senhora sabe... Tratamento demorado... Mas com isso a gente até que se vira, pula de um lado pro outro e acaba dando um jeito de pagar... Mas essas coisas de marido e mulher é muito difícil... Já tem bem tempo que a gente não faz nada, a senhora entende?
— Entendo...
— Eu fico muito sozinho...

Silêncio. E ele baixa a cabeça. Ela olha nos sapatos dele. Sapatos bem novos. E depois nas mãos sem calo.

— A gente tem umas fases meio difíceis mesmo, Seu Carlos... A vida é dura.
— É, a vida é dura...

Ele olha no pé dela, no chinelo havaiana balançando. No joelho redondo e lembra dela menina. E conta uns casos de antigamente, de fulano e ciclano, de quem casou com quem e separou de quem: isso dura uns vinte minutos.

— Quando a gente é novo tudo é mais simples, né?
— É sim, Seu Carlos... Ah, mas é porque era a gente que dava problema... Agora é a gente que resolve. Eu não tive problema de saúde não, mas era bem danada — e sorri.
— Não era não, D. Madalena... Era uma moça bem direita.
— Ah, mas minha mãe ficava no pé... Eu tinha era medo... Ela só queria meu bem, né?
— A gente até deu umas namoradas naquele tempo, a senhora se lembra?

Ela ri. E mexe o corpo no sofá.

— Foi mesmo, Seu Carlos. Eu bem que lembro... Eu era bem rapariga. Não sabia das coisas.
— Ah, a senhora sempre foi muito bonita, D. Madalena.

Ela se inclina um pouco pra trás. Mexe no cabelo preso. E olha pra ele.

— Ando tão descuidada...
— Mas continua bonita... Com todo respeito.

Ela olha nas roupas bem novas do homem. E no rosto dele bem conservado pra quarenta e poucos anos.

— O senhor acha?
— Sim, continua bonita como naquele tempo.
— Seu Carlos, Seu Carlos...
— O quê, D. Madalena?
— O senhor, falando essas coisas...
— Mas é a verdade, com todo respeito.
— Sei... 
— Aliás, não me esqueço daquele dia...
— Eu era muito nova... E tinha medo das coisas...
— Ainda tem medo?
— Seu Carlos, Seu Carlos... O senhor não vai conseguir... — sorri.
— Conseguir o quê, D. Madalena?
— Isso que o senhor está pensando... Não sou dessas... Tenho marido, tenho filha...
— Eu também tenho esposa...

Ficam em silêncio. Meio sem graça.  

— Se o João descobre... — ela sussurra.

 


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POR EM 29/08/2009 ÀS 12:16 PM

As Time Goes By

publicado em

“Retornou ao café, comprou cigarros, fumou a impaciência, tragando cada minúscula faísca de ansiedade. Olhava desesperadamente a multidão que ia e vinha, lembrando cada contorno daquele rosto másculo, o queixo quadrangular, habitat natural de uma barba de eternos três dias, os olhos claros recheados de promessas”

No meio do saguão do aeroporto, o trique traque trique do salto alto de Alice denunciava o nervosismo pela demorada espera andando de um lado ao outro. Ele haveria de passar por ali, tinha certeza que embarcaria para algum lugar paradisíaco, distante, intocável, onde as palmeiras dançam ao som vento e o céu anil beija o mar no horizonte, provável fundo de algum cartaz de agência de viagem. “Como fui estúpida!” — pensava emburrada consigo. Ela o procurara durante anos e quando finalmente o encontrou, deixou que escorresse pelos seus dedos longos, saindo de cena com aquele ar de cavalheiro de outros séculos e o charme blasé de filme de quinta.

Aquilo implicaria péssimas consequências: de nada adiantaria seus protestos invocando todo o afinco que empenhara, as noites sem dormir, observando-o todo momento, mantendo-o como única meta, sendo praticamente sua missão de vida. Aquilo lhe custara a inimizade de amigos e o desgosto dos parentes; estar tão focada naquele homem, nutrindo-se de tudo o que se referia a ele, buscando de todas as formas entender seu pensamento e como se adiantaria aos seus movimentos, estando sempre um passo à frente, preparada para ele. Não, nada daquilo adiantaria: seria culpada, ou pelo menos suspeita de ter provocado ou — e porque não? — ter sido a idealizadora daquela verdadeira fuga.

Retornou ao café, comprou cigarros, fumou a impaciência, tragando cada minúscula faísca de ansiedade. Olhava desesperadamente a multidão que ia e vinha, lembrando cada contorno daquele rosto másculo, o queixo quadrangular, habitat natural de uma barba de eternos três dias, os olhos claros recheados de promessas — vazias, na grande maioria, quando se deu conta de que o hangar dos jatinhos seria o local onde deveria procurá-lo.

Alfredo sentia-se muito bem naquele momento. O adocicado cheiro da liberdade invadia suas narinas; como é bom estar livre e saber-se acima das pequenas vicissitudes da vida podendo escolher o que e quando fazer algo, pelo puro prazer de poder. Parado ao lado do LearJet, imaginava-se como um Bogart moderno: o copo de whisky, um piano de cauda, sua música favorita sendo dedilhada com singela maestria. Faltava somente uma Ilsa para fazer o pedido em sussurro:

— Toque uma vez, Tom. Pelos velhos bons tempos.

— Toque, Tom. Toque “Chega de Saudade”.

Foi levado no pensamento de tal maneira que começou a cantar:

— “Vai minha tristeza, e diz a ela que sem ela...

Foi despertado de seu sonho acordado pelo acompanhamento não esperado no final, vindo na forma de uma voz de veludo:

— “Que sem ela não pode ser”.

Parada em sua frente uma bela loira, versão tupiniquim de Ingrid Bergman, tomava-lhe já a mão:

— Você possui uma voz maravilhosa, senhorita...

Subitamente sentiu o frio do aço cercando-lhe o pulso: Alice — respondia com um sorriso maroto — Delegada Alice Miranda, Polícia Federal. O senhor está preso por desvio de dinheiro público.

 


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POR EM 22/08/2009 ÀS 11:42 AM

Década

publicado em

Você pode enjaular um tigre ,
mas jamais terá certeza que ele está domado.
Com os homens a coisa é mais fácil.

C. Bukowski

Dez anos. Cento e vinte meses. Mais ou menos 3650 dias, pois o ano bissexto atrapalha esta conta e as próximas. Oitenta e seis mil e quatrocentas horas, trezentos e onze bilhões e quarenta mil segundos. Este era o tempo aproximado que havia ficado separado da minha vida anterior. De quem eu era e quem sou agora...

Shopping em dia de semana é para quem têm muito para gastar ou para quem trabalha para ganhar. Caminho no meio das lojas com minha mochila nas costas, cheia de livros, despenteado, deixo o cabelo livre cair no rosto, sem me importar com o efeito ou com o olhar preocupado de uns seguranças, interessado de algumas vendedoras. Vou para a praça de alimentação.

