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A porca fareja trufas na floresta do Oregon, Rob recolhe o que ela encontra, e os dois voltam para uma cabana onde quase ninguém chega. Quando alguém chega, é Amir, de carro, para comprar o produto e levá-lo a restaurantes de Portland. Em “Pig A Vingança”, Michael Sarnoski acompanha esse homem quase sem fala, vivido por Nicolas Cage, depois que invasores entram à noite, batem nele e levam o animal. Alex Wolff faz o comprador que o leva de volta à cidade. Adam Arkin aparece como Darius, pai de Amir e nome forte nesse comércio de ingredientes caros. Rob sai da cabana machucado e precisa pedir ajuda.

A porca não entra como detalhe estranho para enfeitar o isolamento de Rob. Ela trabalha. Sem ela, ele perde o meio de encontrar trufas, vender a Amir e manter Portland a uma distância segura. Antes do roubo, há uma rotina estreita. A floresta. A cabana. A comida que ele prepara. A chegada do carro. A troca rápida. Depois da invasão, nada disso sustenta mais o dia seguinte. Rob precisa de Amir, do carro de Amir, de portas que ele não abria fazia tempo.

O título brasileiro empurra “Pig A Vingança” para um corredor errado. Rob apanha mais do que bate. Entra em espaços onde o corpo dele incomoda antes que ele diga qualquer coisa. No subsolo, no restaurante, na casa de quem manda, não avança como justiceiro. Ele pergunta. Espera. Reconhece gente. Quando encontra alguém do antigo circuito gastronômico, não precisa transformar a cena em ameaça física. Um nome lembrado já muda o ar da mesa. Um prato, uma carreira, uma escolha antiga. Rob fala pouco, e a sala precisa lidar com isso.

O carro de Amir

Amir começa comprando trufas e tentando arrancar conversa de um homem que quase nunca responde. Depois do roubo, vira motorista, guia, intermediário. O carro atravessa a distância entre árvores e restaurantes, mas não aproxima imediatamente os dois. Às vezes só há um homem ferido no banco, outro no volante, e uma cidade pela frente.

Alex Wolff dá a Amir uma pressa nervosa. O Camaro amarelo combina com ele. Há desejo de circular bem, de conhecer quem compra, de saber onde um ingrediente raro vale mais. A relação com Darius prende o rapaz a outra forma de dependência. Ele entende o mercado, mas não entende tudo o que Rob carrega ao voltar para Portland. Rob precisa dele para se mover. Amir precisa de Rob quando percebe que a cidade tem uma camada anterior à sua.

Cage segura Rob longe da explosão esperada. A barba, a roupa suja, o rosto machucado e a voz baixa permanecem sem sublinhado. Ele não pede piedade, não oferece explicação longa, não transforma o silêncio em pose heroica. Entra em ambientes de alta gastronomia com sangue no rosto e sujeira na roupa. Os pratos, os salões e as hierarquias continuam ali. Rob não combina com nada daquilo, mas sabe onde está pisando.

Há sempre o risco de esse silêncio virar truque. Sarnoski evita parte disso mantendo Rob ocupado. Ele anda. Pergunta. Encontra um contato. Entra em outro espaço. Ouve mais do que fala. A busca pela porca passa por gente que trabalha, vende, cozinha, manda, obedece. O passado de Rob aparece porque as pessoas reagem a ele. Um chef se sente exposto. Alguém reconhece o nome. Uma porta abre por pouco tempo.

Na cozinha dos outros

Portland não aparece como paisagem para ser admirada. Entra como circuito fechado. Há restaurantes sofisticados, fornecedores, funcionários, espaços clandestinos, casas onde se decide o preço de uma perda. As trufas ligam a floresta à mesa cara. Rob atravessa essa cadeia sem se ajustar a nenhuma etapa. Conhece o bastante para entrar. Está distante demais para permanecer.

O ritmo baixo acompanha esse deslocamento. Nem sempre sem peso. Algumas passagens carregam mais solenidade do que pedem. Darius rende mais quando barra caminhos do que quando precisa ocupar o centro da cena. O que fica mais vivo está em Rob e Amir, nos encontros atravessados por cozinhas, dívidas e pequenas humilhações. Uma conversa em restaurante pode ferir mais que uma pancada no escuro.

A divisão em capítulos ligados a pratos e refeições poderia virar enfeite. Aqui, a comida está sempre no caminho de alguém. É trabalho, mercadoria, lembrança profissional, senha de acesso. Um restaurante pode ser mais hostil do que uma rua vazia. Um prato pode devolver a um homem uma biografia que ele não pediu para ouvir de novo.

A pergunta que move tudo é simples. Onde está a porca. Quem a levou. Quem sabe alguma coisa. Rob não larga essa pergunta. As perdas antigas rondam a busca, mas não substituem o animal desaparecido. A porca continua tendo corpo, função, lugar na rotina. Não é só sinal de outra coisa.

Perto do fim, “Pig A Vingança” ainda resiste ao golpe esperado. Rob passa por portas que sua aparência parecia fechar. A cidade o reconhece mal, tarde, de modo torto. Amir olha, dirige, aprende algumas regras depois que já está dentro delas. A porca, ausente em boa parte do caminho, continua puxando um homem para restaurantes onde quase ninguém entende por que ele veio tão longe.


Filme: Pig A Vingança
Diretor: Michael Sarnoski
Ano: 2021
Gênero: Drama/Mistério
Avaliação: 4.5/5 1 1
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