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“Warcraft — O Primeiro Encontro de Dois Mundos” começa cercado por fumaça, ruínas e desespero. O mundo dos orcs está morrendo. Draenor virou uma terra devastada pela magia fel, uma força corrupta usada pelo feiticeiro Gul’dan para alimentar um enorme portal entre dimensões. É dessa maneira que ele transporta milhares de guerreiros para Azeroth, um reino humano que sequer imagina a dimensão da ameaça que está prestes a cair sobre seus muros.

A invasão não acontece de maneira silenciosa. Vilarejos são destruídos, corpos aparecem queimados por magia proibida e soldados desaparecem em regiões afastadas. Anduin Lothar, personagem de Travis Fimmel, passa a investigar os ataques enquanto tenta proteger o rei Llane Wrynn, interpretado por Dominic Cooper. Lothar é um comandante respeitado, mas também alguém cansado de lidar com decisões políticas enquanto criaturas gigantes atravessam florestas esmagando cavalos e soldados no caminho.

Tentativa de armar defesa

Khadgar, vivido por Ben Schnetzer, descobre vestígios de magia fel nos cadáveres encontrados pelos soldados e decide procurar Medivh, personagem de Ben Foster. Guardião de Tirisfal e considerado o mago mais poderoso daquele universo, Medivh surge cercado por uma presença estranha desde a primeira aparição. O filme nem faz muito esforço para esconder que existe algo errado ali. Ainda assim, a história prefere alimentar a suspeita aos poucos em vez de transformar tudo num grande mistério teatral.

Enquanto Azeroth tenta organizar sua defesa, a trama passa boa parte do tempo acompanhando também os próprios orcs. E isso talvez seja o aspecto mais interessante do longa. Duncan Jones não apresenta a Horda apenas como um grupo de monstros sedentos por guerra. Muitos deles estão fugindo da extinção. Durotan, interpretado por Toby Kebbell, percebe cedo que Gul’dan está destruindo seu povo junto da própria terra natal. O chefe orc começa então a procurar alternativas para impedir que a magia fel continue consumindo tudo ao redor.

Desconfianças crescentes

Aparece, então, Garona, personagem de Paula Patton. Meio humana, meio orc, ela funciona quase como ponte entre dois mundos que preferem se odiar antes mesmo de se conhecerem. Capturada pelos homens de Lothar, Garona acaba recebendo confiança do rei Llane, decisão que causa desconforto dentro do próprio castelo. Afinal, ninguém ali sabe se ela realmente deseja ajudar ou apenas abrir caminho para uma armadilha maior.

Boa parte da tensão cresce justamente por causa dessa desconfiança constante. livros escondidos dentro de Kharazhan, espionagem e personagens tentando descobrir quem está colaborando com Gul’dan dentro de Azeroth. O filme trabalha essa investigação de forma simples, sem complicar demais a narrativa. Funciona porque a história nunca perde de vista o principal objetivo dos personagens. Todos estão tentando sobreviver a uma guerra que parece grande demais para qualquer lado controlar.

Influência dos games

Duncan Jones também demonstra carinho evidente pelo universo dos games. Cidades gigantescas, armaduras ornamentadas, gryphons cruzando os céus e criaturas mágicas aparecem o tempo inteiro. Em certos momentos, o longa lembra uma campanha de RPG filmada com orçamento milionário e uma quantidade quase absurda de efeitos digitais. Algumas cenas envelheceram melhor que outras, mas o diretor consegue manter personalidade suficiente para impedir que tudo vire apenas uma tela cheia de computação gráfica sem peso dramático.

Existe até um certo exagero divertido em algumas escolhas. Os ombros das armaduras parecem competir entre si para ocupar mais espaço em cena e alguns personagens falam com tamanha solenidade que parecem prestar juramento até para pedir água. Ainda assim, o filme mantém sinceridade admirável dentro daquela grandiosidade toda. Ele acredita genuinamente naquele universo. E isso ajuda bastante.

Travis Fimmel carrega parte importante da narrativa graças ao jeito impulsivo e irônico de Lothar. O ator aproveita o mesmo olhar meio cansado que utilizava em “Vikings” e transforma o comandante humano num sujeito permanentemente irritado com magos, burocratas e decisões ruins tomadas dentro do castelo. Paula Patton também consegue criar uma Garona emocionalmente dividida sem transformar a personagem numa simples figura trágica. Já Ben Foster aposta num Medivh silencioso, estranho e cada vez mais inquietante conforme a corrupção avança.

A reta final concentra batalhas maiores e perdas importantes para ambos os lados. Mesmo apostando em confrontos gigantescos, “Warcraft — O Primeiro Encontro de Dois Mundos” continua mais interessado nas alianças frágeis construídas ao longo da narrativa. O portal criado por Gul’dan permanece como ameaça constante durante toda a história. Cada minuto em que ele continua aberto significa mais soldados atravessando para Azeroth, mais cidades vulneráveis e menos tempo para impedir que a guerra engula o reino inteiro.


Filme: Warcraft — O Primeiro Encontro de Dois Mundos
Diretor: Duncan Jones
Ano: 2016
Gênero: Ação/Aventura/Fantasia
Avaliação: 3/5 1 1
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