É uma lástima, mas somos, todos, escravos do tempo, carrasco da vida que fustiga-nos com a morte de quando em quando. Desde o primeiro suspiro, o homem se flagra numa contenda fidagal contra o único adversário que nunca poderá vencer, passem-se duas horas ou um século. Delicadamente, o mais cínico dos verdugos permite que nos locupletemos com o confortável sofisma que esconde uma promessa qualquer de felicidade, sendo que o gênero humano está essencialmente condenado a perseguir a quimera de ser feliz, já que o mundo é, como na caverna de Platão (428 a.C — 348 a.C), só um simulacro de imagens muito íntimas de cada um, dos conceitos eivados todos de nossas idiossincrasias as mais diversas, que nos mantêm mais e mais encafuados em delírios. “O Curioso Caso de Benjamin Button” é uma dessas tentativas apaixonadas de David Fincher no intuito de fazer-nos pensar no que importa. A adaptação de Eric Roth para o conto homônimo de F. Scott Fitzgerald (1896-1940), publicado na edição de 27 de maio de 1922 da revista “Collier’s Weekly”, dedica-se a apontar a melancolia que cerca a existência do personagem central — o que, paradoxalmente, tem o condão de dar à história uma comicidade nonsense, porque o que se vê é o oposto do real. Fincher, a propósito, é um mestre nesse assunto.
O amor contra o tempo
Amantes reúnem no fundo de sua alma seu próprio universo, suas próprias questões, seus desejos inconfessáveis, seus sonhos tolos, suas idiossincrasias, seus medos. Vencidos todos esses obstáculos, talvez haja lugar para o verdadeiro amor, que em sendo mesmo verdadeiro vence ainda o tempo, o tirano que põe e dispõe acerca da vida de cada criatura sobre a face da Terra e pode ajudar a tornar a existência de alguém ou excepcionalmente brilhante ou eivada do mais mortificante tédio. Benjamin Button decerto é o indivíduo que melhor encarna as contradições da natureza humana, ainda mais óbvias se à luz dos afetos. Ele nasce com a aparência de um macróbio e perde rugas e cãs à medida que o calendário se movimenta, o que poderia ser motivo de inveja para o resto da humanidade. Entretanto, ele não está livre de enganos, decepções e, claro, preconceitos, ideia que o diretor cristaliza logo no começo, realçando as diferenças entre seu protagonista e as pessoas que o rodeiam. Benjamin é um sobrevivente, e boa parte de sua força vem do amor. O encontro com Daisy Fuller é a prova de que sua vida não tem nada de errado, e Brad Pitt e Cate Blanchett acham nesse argumento o coração de um filme que se recusa a envelhecer. E que continua bastante subestimado.

