A neve aparece antes de qualquer explicação em “Hanna”, e Joe Wright sabe que ela já basta para apresentar a educação daquela menina. Saoirse Ronan vive uma adolescente criada no isolamento da Finlândia por Erik, ex-agente da CIA interpretado por Eric Bana, treinada desde pequena para caçar, lutar, memorizar e sobreviver sem pedir socorro. Cate Blanchett entra como Marissa Wiegler, a agente que transforma essa preparação em perseguição, enquanto Tom Hollander dá à caçada um traço mais estranho, quase de fábula torta. A premissa é direta: uma garota feita para matar atravessa a Europa e descobre, tarde demais, que saber eliminar um inimigo não ajuda muito diante de uma vida comum.
O primeiro movimento do filme é seco. Hanna caça um animal com arco e flecha, aproxima-se do corpo abatido, lida com o frio e o sangue como quem cumpre uma tarefa aprendida em casa. Erik surge não como pai afetuoso, mas como teste vivo; ataca, cobra prontidão, mede a filha pela velocidade com que ela reage. Ronan entende a dureza desse treinamento sem apagar a idade da personagem. O corpo é preciso, o olhar é alerta, mas há sempre uma espécie de atraso diante do que não seja perigo, como se cada gesto de convivência chegasse numa língua que ela ainda não aprendeu.
Floresta e Dispositivo
A casa isolada funciona ao mesmo tempo como abrigo, escola, quartel e jaula. Ali Hanna aprende línguas, técnicas de combate, nomes e informações sobre um mundo que permanece fora da porta, reduzido a instrução e repetição. Quando ela aciona o dispositivo que denuncia sua localização, a proteção construída por Erik vira armadilha em poucos segundos. O gesto é pequeno, mas muda a matéria do filme: a rotina de sobrevivência passa a ser fuga, e aquilo que parecia preparo absoluto encontra ruas, agentes, quartos, mercados, estradas e pessoas que não cabem no manual paterno.
A travessia do Marrocos a Berlim dá a “Hanna” sua melhor forma. A trilha dos Chemical Brothers não entra como adereço moderno; ela empurra a menina pelo espaço, corta as cenas, acelera lutas e perseguições, dá batimento ao filme quando a história ameaça se explicar demais. Wright às vezes se mostra consciente demais da própria habilidade, com movimentos de câmera que parecem pedir atenção antes de servir à tensão. Mas, quando música, corpo e deslocamento se alinham, o resultado tem uma limpeza rara. A ação não pesa como demonstração de brutalidade; ela passa rápida, nervosa, quase atlética, sempre colada à necessidade de seguir em frente.
Fora do Treinamento
O melhor de “Hanna” está no que a garota não sabe. Ela sabe fugir de agentes experientes, sabe obedecer a um plano, sabe reagir a uma emboscada, mas se desorganiza diante de uma família, de uma conversa casual, de uma música, de uma amizade possível. Essas pequenas experiências não interrompem o thriller; dão a ele um atrito mais interessante que a própria perseguição. Hanna não atravessa apenas fronteiras. Ela atravessa a distância entre o mundo descrito pelo pai e o mundo encontrado pelo corpo, com barulho, afeto, curiosidade, medo e gente que se aproxima sem levantar uma arma.
Marissa Wiegler pertence a outro registro. Cate Blanchett a compõe com gestos frios e presença de vilã de conto sombrio, uma espécie de bruxa burocrática em perseguição à menina que escapou da floresta. A escolha combina com a inclinação fantástica do filme, mas também deixa algumas cenas marcadas demais. Tom Hollander reforça esse tom excêntrico, como se a caçada tivesse saído menos de uma operação de inteligência do que de um pesadelo colorido e europeu. A irregularidade nasce daí. Quando o filme sublinha demais a fábula, perde perigo; quando deixa Hanna sozinha diante do próximo lugar, recupera pulso.
O saldo é francamente positivo. “Hanna” não é o thriller mais equilibrado de seu tempo, nem o mais discreto, e algumas passagens carregam o peso de um diretor satisfeito com a própria engenharia visual. Ainda assim, poucos filmes de ação recentes se beneficiam tanto da presença da atriz no centro. Ronan impede que Hanna vire conceito, heroína programada ou boneca de violência estilizada. A cada fuga, a cada pausa, a cada encontro com uma forma de vida que ninguém lhe ensinou, a personagem parece carregar duas educações incompatíveis dentro do mesmo corpo, a do pai que a treinou para matar e a do mundo que começa a tocá-la sem pedir licença.