Comprei uma cerveja em lata para rebater a ressaca lazarenta que toma conta do corpo. Segunda à tarde e eu com ressaca. Nada de anormal nisso. Havia recebido o telefone de manhã, mas só comecei a ficar mal da ausência de álcool depois do almoço. Levei meus sobrinhos no colégio e pus-me a andar daqui para lá, resolvendo uma coisinha aqui e outra lá: depósito em banco, orçamento de editora, um taxa na prefeitura e depois vim parar aqui. Enquanto bebericava a latinha, saquei um livro de um velho safado e o lia para ajudar a passar o tempo. Embora o tivesse lido várias vezes, ainda assim conseguia me tirar algumas risadas. Uma garota de cabelo roxo, sentada em uma mesa próxima, parece que gostou da cena; sentado com um latinha do lado, ria sozinho lendo o livro de bolso. Em duas oportunidades que retirei rapidamente os olhos das páginas, pude ver que ele acompanhava meus movimentos com interesse. Em outra oportunidade talvez rendesse frutos.

Ela chega como quem não quer nada, vai logo dizendo que apesar do cabelo comprido, me reconheceu de longe: era o único que estava bebendo e lendo ao mesmo tempo. Os cabelos dela também estão bem grandes, alisados e mais claros que antigamente; a pele clara e o nariz naturalmente empinado não mudaram, mas o que sempre chama a atenção, o que me chamou a atenção de início foram aqueles olhos. O azul profundo e por vezes avassalador daquele olhar ficou retratado na minha mente em várias oportunidades: no dia em que a conheci, dez anos atrás, eram claros e esperançosos, notava-se a vontade de acreditar no que eu dizia; quando caí de moto, tempos depois e fiquei uns dias de cama, aquele azul nublado demonstrava o quanto a preocupação dominava suas ações; quando disse que a amava pela primeira vez, explodiram em um anil celeste, digno de um céu de brigadeiro e por fim, o nublado quase cinzento quando de cabeça baixa, tentando escapar das perguntas dirigidas pelos olhos dela, disse que estava tudo terminado.

Quase cinco anos de relacionamento, e cheguei do nada e disse que havia terminado. Do nada é modo de dizer: havia me apaixonado por outros olhos, negros como a asa da graúna e incrustado em um rosto leonino de uma outra beleza exótica. Fiz a troca de quatro anos por uns meses... Intensos e eternos enquanto duraram, mas mesmo assim, alguns meses.

Após os usuais ois e como vais, as perguntas por amigos e parentes, nos transferimos para um local mais adequado para uma conversação daquelas. Em frente ao lago Vaca Brava (nome estúpido para um lugar tão belo), em um restaurante da moda nos acomodamos e continuamos a conversação. Respondia as perguntas dela, mas me esquivava das indagações daquele olhar azul de tempos antigos... Olho para os preços no cardápio e me lembro que quando começamos, eu sempre fazia as escolhas olhando para o lado esquerdo do menu. Os preços não eram problema, naquela época. Hoje meus olhos correm desesperados pela fileira da direita, enquanto a mente faz as somas para saber se o bolso consegue equilibrar a balança entre receita e despesa.

Era mais magro, mas não tão atlético, meu guarda roupa era infestado de ternos e gravatas, sapatos pretos e o corte escovinha me fazia parecer um milico envergando um Armani. Hoje, camiseta branca e calça jeans constitui em suma meu acervo. Mais alguns milímetros e poderei amarrar a cabeleira. Ela continuou com aquele olhar penetrante. Tentou me devassar e falei um pouco mais do que deveria. O pior foi lembrar de detalhes que ela já desconhecia. Irônico, para um cara que destruiu parte do setor de memória. Politraumatismo craniano, coisa antiga. Formada e com pós em alguma coisa que não entendi; eu reativando Letras, depois de ter jogado fora dois anos de filosofia pela janela. Trabalha agora na maior capital do país, em uma grande indústria de produtos de saúde; egresso do mercado de trabalho, apliquei esse anos em vários tipos de negócios, de dia ou noite, colecionei estórias e experiências. O dinheiro, similar ao que foi feito por um jogador de futebol, investi em mulheres e muitas farras, o restante simplesmente eu gastei.

— Trabalho com marketing agora. E você?

Tentei inventar algo sobre uns projetos importantes. A toalha voou rápido.

—  Escritor cola?

A conversa tomou outros rumos, afinal a literatura não paga minhas contas, entretanto aquele olhar continuava me avaliando, não só o exterior, mas também tentava desencavar algo de dentro de mim. Para minha sorte e perdição, sempre consegui disfarçar muito bem o turbilhão de coisas que se passa dentro de uma alma atormentada. Se houvesse Oscar para isso, era meu com certeza. Em mais de uma oportunidade, diga-se de passagem. Um silêncio inconveniente foi quebrado graças a “Loosing my religion” e a voz rasgante e deslocada no tempo de Michael Stipe atiça o braseiro de lembranças. Jurei mentalmente que se fosse seguida de “Refrão de Bolero”, me jogaria embaixo de uma carreta de dezoito rodas.

Matamos um pouco do tempo conversando sobre as pessoas que passaram em nossas vidas, neste espaço de tempo e sobre essa solterice que nos acompanha: a quase totalidade dos nossos amigos em comum está casada ou em vias disso. Lembrei que seu olhar sempre brilhava ao ouvir a palavra “casamento”, mas sempre desconversava e dizia que tinha que se formar e fazer um mestrado antes. Agora já fez tudo isso.

Tirou um envelope de dentro bolsa e o balançou lentamente no ar. Então era a respeito disso que se tratava este encontro. Pagou a conta no cartão, levantou-se e me deu um longo beijo, daqueles bem antigos, de durar música inteira. Depois ajeitou a maquiagem rapidamente, deu uma retocada no batom. Na saída, atirou-me o convite de casamento na cara:

—  Você nunca vai crescer mesmo.

Aquilo me desmontou. Dei o sorriso mais sacana que pude e não entreguei os pontos. Agora era ela quem desabava. O olhar, aquele olhar, o mesmo de dez anos atrás, havia me dito tudo, havia entregue todos os planos e desilusões em um átimo de segundo, em um vislumbre poético de uma alma feminina, tão forte na dor quanto no parto. Invejei aquilo. Por fora era a mesma rocha de sempre, mas meu interior estava mais liquefeito que mingau. Sorri de novo. Um sorriso dado na hora certa sempre quebra o clima. Virou-se e saiu, altiva e nobre.

Enquanto ela entrava no importado que havia alugado, fiquei me cobrando uma atitude, qualquer coisa. Lembrei que ainda tinha um dinheiro no bolso e que ela havia pago todo o consumo. Assoviei para o garçom e pedi que reabrisse a conta.

