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“Que Horas Eu Te Pego?” começa em terreno minado. Maddie, uma mulher adulta sem dinheiro e prestes a perder a casa onde cresceu, aceita ser contratada por um casal rico para “namorar” o filho de 19 anos antes que ele vá para a faculdade. A premissa é torta, calculadamente constrangedora e difícil de defender em termos morais. O filme sabe disso. O que ele nem sempre sabe é até onde pretende levar esse desconforto.

A comédia dirigida por Gene Stupnitsky parece vender uma ousadia que, na prática, prefere moderar. Não é uma comédia sexual tão agressiva quanto a sinopse indica, nem uma história romântica convencional tentando parecer mais atrevida. Fica num ponto intermediário, instável, mas não sem interesse. Há humor físico, situações de embaraço bem conduzidas e uma protagonista disposta a parecer inconveniente, desesperada e ridícula. Também há recuos. O filme toca em zonas delicadas e, quando poderia apertar um pouco mais, costuma escolher uma saída emocional confortável.

Isso não torna “Que Horas Eu Te Pego?” irrelevante. Sua graça nasce justamente da tensão entre a promessa de escândalo e a vontade de encontrar ternura no absurdo. Maddie, interpretada por Jennifer Lawrence, não age movida apenas por irresponsabilidade. Ela está acuada. Sem carro, sem estabilidade e ameaçada de perder a casa de infância em Montauk, a personagem aceita uma proposta absurda porque o mundo ao redor estreitou suas possibilidades. O dinheiro, aqui, não é mero detalhe de roteiro. É a força que empurra a história e define quem pode escolher, quem pode comprar e quem precisa aceitar.

Montauk aparece menos como cenário turístico do que como território em disputa. Para os ricos que circulam pela região, o lugar é extensão das férias, do conforto e das soluções privadas. Para Maddie, é memória, pertencimento e risco de expulsão. Essa diferença dá ao filme uma espessura que a premissa, sozinha, talvez não sustentasse. Os pais de Percy não contratam Maddie apenas porque são excêntricos ou superprotetores. Contratam porque podem. E essa naturalidade é uma das notas mais incômodas da comédia.

Premissa incômoda

O ponto sensível de “Que Horas Eu Te Pego?” está na relação entre Maddie e Percy. Ele é legalmente adulto, mas inexperiente, tímido e protegido demais pelos pais. Ela é mais velha, mais vivida e entra na aproximação por dinheiro. A assimetria é evidente, e o filme passa boa parte do tempo tentando torná-la menos indigesta. Faz isso humanizando Percy, retirando de Maddie qualquer traço mais predatório e deslocando o centro da história para a solidão dos dois. A estratégia funciona em parte, mas também reduz a força crítica da premissa.

Andrew Barth Feldman evita transformar Percy numa piada única. O personagem poderia ser apenas o jovem retraído, socialmente travado, à espera de uma intervenção que o arrancasse do quarto. Feldman lhe dá hesitação, orgulho, medo e alguma resistência. Percy não é passivo o tempo inteiro, nem vazio. Essa contenção é importante porque impede que a comédia dependa apenas da diferença entre uma mulher “experiente” e um rapaz “inocente”. A relação continua desconfortável, mas ganha pequenas zonas de atrito.

Ainda assim, o filme pertence a Jennifer Lawrence. Ela carrega Maddie sem tentar torná-la imediatamente agradável. Há uma dureza defensiva em sua atuação, uma impaciência que parece vir de anos de humilhação acumulada. Maddie fala alto, reage mal, avança quando deveria recuar. Lawrence encontra humor nesse corpo em estado de alerta, sempre pronto para transformar constrangimento em ataque. É quando a comédia funciona melhor: não pela piada em si, mas pela maneira como a atriz deixa a personagem perder o controle enquanto tenta fingir que ainda o possui.

