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Sam Mendes dirige “Foi Apenas um Sonho” sem vender a ilusão de grande tragédia logo de cara. Kate Winslet e Leonardo DiCaprio aparecem primeiro como um casal que um dia acreditou estar destinado a uma vida menos domesticada, mas que agora divide uma casa em Connecticut, dois filhos pequenos e o percurso diário de Frank até um escritório em Manhattan. O filme acompanha essa promessa murchando dentro de coisas muito simples, o gramado aparado, a sala de estar pronta para visitas, a fumaça do trem, o terno cinza, o expediente burocrático. Antes de qualquer rompimento, já existe o peso de uma rotina que organiza onde cada corpo senta, cala, espera e volta para casa.

A apresentação amadora em que April fracassa no palco dá a medida exata do que Mendes quer filmar. Não há catarse redentora naquele vexame, só a volta para casa carregando o mal-estar e a discussão à beira da estrada, quando marido e mulher já não conseguem fingir que o constrangimento ficou no teatro. Frank veste a pose com mais facilidade do que sustenta uma convicção, e DiCaprio é bom em mostrar esse atraso entre a imagem que o personagem faz de si e a vida miúda que de fato o cerca. April, ao contrário, parece ter perdido a paciência com a encenação antes dele, e Winslet dá a esse desgaste um peso seco, visível no jeito de atravessar a casa, de ouvir, de cortar uma frase antes que ela fique tolerável demais.

Casa e trem

A casa dos Wheeler não entra em cena como metáfora vistosa, e sim como um lugar que cobra serviços o tempo inteiro. É ali que se administram crianças, horários, refeições, visitas e o silêncio depois das brigas, enquanto Frank repete o ritual do trem para Manhattan, do escritório parecido com uma linha de montagem limpa, dos colegas, do ditafone, da conversa sem risco. Sam Mendes acerta ao prender a vida do casal nessas superfícies bem cuidadas, porque a asfixia do filme nasce justamente da ordem. Quando Paris surge como possibilidade, o alívio vem porque a proposta mexe em peças concretas da engrenagem, ela passaria a trabalhar, ele teria tempo para descobrir o que fazer da própria vida, o endereço mudaria, o dinheiro mudaria, a posição dos dois dentro do casamento mudaria junto.

Esse plano de mudança é um dos achados mais fortes do roteiro de Justin Haythe porque não aparece como slogan de liberdade, mas como arranjo prático com efeito imediato na intimidade. Durante algum tempo, Frank e April voltam a se olhar como cúmplices, e Mendes filma esse intervalo sem música triunfal, quase como quem registra uma corrente de ar atravessando uma casa abafada. O que torna esse breve entusiasmo tão bom de ver é que ele já traz, misturado à esperança, o custo de colocá-lo de pé. Cada conversa sobre Paris encosta em emprego, filhos, dinheiro, conveniência e covardia, e é aí que a química entre DiCaprio e Winslet ganha nervo, porque eles não trabalham como par idealizado, mas como duas pessoas que já sabem onde tocar para humilhar, seduzir ou recuar.

Na sala de estar

Os jantares com Shep e Milly Campbell e a presença da vizinha vivida por Kathy Bates ajudam a dar corpo ao bairro sem transformar o subúrbio em caricatura. Há bebida, educação social, comentários laterais, uma boa vontade que vai enquadrando os Wheeler no lugar onde eles juravam não caber, e isso pesa mais porque ninguém ali precisa agir como vilão. Bates entende muito bem o valor dessa convivência de sala de estar, de visita marcada, de frase simpática demais, enquanto Michael Shannon entra como John Givings para desmontar a etiqueta do ambiente quase sem esforço. Recém-saído de uma internação, ele atravessa a cortesia dos outros com uma franqueza brutal, diz o que ninguém quer ouvir e muda a temperatura de cada cena só por se recusar a tratar o casal como espetáculo respeitável.

Shannon é o ponto de ruptura mais evidente de “Foi Apenas um Sonho”, mas o filme não depende apenas dele para ferir. Roger Deakins fotografa gramados, interiores e ruas com uma precisão tão controlada que, às vezes, o acabamento parece apertar ainda mais a garganta do espectador. Há quem veja nisso frieza excessiva, e a objeção faz sentido em alguns momentos, porque Mendes segura firme uma matéria que poderia aceitar mais desordem. Ainda assim, quando a raiva bate, ela bate dentro desse arranjo impecável, no toque recusado, no móvel que vira obstáculo, no barulho que ameaça acordar as crianças, no café da manhã contaminado pelo que foi dito na noite anterior, e o estrago vem justamente dessa colisão entre compostura e violência doméstica.

O melhor do filme está em não pedir absolvição para Frank e April. Os dois são observados de perto, mas sem qualquer pressa de transformar a própria infelicidade em nobreza, e isso dá à história uma secura rara em dramas de casamento feitos para exibir sofrimento. Sam Mendes controla demais algumas passagens, é verdade, só que essa contenção nunca apaga o dado mais incômodo do filme, o preço material de uma fantasia de excepcionalidade paga em trem, expediente, sala de estar, cama conjugal e cálculo financeiro. Quando “Foi Apenas um Sonho” encosta nesse preço, não sobra grande discurso, só o atrito de duas pessoas tentando falar sobre Paris enquanto a casa, o escritório e o bairro continuam ali, à espera do dia seguinte.


Filme: Foi Apenas um Sonho
Diretor: Sam Mendes
Ano: 2008
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 4.5/5 1 1
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