— Têm Jack Daniel´s ? Traz um duplo. E sem gelo, por que gelo no J.D. é pecado grave.
 


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POR EM 06/06/2009 ÀS 12:10 PM

Um cão de lata ao rabo

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Durante uns três dias os mongóis ficaram ensebando aqueles milhares de cães, do lado de fora do muro, às portas da cidade.  E os chineses comemorando a solução pacífica e fazendo conjecturas sobre o arraigado apego, quase inocente, daqueles guerreiros aos caninos

(Um exercício, com base em conto de Machado de Assis, com o mesmo título)

Gengis Khan — que quer dizer homem valente, invencível — nasceu miserável, numa comunidade pobre, perdeu o pai ainda criança e tinha o destino traçado: morrer anônimo, como era costume acontecer com outros mongóis de seu tempo. Mas ele se rebelou contra seu destino medíocre. Dotado de uma coragem invulgar e um tirocínio espantoso, o jovem Gengis, no início do século XIII, unifica várias tribos turco-mongólicas, organiza uma cavalaria devastadora, e parte para a conquista de toda a região da Pérsia, Índia, China etc. e forma o grandioso império Mongol.

Não se sabe o que era mais relevante em Gengis Khan. Se a capacidade organizativa, se o exercício da liderança, se a fúria guerreira, se a intuição ou o repente criativo que lhe permitia se adaptar às novas circunstâncias, por mais adversas que se apresentassem. Teve, porém, um azar: seu povo desconhecia a escrita e assim não teve um Homero, um Virgílio, um Luis de Camões para lançar na posteridade a epopéia de sua saga imperial. Sobraram de suas façanhas alguns vestígios materiais, algumas crônicas escassas escritas por outros povos e alguns causos orais que, no fluxo das gerações, de tanto serem contados e recontados, ganharam ares de lenda. Muito pouco, talvez, para um conquistador tão feroz e fulgurante.

Recorro a um desses causos remanescentes. O exército de Gengis Khan vinha de uma seqüência gloriosa de conquistas. Sua cavalaria afoita passava a fio de espada todo aquele que esboçasse a mais pálida contrariedade em se submeter aos poderes do grande guerreiro. Deixava para trás destruição, morte e subjugados. Levava em seus alforges, frutos da rapina, toda sorte de tesouros: ouro, prata, roupas, escravos, cavalos, alimentos. E a confiança sempre crescente de que nada, nem ninguém poderiam barrar a sanha conquistadora.

Foi com esse ânimo exaltado e justificadamente confiante que Gengis Khan chegou aos portões da cidade de Pequim. Com seus generais a postos, com os soldados aprumados em seus ginetes empinadiços, com as armas adequadas em punho, com seus pesados aríetes prontos para arrombar os portões e ver a tropa entrando e quebrando tudo, como as águas turbulentas de uma represa desmantelada.

Qual não foi a surpresa da tropa ante a inusitada ordem do comandante:

— Dispersar!

Poderiam todos levar seus palafréns ao ribeirão a sorver água, ou então deixá-los a pastar no bem-bom do verde. A excitação da eminente luta, agora desautorizada, criou um começo de tumulto. Mas o chefe se explicou para os generais mais chegados.

Ele tinha um plano.

Afinal, Pequim era uma cidade preparada demais para se enfrentar assim, simetricamente. Iria negociar com o comandante das tropas inimigas, que deveriam estar postadas logo atrás dos portões, armadas até os dentes, prontas para o mais duro combate. Além dos ardis que por certo teriam preparado pelos quatro cantos da cidade.  Então, aquela que se desenhava a luta mais sangrenta e temerária, nem precisaria acontecer.

Os comandados não entenderam bulhufas. Será que o impávido guerreiro, assim não mais que de repente, estaria afinando?  Mas não se dilataram em questionamentos. Afinal, quem tem um comandante do naipe de  Gengis Khan, não é preciso entender direito para prestar obediência.

O poderoso rei dos mongóis, solitário, desarmado e a pé, bateu às portas de Pequim, modesto como um menestrel ou um beato. Disse que buscava entendimento e paz. Propôs ao chefe dos chineses: para que não haja batalha, me tragam um cão de cada residência, ou melhor, me tragam todos os cães que existem nessa progressista cidade (há uma versão que diz que ele pediu gatos, mas os cães servem melhor ao nosso propósito).

Animados com a possibilidade de uma solução pacífica, nem perguntaram para que tanto cão. 

Aceita a primeira condição, combinaram o horário. Os chineses se aliviaram e imediatamente, de altivos guerreiros, se converteram em modestos e risonhos laçadores de cachorros. Os generais agora se misturaram às mulheres, aos velhinhos, às crianças à cata dos titius. E deles se despediam com ternura de quem se despede de um ente querido que parte para uma missão redentora. Intuitivos como são, arrepiados, de rabo enfiado entre as pernas (travando o sorriso), os cães pareciam ter maus pressentimentos.  Mas no horário combinado, estava lá toda a matilha, atrelada e ajoujada.

Durante uns três dias os mongóis ficaram ensebando aqueles milhares de cães, do lado de fora do muro, às portas da cidade.  E os chineses comemorando a solução pacífica e fazendo conjecturas sobre o arraigado apego, quase inocente, daqueles guerreiros aos caninos. Diante de tanta benevolência, até levaram, entre vênias e risos, presentes para os invasores: vasos de porcelana, bonequinhos de terracota, cachaça de arroz, guisado de cobra...

Mas na sexta-feira, início da tarde, quando o sol é mais abrasador, a tropa mongol, sem doçura, quebra os portões de Pequim na porretada. Solta a cachorrada, cada cão com uma pequena lata atada ao rabo. A lata continha um material de lenta combustão, composto de cal virgem, potassa e estopa de linho, já impregnado por uma mecha de fogo. Tudo devidamente acondicionado e protegido por uma tela delgada.

Gengis Khan, pessoalmente, rumou contra as pedras umas canas-da-índia assadas na fogueira, e berrou como um danado. As canas estouraram como bombas e os cães saíram em disparada, que desde tempos imemoriais, cachorro tem medo de foguetes (antes mesmo de alguém os ter inventado). Entraram tresloucados pelos portões caídos, ganindo cãe-ãe cãe-ãe pelas estreitas ruas de Pequim e os chineses, sem entender que armação era aquela, ficaram paralisados, em seus risinhos sem quê nem por quê.

Os cães enfurnaram em suas casas e se esconderam onde costumam se esconder ao ouvir qualquer explosão: debaixo da cama de seus donos.

Em minutos, a cidade era uma só labareda.

Foi então que os poucos sobreviventes de Pequim entenderam, tardiamente, que o apego dos guerreiros mongóis ao mais antigo companheiro do homem, não era assim tão inocente.
 


