Ela canta, dança e se automutila

Ela canta, dança e se automutila

Sinto-me down. Camila está high. Irrequieta, ela arranca dos pés os sapatos. Nascem dali belos artelhos. Então, encantada por música, ela desliza cativante pelo saloon com as mãos apontadas para o alto, o quadril bamboleando freneticamente ao som de “Heart Without A Chest” e os olhos cerrados, imersos num profundo mistério. Quem será esta mulher? Três fadinhas chapadas sobrevoam em fila indiana o seu lombo macio. Daqui parece bem macio. Quisera tatuar os meus olhos nela. Quisera segui-la e sacolejar o esqueleto ouvindo os “The Dissatisfied Dreamers”. Mas não consigo dançar em público. Sofro de recalques impublicáveis, mesmo para uma obra de fricção. Não se usa mais dançar agarrado às pessoas. Pouca gente se ocupa com o rock and roll. É pesado demais. É uma pena. Por alguma razão desconhecida, eu preferia mesmo era rolar para fora do prédio.

A guitarra chora. A moça ri. Encantados, a maior parte dos homens presentes à festa espicha o pescoço furtivamente interessada na gata descalça, ingurgitando-se na altura da cintura, enfiando a mão dentro da calça numa peculiar falta de modos. Um trio de fêmeas siamesas, que fuma tresloucadamente as últimas baganas do bom, velho e cancerígeno Jeronimo’s, parece derreter as gônadas pelo vão das coxas, imantadas de desejo pela moça esguia que rebola açucarada pela pista. São muitos os que aspiram a chupar toda aquela doçura, inclusive, eu que, acocorado numa cadeira elétrica, observo, escrevo, desvivo uma verdadeira farsa. Daqui posso sentir o aroma de alfenim que evapora das suas dobras. Parece mesmo uma sobra no tacho daqueles saborosos doces da cidade de Goiás, só que possui pernas, belas pernas, aliás, que me conduzem por um fio desencapado a nenhum lugar senão outro texto prolixo inverossímil.

Míssil vazio. Porra de festa. São quase 11 da noite e ainda não bebi saliva alguma que me entorpeça. Lastimável sensação. Ando avesso às multidões. Fujo de festas como o diabo foge da Crush. Por falar em calvário, sugo o copo de refrigerante-sabor-laranja e noto que os braços-de-louça de Camila estão riscados de cicatrizes. Eu nunca conheci um ser humano que praticasse a automutilação. Eu tenho um antigo hábito de me auto-sabotar, mas, isso já é outro tipo de desvio psíquico. As supostas recordações escabrosas que Camila anseia extirpar não poderão nunca ser fatiadas com a lâmina de um estilete. Seu corpo é um Sonrisal numa taça; sua cabeça, uma selva.

Preferia trocar de alma. Ela preferia. Eu creio mesmo é nas picanhas grelhadas. O gado tem lá os seus recursos de salvação; eu, por certo, nem tanto. Nada mais merecido para um pobre diabo que gasta tempo escrevendo a esmo. Suponho que existam legiões de monstrengos indomáveis a infestarem sua mente. A mentira é contagiosa. Nos interiores, lembranças crispantes do passado pastam insidiosas, carcomendo corpúsculos de paz e os mais simplórios planos para o futuro. Do passado, quase nada se sabe. Há um excesso de desumanidade oculta sob os tapetes da história.

Louca varrida. Criança oferecida. Escória. Inúmeras vezes, Camila já se adjetivou, impropriamente, sentindo-se culpada, suja, pensando em se matar. As câmaras frias dos necrotérios estão lotadas de gente que tinha o sangue quente. Ela ama a vida. Ela odeia a própria vida. São poucos os que compreendem tais sentimentos antagônicos. Muitos sequer conhecem o significado do vernáculo. Não tem dicionário que defina com propriedade o que seja viver uma crise existencial profunda. Nada nos revela a bíblia, nem a bula do Risotril.

A maioria das pessoas apenas deseja e quer, como qualquer criatura minimamente viva que esteja presente aqui nesta animada festa de confraternização corporativa, admirando a graça e os requebros de uma mulher misteriosa que dança, mesmo que não seja de rostinho colado, com os seus demônios particulares, arrancando suspiros da multidão e sangue da própria carne.