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Em “O Sonho de um Homem Ridículo”, conto publicado em 1877, Dostoiévski narra a história de um homem desesperançoso, perdido, tão insignificante que o autor sequer deu-se ao trabalho de dar-lhe um nome. Esse homem vaga pelas ruas mal-iluminadas de uma São Petersburgo fustigada por um inverno que não tem clemência. O sujeito deixa-se tomar por um turbilhão de pensamentos monomaníacos de impotência e morte, o que já não lhe diz mais nada: ele era irremediavelmente um homem sem nenhuma importância, para os outros ou para si mesmo. Da mesma forma, Zakhele Sigcawu, o protagonista de “180”, gira em parafuso depois de colhido por uma tragédia, mas vai à luta, buscando vingança. Alex Yazbek ressalta a metamorfose de seu personagem central, da prostração à fúria, mostrando como um tipo comum exorciza seus fantasmas, sofrendo com imagens que não tira da cabeça, fugindo do mundo e de si mesmo por este propósito. Yazbek detalha a transformação de Zak dando preferência ao comedimento, tentando antever as reações de alguém cuja existência perde o sentido num golpe inesperado e pusilânime. É dessa dor que ele se alimenta.

Um cerco que se fecha

A qualquer momento da vida podemos nos sentir perigosamente sós, desterrados em nossa própria existência, presos numa quietude atroadora, implorando pela compaixão de alguém, e quanto mais consome-nos a angústia, mais nos apercebemos do quão cercados estamos por nosso próprio desespero, ansiando por um salvador que não vem nunca, que não nos quer conhecer, que nos ignora sem culpa. Zak leva uma vida sem grandes ambições ao lado da esposa, Portia, e do filho, Mandla, e os três parecem se bastar. O diretor-roteirista abre seu filme com cenas despretensiosas que mostram a rotina banal dos Sigcawu, sempre juntos, até Zak levar Mandla à escola. Uma gangue aproveita um congestionamento para assaltar os motoristas, e uma dupla de ladrões cisma com eles, que não reagem. Tudo encaminha-se para um bom desfecho, Zak e Mandla voltam para casa, o menino conta para a mãe sobre o que percebeu como somente uma aventura, mas resta implícito que haverá uma guinada na história. Ela vem sob a forma de uma discussão entre Zak e os membros de um bando, com a troca de tiros que leva Mandla a ser hospitalizado. Muito da tensão dramática da narrativa toma corpo com a agonia da criança, e esse é o gancho de que Yazbek se vale para chegar à desforra de Zak, a que Prince Grootboom dá o tom exato de vulnerabilidade e ira sangrenta.


Filme: 180
Diretor: Alex Yazbek
Ano: 2026
Gênero: Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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