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POR EM 09/03/2009 ÀS 11:18 PM

Conjecturas em torno do cadáver

publicado em

Tiros ouvidos também não foram de foguetes pela volta de Jesus, e nem emissários de balas perdidas, oriundas de alguma famigerada favela, feito “marimbondos de chumbo querendo morder carne”, como se escreveu numa história de detetive naqueles pockets books da década de 60. Alvejei mira no peito do coronel Coronha, que era o meu coronel e não haveria de ser de mais ninguém

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não. Deus esteja. Guimarães Rosa é o cara e "Grande Sertão: Veredas" o romance, a prosa poética, a obra-prima imbatível e perene, porquanto única. E o que temos aqui e agora são meras conjecturas em torno de um cadáver já frio e rijo, em pleno gozo do rigor mortis . O repouso do guerreiro no reino dos mistérios gozosos e dolorosos da matéria em decomposição. Um morto feito de ficção e realidade, donde semelhanças com pessoas e fatos reais não serem mera coincidência, antes o corpo de delito com os penduricalhos do discurso, tais como ainda grafar-se conjetura com “c”, a exemplo de veredi(c)to; a consoante como um piercing de micção dos termos processuais, espumijando-se nos mictórios dos tribunais do júri, senão quando em forma de adereço nos anais do ânus, se o senhor me entende o artesanato verbal a uma geração tatuada e metálica, com perfurações de agulhas e balas em toda parte do corpo, até nas partes pudendas. Sabido e consabido que nos tribunais a sorte às vezes é lançada num jogo de dados viciados, e não me venham com a pecha de heresia jurídica. Genit( alea jacta est ). Ate porque a sorte é fruto do acaso e este não consta dos autos do processo.

Nhor não. Tiros ouvidos também não foram de foguetes pela volta de Jesus, e nem emissários de balas perdidas, oriundas de alguma famigerada favela, feito “marimbondos de chumbo querendo morder carne”, como se escreveu numa história de detetive naqueles pockets books da década de 60. Alvejei mira no peito do coronel Coronha, que era o meu coronel e não haveria de ser de mais ninguém. Metia-se em mim e me apaziguava os grilos cotidianos com a Justiça brasileira, esse moroso e angustiante emaranhado de labirintos que é a minha área de atuação. Infinitos corredores por onde ando e empino meus glúteos e minhas glândulas mamárias e utilitárias, profissionalmente falando, bem entendido, pois não sou de trajes sumários como tantas por aí, umas tontas que, em se tratando de obter favores dos bastidores, só raciocinam e se sujeitam com os seus odoríficos orifícios. Ossos do ofício, dizem elas. Pois sim. Do ofício, uma pitomba! Buracos sulfúricos da falta de dignidade ou da pura sem-vergonhice, isso é que é.

Nhor sim. Mirei o peito broncopeludo do meu coronel, ele com a visão e a truculência características da caserna, tanto na disciplina de comandantes e comandados quanto em suas vidas privadas, com as garras aduncas de suas carícias e o jeitão brucutu de seus amplexos e acochos, peito com peito, coxa com coxa, saliência com reentrância e assim a fome com a vontade animalesca da querência. Vida e morte cabeludas, seu Severino. Mirei como Deus mira seus raios no dia da ira e mandei bala com o som e a fúria de um Faulkner atolado no álcool, que nem uma égua no brejo. Nhor sim, que também cultivo a minha cultura etílica, inobstante o preço que se paga por sair da linha de vez em quando, pois ninguém é só CDF do comando, como resmungava o meu amado Coronha, lá com os cadarços de seus coturnos.

Por acerto de contas, tiros que o senhor ouviu foram de ciúmes que dele eu tinha, e ódio que me deu aquela voz de mulher na secretária eletrônica dele. E foi bem feito. Quem mandou ele me usar feito um CD, Lado A, Lado B, e daí me trair, me trocando pela primeira traíra vagabunda que encontrou e nem sei quem é? Porque, se soubesse — ah, seu eu soubesse! Em primeira instância, consoante os artigos, incisos e parágrafos em situações passionais, acabava com ela só com arrancar-lhe os cabelos, como de praxe em briga de mulher, ou então pegava ela no tiro certeiro, via telefônica mesmo. Apertava o gatilho e metia bala na boca do fone pela linha afora até o ouvido dela, pra ela nunca mais se meter, stricto e lato sensu , com o meu homem. Em última instância, eu capava a piranha e enfiava-lhe a periquita fedorenta no reto. E nem me releve, meritíssimo, por conta do meu estado emocional, os termos de baixo calão, mas é que estou mesmo fula com a fulana, estou pra lá de tiririca da vida com aquela sirigaita duma figa, se dando de oferecida.

Reconheço que agi ao calor do furor uterino enciumado, abraçada ao meu rancor, parafraseando o saudoso João Antônio, que escreveu o conto sobre a arte de chutar tampinhas. Vai daí que atirei, mas não matei o coronel Coronha, que não era o Bira do Jardins, mas era o tantã tumtum do meu coração desnudado, como diria o poeta Baudelaire, se bem me lembro. E a Polícia Civil, se viu o que não viu, concluiu que Carlina Cipollia matou o amante coronel Bira Tan, aquele um que arrasou com os revoltosos da farra do Cariru. Torou no tiro cento e onze homens-números, que disso certamente não passavam para a sociedade. Cento e onze elementos paridos pelas contradições do Sistema e por seus próprios distúrbios psíquicos ou desvios de caráter, por má índole mesmo, própria do indivíduo, herança da ferocidade ou do instinto primordial. Cento e onze reclusos, um atrás do outro, como diria o debochado Clovildo, deputado debutante no covil das serpentes, egresso de vida pregressa, pelo viés do cós do costureiro, e agora inserido pela greta da urna, recipiente cívico que muitos ainda confundem com penico. E que importa se Carlina Cipollia matou ou não matou? Claro que importa, mas há problemas muito mais sérios afligindo o país, além dos banais crimes passionais da vida em comum. A opinião pública é cínica e já não liga muito pra fatos banais, embora se ligue em boatos, e se ainda se liga é porque liga a televisão e se alimenta da titica cotidiana da mídia no vídeo, ou então se deixa levar mais pela curiosidade própria do ser humano e menos por qualquer outra razão ou nobreza de caráter. E já não liga muito até porque a douta mãe de Carlina Cipollia, meio que sisuda e categórica, mas sem a consistência de um nó de cipó e sem nenhuma lágrima de cebola para o álibi da filha, disse que ela é inocente, enquanto o presidente da República insiste que não viu e não sabe de nada.

