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“O Jogo do Predador” é um passeio por regiões gélidas da alma humana, lugares de que não se volta do mesmo jeito, e pode-se até não sair nunca mais. É no espírito do homem onde estão as melhores intenções e as perversidades mais abjetas de que alguém pode ser capaz, como intui Sasha, a anti-heroína de Charlize Theron, embora ela também veja que há quem tenha uma aptidão única para o mal. O filme do islandês Baltasar Kormákur renova chavões e aposta na versatilidade e no carisma de Theron e do elenco a fim de tornar estimulante uma história que se equilibra entre o nonsense de suas reviravoltas e a exploração de personagens quase simplórios, figuras malditas cada qual padecendo de uma dor. Kormákur extrai do roteiro de Jeremy Robbins os argumentos com que guia o espectador por uma crítica schopenhaueriana a nossas vontades e obsessões, valendo-se de uma paisagem indomável que ecoa essa ideia.

Uma montanha de sentimentos

Se para 99,9% da humanidade escalar uma montanha não soa como o jeito mais divertido de se passar o tempo, o restante o faz com a energia e a convicção com que tratam de embasbacar o mundo inteiro, tanto mais hoje, era em que imagens viraram um meio de se arrebanhar uma legião de fãs, que de bom grado sorvem essa influência no desejo oculto de um dia terem a mesma coragem, a mesma glória. A honra oculta por trás de façanha reservada a um grupo tão restrito é uma das engrenagens que movem a história, que cresce também ao voltar-se para Sasha e descer às suas profundezas. Na introdução, ela vive momentos de plenitude — bem, plenitude ao menos para aquela minoria — ao escalar com Tommy, o marido interpretado por Eric Bana, a Muralha dos Trolls, paredão rochoso de mais de mil metros, o mais alto da Europa, no Vale de Romsdalen, oeste da Noruega. Um grande trauma desaba sobre a vida dos dois, Tommy sai de cena e ela leva algum tempo até que sinta-se novamente pronta para outra, e quando isso acontece, vai para a Austrália.

As aparências enganam 

Sasha quiçá nunca mais seja o que já fora, mas leva a sério seu esforço por novamente gostar da vida, do mundo e de si. Ben, um caçador esportivo, parece o anjo da guarda de que ela precisa desde que se viu sem Tommy, até uma verdade escabrosa dar cabo de suas ilusões. Como Theron, Taron Egerton é o ator exato para o papel que desempenha.


Filme: O Jogo do Predador
Diretor: Baltasar Kormákur
Ano: 2026
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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