É miserável perder

É miserável perder

O importante é vencer. Óbvio, é fundamental competir sempre, com muita bravura e fair play. Perder é péssimo, embora, também faça parte do jogo. Veterano torcedor em copas do mundo, sou escolado nas vitórias e nas derrotas. Por exemplo: Sarriá, 1982, nunca mais me saiu da cabeça; o time de perdedores mais reverenciado em todos os tempos. Macaco velho reservo-me, então, no direito de confabular, de lucubrar, de inverter os princípios, de teorizar, de gastar o meu, o seu, o nosso tempo tergiversando sobre os fiascos brasileiros ao longo das últimas quatro copas do mundo de futebol.

Puxem a cadeira. Sentem-se. Sirvam-se de palpites. Se pudesse, juro, eu lhes pagaria um chope e um croquete. Vamos usar a imaginação, como no caso daquela bola que tinha tudo para entrar no gol, mas, caprichosamente, não entrou. Já faz tempo, os analistas esportivos repetem que o futebol no planeta está nivelado, que não existe mais time bobo. Eu não apenas concordo com a assertiva, como vou além: ouso dizer que o Brasil nunca mais será hegemônico nessa modalidade esportiva.

Digo isso por dois motivos que considero primordiais, basilares e, provavelmente, imutáveis: primeiro, as crianças já não quicam mais a bola nas ruas; segundo, as escolinhas de futebol proliferam feito sarna. O Brasil, todo mundo sabe, é um pais com dimensões continentais no qual vive um povo religioso e malandro que ama o futebol. Não gosto muito de comparar o nosso país às nações ricas, porém, pode-se dizer que o futebol está para o Brasil, assim como o basquete está para os Estados Unidos. Supremacia e paixão nacional. Com mais de 200 milhões de habitantes, como é que se explica, então, a dificuldade produzirmos craques da camisa 10? Pode isso, Arnaldo?

Vivi a minha infância e adolescência numa época em que a molecada jogava descalça peladinhas nas ruas, nas várzeas, nos lotes baldios, nos campinhos de terra, nos currais de fazenda, nas praias branquinhas do extenso litoral brasileiro, todo santo dia, fizesse chuva ou sol. Ainda não existia internet, muito menos, os famigerados smartphones para nos viciar e nos conectar à solidão, à vaidade e à frivolidade mútua, com uma velocidade infernal jamais experimentada. Houve um tempo em que o futebol foi mais popular e democrático do que nunca. Penso que não tem mais volta.

Atingidos por doses cavalares de violência urbana e pelos tentáculos viciantes da tecnologia e da comunicação virtual, os meninos de hoje optam por outros tipos de esporte, pela ociosidade manteigosa das redomas domésticas onde se aplicam em jogos virtuais, e pelas propaladas escolinhas de futebol. Ensinar futebol para crianças virou uma interessante oportunidade de negócio. Nessas academias estrategicamente localizadas e muito bem estruturadas, ensinam-se os fundamentos do esporte.

Basicamente, ali se aprende a jogar sem a bola (?!) o futebol dito moderno, em que se prioriza a força física e a disciplina tática em detrimento da liberdade criativa e da irreverência. Há placas nos canteiros do tipo “Por favor, não humilhe o adversário. É proibido dar caneta, lençol e drible da vaca”. Brincadeiras à parte, a despeito de ser um meio de vida para muita gente, penso que as escolas de futebol sejam um sinal dos tempos, um mal necessário, levando-se em conta que ninguém mais se sente livre e seguro o bastante para arriscar a vida rolando a bola em logradouros públicos, correndo o risco de ser atropelado por um bebum com a carteira de habilitação vencida ou de ser abatido mortalmente por uma bala perdida.

Pertenço à deplorável classe dos torcedores saudosistas que ainda acreditam que a melhor defesa é o ataque, e que é melhor perder uma partida fazendo um jogo vistoso do que ganhar mantendo o time na retranca, distribuindo caneladas, espanando a bola para onde o nariz aponta e fazendo gols chorados. Pode parecer um inócuo chororô de um torcedor preconceituoso e antiquado, contudo, juro que prefiro muito mais a derrotada geração de craques de 1982 na Espanha, do que o time limpinho, aplicado e vitorioso que o técnico Parreira forjou nos EUA em 1994.

Fico pensando qual princípio motivacional de Gestão de Pessoas o estudioso técnico Tite aplicaria agora mesmo comigo de tal forma que eu me sentisse mais conformado e assertivo. Seguindo a cartilha do futebol de ponta que se pratica hoje no mundo, parece óbvio que Tite sabe das coisas, embora eu não consiga concordar que um time triunfe com a braçadeira-de-capitão mudando de atleta jogo após jogo. Acredito nos xerifões e, pelo que ficou evidente, a seleção brasileira que foi à Rússia em 2018 não possui nenhum deles.

Do ponto de vista prático, essa resenha não mudará nada, mas, servirá para distrair e aliviar a chateação coletiva pela perda do campeonato mundial. O futebol nunca mais será jogado como no tempo em que nossos adversários tremiam as pernas, borravam nos calções com medo de enfrentar o Brasil. A graça do futebol brasileiro perdeu de goleada para o jogo burocrático, insosso, científico, mensurável, previsível, praticado por atletas sarados que se depilam e fazem as sobrancelhas, guerreiros abnegados que ocupam os espaços vazios do campo, especialistas em destruir jogadas, em matar contra-ataques, em atazanar a vida daqueles mais habilidosos e estorvar um prazer coletivo, quase sexual, eu diria, de ver o atacante entrando no gol com bola e tudo.