Além do quê, meu nome é Vulvagina e meu caso aqui é outro e nem é tripudiar sobre a dor dos outros; vá-se medir a dor alheia e ver se não é maior que a minha nesse país de surubas e urubus de lixão, de latinos e bundalelês, de gente patética e ridícula, a par com urbanas turbulências e chagas purulentas. O mais é que os fatos se deram conforme foram por mim relatados, e mais não digo nem me seja perguntado. Posto o que, peço deferimento. In dubio pro reu . Ao acusador o ônus da prova. Quem matou não fui eu, como diz o Paraíba da piada ao delegado: eu não mato não, doutor; eu só faço o furo com a peixeira; quem mata é Deus. Aquela mesma conversa do malandro engabelando a moça zelosa de seu hímen, dividida entre deixar ou não deixar e com medo de doer. Deixa eu pôr só a cabecinha, que o resto é só pra levar e trazer a cabeça. Olha só a conversa do moço. É mole? Não. É duro. E o certo é que não matei. O Paraíba é minha testemunha. Quem matou o coronel Coronha foi a bala que saiu de minha arma. Eu apenas apontei e apertei o gatilho. Se matou é porque Deus não interferiu, não desviou a trajetória da benedicta bala, e a bala entrou. Se não entrasse, não mataria. Além do quê, quem ama não mata, e se mata é com bala de chumbo mentolado.

Elementar, meu caro Watson. E ahora el coronel no tiene quién le escriba. No hay quién escriba al coronel . Pois não se escreve para os mortos, antes são eles que escrevem para os vivos, por meios psicográficos, uma mina de ouro dos mortos pra muita gente viva, se me acompanham o sentido figurado. Não. Ninguém escreve ao coronel. Também não se dá bom-dia aos defuntos, embora um belo dia tenha dado o título ao romance de Manuel Scorza. E gastar-se tinta pra quê, por causa de um coronel, a essas alturas do irremediável, a essas horas da matéria pútrida, de uma pátria em adiantado estado de decomposição? A importância do morto é mais por conta do alvoroço da imprensa e decorre da ligação do de cujus quando vivo com o massacre do Cariru, caso contrário nem haveria suíte em novas edições, senão e somente ao palato da necrofilia impressa, falada e televisiva. Portanto, aos vermes o lauto banquete. Aos mortos, o silêncio e a solidão. A tediosa eternidade. Ao final das contas, quem mata, mesmo, é Deus, pois não está dito que Deus dá e Deus tira? Deus cria homens como quem engorda porcos, para matá-los. Calha-nos o cinismo num país de crápulas e cínicos, de gente escrota, cretina. E não nos venham com a válvula de escape ou desculpa esfarrapada do livre-arbítrio para justificação dos crimes. Haveis de convir com a defesa, senhores jurados, que, se é Deus quem mata, ninguém tem culpa de nada. Ninguém matou nem está matando essa gente toda aí pelo mundo afora. Carnificinas, massacres, genocídios, tudo isso é com o andar de cima. Somos todos inocentes sobre a face da Terra. Libertem, pois, Carlina Cipollia. Sabiam que carlina é o nome que se dá a cada uma das travessas que seguram as longarinas, na construção das pontes? Carlina Cipollia é um anagrama que se queria de mãos dadas — travessa e longarina —, com o seu coronel. A vida como ela é, diria Nelson Rodrigues. Já o cariru é um vegetal, e brotos de cariru se comem refogados, ao passo que aqui se tem uma narrativa polifônica que se come crua, revogadas as disposições contrárias ao arbítrio de quatro vozes neste texto em curso, quais sejam as do narrador, da personagem enquanto ré, do advogado de defesa e do juiz com o seu inusitado veredicto, correndo a acusação por conta de quem atira a primeira pedra.

Quanto ao coronel em questão, outro que não o meu, a ir-se pelo massacre do Cariru e pela Bíblia, o inverso é similar e a recíproca é verdadeira: quem confere ferro, com ferro será conferido. Está escrito. Se a muitos matou no sangrento episódio do Cariru, foi morto pelo ódio nos jardins do amor. Um conto é um conto. Tem os Contos dos Bosques de Viena , que é uma valsa de Strauss, e tem o Conto tristonho do amor risonho , de um autor ou autora brasileira cujo nome esqueci. Quem conta um conto acrescenta um ponto. Se nos permite o leitor levá-lo até o fim da linha, verá que o fim da linha sempre se encerra com um ponto final, ainda que numa frase reticente.

Assim, senhoras e senhoras, ajuizadas as nossas míseras conjecturas em torno do cadáver, é de supor-se, e este é o veredicto, que a ré Vulvagina Quadrilábios de Oliveira — se há uma ré aqui —, é inocente. Com um esforço do esfíncter, certamente ela mesma dirá à sua consciência que, ao atirar no coronal Coronha, nada mais fez do que prestar-se a instrumento de Deus. Se alguém contrapor que ela agiu pelas mãos do demônio, é bom lembrar que também o demônio, de Lúcifer a Satã, é fruto da criação divina. Nada poderá mudar isso, por mais que neguem, por mais que tentem, e a menos que desmintam as Sagradas Escrituras e mudem o que está milenarmente escrito, inspirado, como dizem, pelo Espírito Santo. Donde se conclui que, se temos um demônio, foi do céu que ele nos caiu. Caso encerrado.
 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 04:25 PM

Imperador de papel

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Não havia ninguém na platéia e ocupamos duas poltronas bem perto do palco. Fiz um longo preâmbulo antes de dizer a ele que um imperador, como eu queria, tinha de ter uma voz um tanto rude e dirigir-se aos outros com certa rispidez. Falei dos gestos também: largos, bruscos, acompanhados de um olhar severo

Como a descoberta tardia de uma vocação. Ou a descoberta tardia de uma vocação. Talvez o encontro, finalmente, de um si mesmo em potência, latente, que, latejante, vem a furo. Um ser tem escolha de si, do modo como será? Ninguém nasce pronto, forma acabada, mas por isso tem poder de escolha? Nos lugares de sombras, onde o sol jamais, e a umidade, como saber o que existe, se espelho algum desce ao fundo?

Minha culpa, entretanto. Não um pecado, pois já cataloguei minhas descrenças; tampouco um crime, que um crime exige uma ação qualquer. Ou sua omissão. Apenas o exercício da função para a qual me chamaram. Isso pode ser a colisão quase milagrosa de dois corpos na imensidão do universo, mas não há culpa.

Tínhamos decidido, costume antigo, jantar juntos depois da estréia. Na calçada, em frente ao teatro e enquanto as luzes se apagavam, ficamos atônitos com o que vimos.

A escolha do elenco e a distribuição dos papéis foi o início do jogo. Início fácil, quase natural, pelas qualidades conhecidas de atrizes e atores. Ninguém reclamou da parte que lhe coube. Isto é, quase ninguém. Como é representar um imperador?, questionava Pedro, enquanto os demais, muito enroupados de panos grossos e coloridos, já brincavam de ser o que não eram, todos rindo barulhentos mercê do entusiasmo com que já se imaginavam no palco.

Pedro era o único a parecer descontente, me olhando de testa enrugada, por isso resolvi gastar mais tempo com ele.

? Ninguém, como você, Pedro, tem essa voz soberana e essa sua cabeça imperial.

