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Para ser artista, antigamente, era necessário uma coisa em desuso chamada “talento”. Por mais que a retórica promocional o utilize de disfarce, o indispensável mesmo, hoje, é ser cara de pau. Não é ofensa: cara de pau é quem não tem vergonha de apelar pra fazer sucesso. Senão, vejamos uma amostra e cada um tire suas conclusões: “A cerveja eu já tenho, quem vai me dar o b…” (Gino e Geno). A mensagem subliminar é clara: se não vulgarizar não emplaca. A música, sobretudo, é campo fértil para a esterilidade dominante nas rádios, festas e programas de auditório. Admite-se que é animado; mas, para suportar ouvir, em sequência, é preciso estar com algum problema de audição.

O critério dessa gente (empresários e produtores, sobretudo) é fazer ruído, barulho. É óbvio que as duplas obrigadas a se enquadrar, que fazem sucesso, não dão a mínima: o negócio é fazer “o que a galera gosta” e ganhar rios de dinheiro, com suas letras francamente debiloides e notas paupérrimas. Está provado que o sucesso é proporcional às besteiras que se diz: quanto mais estúpido, maior o estrelato. Já não é necessário construir uma obra, desde que se emplaque um refrão por temporada.

Não, não seria razoável que a música atual, de linhagem pretensamente sertaneja, fosse feita como em décadas passadas. O desejável é que, sendo atual, fosse também feita com a qualidade do passado. Pois a música sertaneja é uma das expressões culturais mais puras do Brasil, e devemos reverenciá-la como parte elementar de nossa identidade social, em particular das regiões Centro e Sudeste do país. Deu ao nosso acervo musical obras-primas e uma quantidade expressiva de clássicos. E pelo menos duas dessas quinze canções, “Luar do Sertão” (de Catulo da Paixão Cearense) e “Folia de Reis” (de Bariani Ortencio), pertencem já a outra categoria: a da oração. Realmente, “coisa mais bela neste mundo não existe.”

Embora consenso não seja unanimidade, segue, portanto, na voz de intérpretes de primeira (a única exceção é o lindíssimo solo acordeônico de Zé Bettio), um pequeno tributo aos mestres da música sertaneja.

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