O roteiro, porém, oscila. Em alguns trechos, parece disposto a explorar a perversidade do acordo entre Maddie e os pais de Percy. Em outros, amacia depressa demais a situação, como se temesse que o público deixasse de torcer por alguém. Não se trata de exigir crueldade ou cinismo. A questão é que uma comédia baseada numa negociação tão problemática precisa conviver com o mal-estar que produz. Quando tenta resolvê-lo rápido demais, “Que Horas Eu Te Pego?” perde parte da mordida.

Riso domesticado

Os pais de Percy, vividos por Laura Benanti e Matthew Broderick, ajudam a revelar o que o filme tem de mais interessante e também o que ele deixa escapar. Eles não são tratados como vilões evidentes. São pais ansiosos, ricos e convencidos de que sua interferência é uma forma de cuidado. Querem que o filho se solte, mas organizam sua iniciação como se contratassem um serviço doméstico. Essa contradição poderia render uma sátira mais dura sobre controle familiar e privilégio. O filme a percebe, mas não a desenvolve tanto quanto poderia.

Mesmo assim, essa presença desloca a comédia para além do caso entre Maddie e Percy. “Que Horas Eu Te Pego?” é também sobre o modo como o dinheiro invade relações íntimas e as reorganiza com aparência de normalidade. Os pais de Percy acreditam estar ajudando. Maddie acredita estar sobrevivendo. Percy acredita que precisa escapar de uma proteção que o infantiliza. Ninguém está exatamente certo, e o filme melhora quando aceita essa zona imperfeita, sem absolver todos os envolvidos com pressa.

A direção de Stupnitsky é funcional, mais atenta ao ritmo das situações do que a qualquer marca visual forte. A comédia depende de timing, reações e choques de temperamento. Quando Lawrence está no centro, há energia. Quando o filme se apoia demais na resolução sentimental, perde temperatura. A impressão é de uma obra que quer recuperar certa tradição da comédia adulta de estúdio, com sexo, vergonha e personagens moralmente falhos, mas sabe estar em outro momento cultural, menos tolerante com assimetrias tratadas apenas como brincadeira.

Essa hesitação é uma limitação, mas também diz algo sobre o filme. “Que Horas Eu Te Pego?” quer ser vulgar sem ser irresponsável, provocar sem afastar demais, rir de uma situação absurda sem abandonar a possibilidade de afeto. O resultado é irregular. Algumas cenas encontram um humor direto, físico, quase embaraçoso de tão exposto. Outras parecem calculadas para aparar arestas. A comédia ri, mas raramente morde com força.

O mais honesto é reconhecer esse meio-termo. “Que Horas Eu Te Pego?” não é uma grande comédia, nem a provocação afiada que sua premissa poderia render. Mas há vida nele. Há uma atriz principal em ótimo domínio do constrangimento, uma dupla central mais interessante do que o anúncio da trama sugere e uma percepção social discreta, mas relevante, sobre classe, permanência e dependência econômica. O filme tropeça quando tenta transformar tudo em conciliação. Cresce quando permite que seus personagens sejam falhos sem exigir simpatia imediata.

Sua força está menos na transgressão prometida do que no atrito que sobra depois que o escândalo é suavizado. Maddie e Percy não formam um par convencional, e o filme sabe que não deveria tratá-los como se formassem. O que há entre eles funciona melhor como encontro torto entre duas formas de imaturidade: a dela, endurecida pela necessidade; a dele, fabricada por excesso de proteção. É nessa fricção, não na provocação sexual isolada, que a comédia encontra alguma verdade.

“Que Horas Eu Te Pego?” é falho, simpático e mais cauteloso do que imagina. Seu humor não acerta sempre, sua crítica social poderia ser mais incisiva e sua ternura às vezes chega cedo demais. Ainda assim, o filme se sustenta porque entende que o ridículo pode carregar desespero, e porque Jennifer Lawrence transforma uma personagem potencialmente desagradável em alguém viva, contraditória e difícil de reduzir. A graça está justamente aí: não no escândalo anunciado, mas no desconforto que o filme tenta domesticar sem conseguir apagar por completo.


Filme: Que Horas Eu Te Pego?
Diretor: Gene Stupnitsky
Ano: 2023
Gênero: Comédia
Avaliação: 3/5 1 1
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