Ele me olhava desconfiado enquanto eu explicava as razões de minha escolha. Por fim, conformou-se Pedro com seu papel e prometeu aceitar meu conselho para que estudasse bem a vida íntima, os gestos e o pensamento de um imperador.

Bem sei que na primeira leitura de mesa poderia ter mudado o rumo do que aconteceria, mas tenho a meu favor o fato de que em todos os segundos da vida estamos mudando o rumo do futuro desconhecido. Como saber o que então seria se não fosse o que é? Eis por que não me sinto culpado.

O elenco todo foi brilhante na leitura e nas discussões. Alguma correção, umas poucas sugestões, isso sempre acontece. Pedro, contudo, tinha alguma coisa na voz, um trêmulo e uma espécie de suavidade que, para mim, não eram seus, muito menos de um imperador. 

Na despedida, fui saindo ao lado de Pedro, disfarçado dentro de mim, como alguém que apenas está saindo. Perguntei a ele se já começara a estudar a personagem: E daí, já começou a estudar a personagem? O modo entusiasmado de sua resposta me espantou um pouco, por isso não quis continuar o assunto. Me contou que encontrou vários textos na biblioteca, alguns com descrições muito vivas e coloridas. Como se estivesse vendo, ele repetiu com rosto iluminado de satisfação. Como se estivesse vendo.

Na esquina, cada um de nós foi enfrentar sozinho o frio da noite no rumo de casa. E a cidade ouvia nossos passos na calçada com certa reverência sonolenta e silenciosa. Estava em mim alterar o futuro? Conheço o jogo e me fio em suas regras. Tempo havia de sobra para as correções e os desvios necessários. Menos de um quarteirão à frente, já enredava os pensamentos em alguns fiapos de sonhos movediços, e o principal deles era o sonho com a noite de estréia. Um sonho de gozo e sofrimento com que dou cor à ansiedade.

Nas semanas seguintes andei distraído com gestos a refazer, entonações a modificar, ritmos a corrigir. O grupo era muito competente e cada um, com sua experiência, contribuía para o conjunto. Nunca dirigi com mão de ferro, mas retocava tudo que me parecesse incoerente e despropositado. Desse tempo, me ficou a vaga impressão de que Pedro continuava falseando a voz, muito diferente daquilo que esperávamos dele.

Poucos dias antes do ensaio geral ninguém mais tinha problemas com as deixas ou com o texto. Ninguém tropeçava mais em palavras e as marcações, no palco, já não nos preocupavam nem um pouco. Os ensaios tornavam-se o afinamento da peça (o brilho final) e eu mais usufruía o que estava feito do que trabalhava.

Ocupado com os outros, não pode haver outra explicação. Já conhecia o trabalho de Pedro, um ator jovem que me agradava, por ser muito estudioso e executar suas tarefas com extrema seriedade e um tanto de severidade. Muitas vezes chegava a ser extrema mesmo, sua seriedade. Quando, cansados após um ensaio, nos reuníamos em volta de uma mesa de bar, Pedro mantinha-se muito tempo calado, ouvindo os outros, rindo poucas vezes e bebendo quase nada. Jamais soube que ele consumisse droga alguma, em nosso meio uma prática comum. Era sempre o primeiro a decorar seu texto, a sugerir intenções, a ajudar os colegas. Ocupado com os outros, só podia ser isso, não prestei atenção no que acontecia com Pedro.

Ainda não era uma preocupação. Contava com meu poder de persuasão para convencer Pedro a mudar de voz. Eu tinha acabado de entrar no teatro quando o vulto dele apareceu no quadrilátero da porta. Andava devagar, e seus gestos, mesmo os mínimos, tinham adquirido uma solenidade majestática que me impressionaram. Estendeu-me a mão para o cumprimento e inclinou muito de leve a cabeça. Resolvi, naquele momento, ter uma conversa mais demorada com ele.

Não havia ninguém na platéia e ocupamos duas poltronas bem perto do palco. Fiz um longo preâmbulo antes de dizer a ele que um imperador, como eu queria, tinha de ter uma voz um tanto rude e dirigir-se aos outros com certa rispidez. Falei dos gestos também: largos, bruscos, acompanhados de um olhar severo.

Pedro me ouviu com um ar um tanto absorto, como se não fosse ele nosso assunto. Quando parei de falar, ele sorriu e disse que eu estava equivocado. Isso que você quer, Teobaldo, isso não é um imperador. O que você está me propondo é só um estereótipo. Me contou que desde o dia em que assumiu o papel, vinha estudando pra burro tudo que encontrasse sobre a vida de Dom Pedro II. E ele não foi um imperador?

Discutimos algum tempo sobre certas necessidades da linguagem teatral, que nem sempre pode abrir mão de algum estereótipo, porque gestos e imagens não deixam de ser uma significação para o espectador. É preciso levar em conta um conhecimento prévio da platéia pra que se estabeleça a comunicação. Ele fingia me ouvir. Eu sei que ele apenas fingia me ouvir. Notei a imobilidade do arco de suas sobrancelhas como moldura de uns olhos aguados, aqueles olhos de contemplar estrelas. 

Por fim, ele prometeu muito esforço para enquadrar sua interpretação em meu pedido. E andou, realmente tentando. Até mesmo no ensaio geral percebi que ele tinha evoluído, e o que estava fazendo já era satisfatório.

Em noite de estréia sempre peço que atores e atrizes cheguem ao teatro uma hora antes, para o último laboratório e a meia hora de concentração. 

Quando Pedro chegou, senti uma dor aguda que me pareceu no baço, uma dor que me repuxou o lado esquerdo do baixo ventre. Ele entrou no saguão olhando para o infinito e com um sorriso esboçado com tanto tédio que todos começamos a cochichar. Deu a mão a todos da companhia e pareceu muito admirado pelo fato de ninguém ter-se curvado em sinal de respeito.

Deitados na coxia, pedi que todos fechassem os olhos e mentalizassem as personagens que representariam. Era um exercício comum, com que a gente de teatro está perfeitamente acostumada. Durante o exercício, reparei que Pedro estava muito pálido e executava uns gestos que não eram dele, como repuxar um dos braços, mover a cabeça para um lado e outro. Cheguei caminhando com pés de silêncio até perto dele. Sua respiração era arquejante e suas pálpebras tremiam. No fim do exercício eu estava convencido de que Pedro estava sofrendo muito, atacado, talvez, de alguma doença.

Antes do relaxamento, chamei Pedro a um canto e lhe perguntei se se sentia bem. Com a dignidade e a calma de quem transcendeu sua condição terrena, Pedro me respondeu que não, não estava bem, que recebera à tarde a notícia de que sua filha Leopoldina tinha morrido na Áustria.

Tentei entender aquilo tudo como uma brincadeira e meia hora depois estávamos com o pano de boca aberto recebendo os primeiros aplausos. Consegui manter-me discreto e não comentei com os outros a impressão que me dominava.

