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“Toda sexta-feira eu vou até o porto esperar uma carta”. A rotina do Coronel vivido por Fernando Luján poderia soar absurda se Arturo Ripstein não filmasse aquela insistência com tanta humanidade em “Ninguém Escreve ao Coronel”, drama lançado em 1999 e inspirado na obra de Gabriel García Márquez. Em um povoado pobre, abafado pela repressão política e pela miséria cotidiana, um ex-militar envelhece aguardando uma aposentadoria prometida pelo governo há quase três décadas. Enquanto isso, sua esposa Lola, interpretada por Marisa Paredes, tenta impedir que a fome transforme o casamento em um campo minado doméstico. O filme acompanha esse desgaste silencioso: duas pessoas que se amam, mas já não conseguem fingir que esperança enche panela.

Ripstein começa a história sem grandes cerimônias. O Coronel acorda cedo, se veste com dignidade cerimonial e caminha pelas ruas do vilarejo até o porto para verificar se finalmente chegou sua carta. Nunca chega. Os funcionários já conhecem seu rosto, os moradores conhecem o ritual e até os amigos parecem compreender que aquela espera virou mais um hábito do que uma expectativa real. Ainda assim, ele continua indo. Há algo de teimoso, melancólico e até engraçado naquele homem magro insistindo numa promessa estatal que claramente foi esquecida em alguma gaveta mofada.

Teimosia persistente

Fernando Luján interpreta o Coronel com um tipo raro de contenção. O personagem fala pouco porque já entendeu que ninguém está realmente interessado em ouvi-lo. Seu orgulho aparece em pequenos gestos: engraxar os sapatos, dobrar a roupa com cuidado, manter certa postura diante dos vizinhos mesmo quando falta dinheiro para o café. Cada saída até o porto é como um protesto íntimo contra o desaparecimento social. Enquanto ele continua esperando a carta, continua existindo.

Dentro de casa, a situação é muito menos romântica. Lola, personagem de Marisa Paredes, perdeu a paciência com elegância faz tempo. Ela conta moedas, vende objetos, improvisa refeições e observa o marido alimentar um galo enquanto os dois mal conseguem comer. A relação entre eles é uma das melhores partes do filme justamente porque Ripstein evita transformar a pobreza em espetáculo sentimental. Os diálogos do casal carregam irritação, ironia, afeto e cansaço ao mesmo tempo. Lola reclama porque está exausta. O Coronel insiste porque abandonar a espera significaria admitir derrota completa.

Pobreza latente

A casa dos dois parece encolher ao longo do filme. Os móveis são poucos, as paredes abafam o calor e a falta de comida invade até as conversas mais banais. Ripstein filma corredores apertados, cozinhas vazias e roupas gastas sem transformar a miséria em estética bonita para festival europeu admirar de longe. A pobreza ali produz consequências práticas o tempo inteiro. Falta remédio. Falta comida. Falta dinheiro para qualquer emergência mínima. Cada objeto vendido diminui ainda mais o espaço daquele casal dentro da própria vida.

O elemento que altera a rotina dos dois é justamente o galo de briga herdado do filho morto. Em outro filme, o animal talvez aparecesse apenas como símbolo de resistência. Aqui ele funciona quase como investimento financeiro clandestino. O povoado inteiro deposita expectativas nas futuras rinhas, que podem render apostas e dinheiro rápido. O Coronel passa a proteger o galo porque acredita que aquela ave representa a última possibilidade concreta de sobrevivência econômica. Lola enxerga a situação de outra forma: alimentar um animal enquanto os donos passam fome parece um insulto diário.

As discussões entre os dois crescem justamente por causa disso. Lola tenta convencer o marido a vender o galo antes que seja tarde demais. O Coronel se apega ao animal como quem protege o último pedaço de dignidade disponível. Há cenas muito duras em que ele separa comida para o galo enquanto a esposa observa em silêncio, já cansada até de discutir. O detalhe cruel é que ele sabe perfeitamente o absurdo da situação. Fernando Luján deixa isso escapar em olhares rápidos, pequenas hesitações e momentos em que o personagem parece envelhecer alguns anos apenas ao sentar na cadeira.

Povoado cansado

Arturo Ripstein também retrata o povoado como um lugar permanentemente cansado. Os homens passam horas conversando em bares abafados, as autoridades aparecem mais como ameaça do que solução e todos parecem viver sob alguma forma de vigilância política silenciosa. O clima lembra um país preso numa espera coletiva, onde ninguém acredita muito em mudança, mas todos continuam repetindo os mesmos rituais porque abandonar qualquer esperança seria ainda pior.

Salma Hayek aparece em participação menor, mas sua presença ajuda a ampliar o retrato daquele ambiente sufocado economicamente. Os personagens circulam entre quartos apertados, ruas quentes e conversas interrompidas pelo medo ou pela falta de dinheiro. Ripstein mantém a câmera próxima dos rostos cansados, como se o espectador também estivesse preso naquele vilarejo sem saída visível.

O que torna “Ninguém Escreve ao Coronel” tão forte é sua simplicidade brutal. Ripstein não cria reviravoltas para mostrar o desgaste emocional daqueles personagens. O drama vem da repetição. Toda sexta-feira o Coronel volta ao porto. Toda sexta-feira retorna sem carta. Toda sexta-feira Lola precisa descobrir o que ainda pode vender dentro de casa. O filme entende que a pobreza não destrói apenas o corpo. Ela altera humor, orgulho, desejo e até o jeito como duas pessoas dividem a mesma mesa.

Mesmo assim, existe uma ternura discreta atravessando a história inteira. Lola continua ao lado do marido apesar da irritação constante. O Coronel continua tentando manter alguma compostura mesmo cercado por dívidas. Eles brigam porque ainda existe algo a preservar ali. Em muitos momentos, o casal parece sobreviver apenas graças ao hábito de continuar vivendo junto, um detalhe pequeno que Arturo Ripstein transforma em emoção genuína sem recorrer a sentimentalismo barato.

“Ninguém Escreve ao Coronel” termina deixando a sensação amarga de que certas promessas oficiais envelhecem mais rápido do que as pessoas que acreditaram nelas. Ainda assim, o Coronel continua caminhando até o porto, ajeitando a roupa e esperando sua carta como quem se recusa a desaparecer diante da própria cidade.


Filme: Ninguém Escreve ao Coronel
Diretor: Arturo Ripstein
Ano: 1999
Gênero: Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
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