“Entardecer” parte de uma situação reconhecível, quase clássica: uma jovem volta ao lugar de origem para tentar recompor uma história familiar interrompida. Írisz Leiter chega a Budapeste em 1913 com o desejo de trabalhar na chapelaria que um dia pertenceu aos pais. O gesto parece simples, mas nada ali se abre com simplicidade. Seu nome provoca reações evasivas, a loja já não lhe pertence, e cada resposta recebida a empurra para outra pergunta. Nas mãos de László Nemes, essa busca não se organiza como um mistério de peças bem distribuídas. O filme prefere a incerteza, o bloqueio, a aproximação difícil.
Essa decisão dá a “Entardecer” sua personalidade e também parte de seu problema. Nemes constrói um filme de grande rigor formal, atento à textura dos ambientes, ao peso dos figurinos, aos códigos sociais e ao desconforto que se esconde sob uma aparência impecável. Mas seu controle é tão severo que, em vários momentos, a força da experiência se confunde com uma sensação de exaustão. O filme quer nos colocar junto de Írisz, dentro de sua percepção limitada, sem a segurança de um mapa. Consegue isso com precisão. O preço é que nem sempre transforma essa limitação em tensão dramática igualmente viva.
À Beira do Colapso
A Budapeste de 1913 surge como uma cidade que ainda se apresenta com compostura. Há chapéus, salões, fachadas elegantes, homens de modos calculados, mulheres submetidas a protocolos de comportamento. A ordem parece intacta, mas “Entardecer” filma essa ordem como fachada. Tudo soa ligeiramente deslocado, um pouco ameaçador. A Primeira Guerra Mundial ainda não chegou ao centro da ação, mas sua sombra já parece contaminar os gestos, os corredores e as conversas interrompidas.
É nessa fricção entre beleza e decomposição que o filme encontra seu melhor terreno. A investigação de Írisz sobre a própria família não funciona apenas como drama privado. A mancha no nome dos Leiter, a possível existência de um irmão e a resistência que ela encontra ao tentar permanecer na chapelaria se ligam a uma inquietação mais ampla. Nemes não transforma o declínio do Império Austro-Húngaro em explicação histórica direta. Prefere fazê-lo aparecer no ar rarefeito das relações, na hostilidade disfarçada, no medo que atravessa a cidade sem se deixar nomear com facilidade.
A opção pelo ponto de vista restrito é decisiva. A câmera acompanha Írisz de perto, muitas vezes colada à sua nuca, ao rosto, ao deslocamento do corpo em meio a uma cidade que a repele. O mundo ao redor existe em fragmentos. O espectador ouve antes de ver, desconfia antes de entender, percebe a ameaça sem conseguir localizá-la de imediato. O som fora de quadro tem papel central nesse desenho: vozes, passos, tumultos breves e conversas abafadas formam uma rede de tensão que substitui a explicação verbal.
A comparação com “O Filho de Saul” é inevitável, mas precisa ser feita com cuidado. Em “Entardecer”, Nemes retoma a câmera próxima e a recusa do panorama, mas muda o campo histórico e moral de sua investigação. Aqui, o horror não se impõe como evidência extrema; ele se insinua sob a etiqueta, sob os tecidos, sob a arquitetura social de uma elite que ainda se reconhece como civilizada. O filme não olha para a catástrofe consumada. Observa o instante anterior, quando os sinais já estão por toda parte, mas ainda podem ser ignorados.
Juli Jakab sustenta esse percurso com uma presença contida, por vezes dura. Írisz não é desenhada para conquistar simpatia fácil. Ela insiste mais do que explica, observa mais do que se entrega, avança mesmo quando sua presença parece indesejada. Essa opacidade pode afastar, mas também impede que a personagem seja reduzida a vítima inocente ou heroína de investigação. Há nela uma determinação quase incômoda, e o filme se apoia nessa obstinação para atravessar espaços que parecem feitos para expulsá-la.
O Peso da Opacidade
O limite de “Entardecer” está justamente na insistência de seu método. A recusa da clareza é produtiva durante boa parte do filme, mas, mantida por 142 minutos, começa a pesar. Írisz circula, pergunta, escuta respostas pela metade, encontra personagens ambíguos, aproxima-se de pistas que logo se deslocam. O movimento combina com a ideia de labirinto, mas também cria uma repetição perceptível. Em alguns trechos, a dúvida deixa de expandir o filme e passa a mantê-lo girando em torno de si mesmo.
Isso não significa que Nemes devesse ter feito um drama de época mais explicativo. O melhor de “Entardecer” está justamente na recusa do didatismo. O problema é outro: quando tudo permanece enevoado por tempo demais, a névoa perde parte de sua capacidade de inquietar. A narrativa não precisa entregar respostas fáceis, mas precisa modular a distância que impõe. Às vezes, o filme parece tão comprometido com sua própria opacidade que sacrifica vibrações humanas capazes de torná-lo mais cortante.
Ainda assim, há inteligência visual evidente na maneira como a época é filmada. A chapelaria não é apenas um cenário bonito nem um detalhe pitoresco. Ela concentra a contradição do filme: refinamento artesanal, hierarquia social, memória familiar e repressão. O figurino e o desenho de produção não funcionam como vitrine de reconstituição histórica. Eles participam da crítica. Quanto mais delicados parecem os objetos, mais evidente se torna a violência que sustenta aquele mundo. A beleza, aqui, não suaviza; encobre.
Essa é uma das razões pelas quais “Entardecer” permanece interessante mesmo quando se torna árduo. Nemes entende que o passado não precisa ser transformado em quadro explicativo para ganhar força. Sua Budapeste não é uma cidade oferecida ao olhar turístico, mas um espaço de circulação difícil, cheio de portas fechadas, salões tensos e ruas que não aliviam a sensação de cerco. A cidade é ampla, mas o filme a torna estreita. Há movimento por todos os lados, e mesmo assim falta ar.
A crítica ao filme precisa lidar com essa ambivalência sem tentar resolvê-la à força. “Entardecer” é uma obra de personalidade rara, formalmente coerente e historicamente sugestiva, mas também fria em vários momentos, presa a um desenho que repete suas próprias estratégias. É mais forte como representação de um mundo prestes a ruir do que como narrativa de investigação. Quando se acompanha Írisz à espera de uma solução, o filme tende a frustrar. Quando se percebe que a busca dela serve para expor uma sociedade educada a não encarar a própria brutalidade, sua lógica se torna mais convincente.
Mesmo assim, convicção não elimina desgaste. A direção de Nemes tem pulso, mas sua severidade estreita a experiência. O espectador é colocado no centro de uma percepção instável, sem distância confortável, e isso produz momentos de grande intensidade. Também produz cansaço. “Entardecer” não fracassa por ser difícil; sua dificuldade é parte essencial do projeto. O que limita o filme é a irregularidade com que essa dificuldade se converte em drama, tensão e pensamento visual.
Ao final, fica a impressão de uma obra mais admirável do que plenamente envolvente. “Entardecer” tem imagens que permanecem, uma atmosfera construída com rigor e uma visão amarga da civilização europeia às vésperas do desastre. Mas também tem uma resistência emocional que impede adesão mais funda. É um filme que sabe o que quer e leva sua escolha até as últimas consequências. O mérito está nessa integridade. A ressalva, também.