Nosso desempenho foi um sucesso, apesar do estranho imperador que Pedro representou. Na verdade, sua figura etérea agradou muito ao público.

No fim do espetáculo, corremos todos para os respectivos camarins, pois tínhamos de nos desfazer daquelas roupas para o jantar de comemoração.

Vestido como estava, e com um semblante carregado de tristeza, Pedro despediu-se de nós, dizendo que precisava dormir cedo, pois na manhã seguinte embarcava para Viena.                                         


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POR EM 10/12/2008 ÀS 09:49 AM

Ciúmes, Viagra e tiros dentro da noite

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Meus amigos nunca entenderam. Meus pais nunca aceitaram. Até bem pouco, eu mesma nunca chegara a compreender direito quais forças me arrastaram para o núcleo trágico da vida do Coronel Ubiratan.

Aparentemente não temos nada em comum: nasci de uma família bem-estruturada, num bairro grã-fino, ele de uma família em ruínas, numa periferia lascada. Tive educação esmerada na Europa, ele se ralou na caserna. Nem à mesma geração nós pertencemos. Sou 23 anos mais nova que ele. Nada temos a comungar, a não ser esta pulsão fatal e incontrolável pela tragédia.

Meu analista diz que fui atraída por ele em razão de sua aura de poder violento, que ele passou a empunhar depois que apagou tantas vidas de uma só vez. E o mesmo motivo que provocou a minha aproximação me levou a matá-lo, pois era como se eu tomasse para mim a força poderosa que nele eu via. Pode até ter uma certa lógica, mas não tem nada de verdadeiro.

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia, como disse o bardo inglês, com muita propriedade. No fundo, o que existe é um liame secreto e inquebrantável. Ocorre que, desde muito cedo, eu soube que minha vida seria regida pelo número 11, que é a plenitude do 10+1, o transbordamento, a desmesura, o viver em seu teor máximo, no limite, na raia da ruptura, já alcançando a falha universal, entre o factível e o fugaz.

Agora há pouco, porém, numa pausa que construí no meio desse burburinho, peguei lápis e papel e levantei alguns dados sobre o Coronel Bira e eu nessa situação aberta em escâncaras. Pude constatar o que eu já desconfiava: que a vida dele, assim como a minha, está toda entremeada pela exuberância do número 11.

Senão vejamos: Coronel Bira, como é tratado na intimidade, tem 11 letras. Ele nasceu no mês 4 do ano de 43, cuja soma dá 11. A marca maior de seus feitos são os 111 mortos sob seu comando, no episódio que ficou conhecido como a Chacina do Carandiru.

Vejam só: o número 111 carrega a fatalidade potencializada. É como se fosse um 11 entrelaçado com outro 11, com o algarismo 1 do meio servido aos dois numerais, numa conexão nefasta, em seu máximo grau.

O tumulto que desaguou no massacre foi iniciado pelos líderes de duas facções internas rivais. De um lado o “Barba”, de outro o “Coelho”, cuja soma das letras dá 11. A situação fugiu do controle às 14h51, na qual a soma é 11. A invasão foi comandada por 1 coronel (Ubiratan) mais 325 soldados, números que tendo seus algarismos adidos redundam em 11. A hora provável do tiroteio foi às 18h20, que é igual a 11. O número de disparos contabilizado pela perícia foi de 515 (5+1+5=11). O massacre, propriamente, aconteceu no pavilhão 9, portão 2, um local conflagrado pelo número 11.

Seu julgamento pelo massacre começou no dia 20/6/2001, com a soma resultando em 11. No primeiro júri foi condenado a 632 anos de reclusão (6+3+2 = 11).

A frase mais emblemática que ele proferiu em sua própria defesa foi: “Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111”, que tem 11 palavras. Além do cabalismo numerológico, essa frase deixa transparecer a opressão da força maior a que fora submetido na realização de seu desatino.

Quando nos aproximamos, fomos conduzidos pelas forças ocultas do número cabalístico, que é ao mesmo tempo divino e libidino, sacro e escroto. Nós nos conhecemos num evento militar em que eu representava minha mãe, no dia 1/7/2001, data que, somada em seus algarismos, resulta em 11. Ubiratam + Carla Cepovilla tem exatamente 22 letras, que, divididas por dois titulares, dão a parcela de 11 para cada um. Inicialmente marcávamos nossos encontros no “clube de tiro”, que tem 11 letras.

Essa coincidência de número 11 segue numa sucessão tão assombrosa quanto enfadonha.

Com esta breve demonstração eu quis apenas dar uma pista de que nem o Coronel Bira nem eu temos qualquer culpa ou dolo em toda essa sucessão de tragédias. Tudo já estava desenhado pelos propósitos do além. Forças descomunais e irresistíveis impuseram as situações, apontaram as armas e premiram os gatilhos. Fomos instrumentos involuntários de desígnios insondáveis.

Quem tem um mínimo de cultura teosófica sabe que o número 11 é o desequilibrador dos elementos constitutivos do universo, determinante de suas doenças e erros. É esse número cabal o símbolo da luta interior, da rebelião, do extravio, do pecado original, da revolta dos anjos, enfim.

Se nem os anjos, que são assessores diretos de Deus, puderam resistir a seus efeitos desagregadores e decaíram, como poderíamos nós, simples mortais, resistir à imposição desse império?

Saibam todos que, visto de um modo superficial e simplista, fui eu quem matou o Coronel Bira, quando ele disse que não ia mais desperdiçar Viagra comigo, que determinada fulana fazia melhor e tal. Mas se olharem a realidade mais profunda, como deve ser, como rogo que façam, tanto o coronel, na realização do massacre, quanto eu, no seu assassinato, não tivemos culpa nem dolo. Fomos, repito, apenas instrumentos de uma determinação superior, simbolizada pelo número 11, à qual ninguém é dado resistir.

A frase mais emblemática que ele proferiu em sua própria defesa foi: “Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111”, que tem 11 palavras. Além do cabalismo numerológico, essa frase deixa transparecer a opressão da força maior a que fora submetido na realização de seu desatino

 

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POR EM 08/12/2008 ÀS 04:42 PM

Abundância de estrelas no céu

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"Da copa da figueira, toda ela uma sombra fresca, então, escorria crepitante a algazarra dos pardais, em que cada pipilo continha uma urgência de registro muito agudo. Como não se visse nem se ouvisse ônibus nenhum desde que o Sol, esbraseado, sumira num incêndio por trás de uns edifícios escuros"

Seus duros pés fincados na plataforma cresciam dormentes de espera. Envolto pela multidão, era quase impossível mover-se do lugar. O reflexo do Sol a meio céu borrava com esplendores, para olhos cansados de ver como eram os seus, o letreiro dos ônibus - o destino que prometiam. Ao lado, de mochila às costas, o menino exibia as habilidades recém-adquiridas, gritando para a mãe o nome de bairros próximos e distantes. Sem exagero de gratidão, porque era inconsciente, Noé valia-se daquela ajuda enquanto se esforçava para mudar a posição dos pés enraizados e presos dentro de botas secas.

O menino gritou Paraíso como um alívio alegre, e a mãe sorriu. Antes que o ônibus parasse, corpos suados disputaram o espaço à beira da plataforma. Entre eles, a mãe com o filho preso pela mão. Noé reparou que ela usava uma saia fina e florida, diminuindo seu peso, então resolveu sentir calor. Com os braços em cruz no peito, pegou a blusa pela borda inferior e a retirou por cima da cabeça. Agora sim, ele respirou, agora seu corpo estava muito melhor. Mas o ônibus já partia e ele começou a sentir saudade do menino que sabia ler e de sua mãe que usava uma saia fina e florida.

Com menos gente na plataforma, Noé começou a observar. Não para distrair-se na espera, que não podia medir, mas porque o mundo se abre ante olhos abertos. Notou que havia uma imensidão de sapatos, quase todos parados na extremidade de pernas ligeiramente abertas. Os mais agitados, ele concluiu surpreso, são os menores e de cores mais alegres. Alguns, como suas botas, pareciam plantados na dureza do cimento: totalmente imóveis. A maioria dos sapatos estavam ou sujos ou foscos, descoloridos. Apenas uns poucos brilhavam como estrelas.   

Mais um ônibus estacionou rangendo suas ferragens, para alegria de algumas pessoas, que passaram à condição de passageiros. A plataforma ficou ainda mais aliviada, e, olhando para a direita, Noé descobriu que, ao lado da rodoviária, havia uma praça. Não muito grande, ele percebeu quase frustrado, mas dominada por imensa figueira cuja sombra cobria todos os bancos e algumas das pequenas aléias de saibro que a cruzavam. Além da praça, os prédios escondiam o horizonte; acima dela, um céu imaculado, azul como um vidro. Estar lá, à sombra, foi um pensamento que lhe ocorreu para sentir-se mais alegre. Mas como descobrir, daquela distância, o destino de cada ônibus?

Resolveu então voltar àquela neutralidade entre a alegria e a tristeza, um estado cinzento com que costumava esperar suas conduções.  

Envolvido com a praça e a sombra de sua figueira, muito mais atento aos fluxos internos, sutis pensamentos, Noé assustou-se ao ver estacionando mais um ônibus. Enquanto devaneava, o mundo acontecia? Teve de afastar-se rapidamente do lugar onde estava para ler o letreiro à testa do coletivo.

Suspirou aliviado: não, também este não lhe servia. Com os braços da blusa cingindo-lhe a cintura, Noé voltava para a mesma posição que ocupara todo esse tempo, mas descobriu, num surto de alegria, que, em alguns dos bancos junto à parede, havia lugares vagos. Meus pés, ele pensou de imediato e sem querer, não precisam continuar crescendo. Já havia pouca gente na plataforma, e a brisa atravessou aquele espaço farejando alguma coisa como numa caçada. Noé esfregou os braços nus com as duas mãos. Esfregou com força e aspereza até sentir que o calor voltava.

Só então, com o corpo largado na tábua lisa do banco, foi que Noé lembrou-se de enfiar os dedos na barba branca. Era seu gesto preferido de meditação. Desde que chegara, muitos ônibus haviam chegado e partido. Nenhum deles, entretanto, com um destino aceitável. Tristeza, Floresta, Penha, Paraíso, Campo Grande, uma lista sem fim, mas nenhum que lhe servisse. Estava no seu direito, portanto, de sentir-se irritado. E isso, apesar de agora gozar as delícias de um assento, sem a necessidade de sentir os pés crescendo desmedidamente.

Quando apontava a soberba frontaria de um ônibus qualquer, Noé levantava-se cheio de esperança e, na beira da plataforma, ficava atento até descobrir que não era aquele o caminho que pretendia. Na segunda ou terceira vez em que isso aconteceu, Noé notou que os reflexos do sol, tão incômodos algumas horas antes, haviam-se extinguido, e ele conseguia ler com facilidade uns nomes que nada lhe diziam. Voltava para o banco coçando os braços, vítimas inocentes de sua irritação.

Da copa da figueira, toda ela uma sombra fresca, então, escorria crepitante a algazarra dos pardais, em que cada pipilo continha uma urgência de registro muito agudo. Como não se visse nem se ouvisse ônibus nenhum desde que o Sol, esbraseado, sumira num incêndio por trás de uns edifícios escuros, Noé pôde dedicar-se por inteiro à escuta do alvoroço com que os pardais ajeitavam-se para esperar a noite. Foi assim que, tendo os olhos desocupados, olhou para o céu, onde surgiam as primeiras estrelas. Naquele momento, observando bem o azul ainda claro, Noé descobriu como é o infinito. E apesar do cansaço, da irritação, ele conseguiu um sorriso satisfeito, pois era uma descoberta feita de inopino, totalmente casual.   

Finalmente apareceu mais um ônibus. E esse já vinha todo iluminado. Do banco, onde há bastante tempo estava sentado, Noé pôde ler o letreiro, que indicava um lugar qualquer, de que ele nunca tivera notícia. Não foi preciso levantar-se para decidir que era mais uma decepção. O ônibus parou, abriu a porta com um gemido e iluminou a plataforma. Algumas pessoas embarcaram com seus suores no rosto e nas axilas, além da certeza de que eram esperadas em seus destinos.

Noé, sentado em seu banco, dois operários encharcando-se de cerveja e cachaça no bar da rodoviária e o balconista, eram os últimos semoventes da estação. Noé sentiu um frio que era muito parecido com uma solidão, por isso tratou de vestir a blusa. Sentindo-se um pouco mais confortável, resolveu pensar em todos os acertos que viera fazendo nos últimos tempos, o modo como se despedira dos seres e das coisas, até chegar ali, consciente de que não havia mais caminho de volta.

Os dois operários atravessaram a plataforma e sumiram noite a dentro, abraçados e cantando com incongruência suas vidas ralas. Foi um vulto só, o que Noé viu, mas eram duas as vozes roucas, deterioradas. A porta do bar desceu com um estrondo e o balconista seguiu as pisadas de seus fregueses.

Com os braços cruzados no peito, Noé ainda gastou os olhos perscrutando a boca da avenida por onde poderia chegar algum ônibus. Esperou muito tempo. A plataforma era um espaço inútil, vazio, preparada para sua espera de toda a noite. Os pardais já dormiam silenciosos. Apenas de raro em raro podia-se ouvir um pipilo perdido, de quem ainda não se acomodou direito. As estrelas, bem mais nítidas agora, desenhavam navios e castelos na planura do céu.

Noé tossiu um pouco, mas apenas para se distrair. Com a mão direita tateou a extensão do banco, encolheu as pernas e deitou-se.


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