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Várias analogias entre a ordem absoluta e absolutista de um espaço tido por sagrado por muitos, no radar de aspirantes de todos os estratos sociais como um meio de vida glamoroso, de onde tem-se a impressão de que o dinheiro jorra, são possíveis em “O Menu”. Mark Mylod pinta as atividades de um restaurante de luxo como a encarnação da supremacia da força sobre o espírito livre, um ambiente em que a democracia, além de não ter vez, acaba sendo um método ineficaz. Mylod não faz nada de inovador, tampouco revolucionário, uma vez que, sob um ou outro viés, filmes como “Pegando Fogo” (2015), dirigido por John Wells; “O Chef” (2021), levado à tela por Philip Barantini; “Triângulo da Tristeza“ (2022), de Ruben Östlund; além dos brasileiros ”O Animal Cordial“ (2017), de Gabriela Amaral Almeida; e “Estômago“ (2007), de Marcos Jorge; além do documentário ”Jiro Dreams of Sushi“ (2011), de David Gelb, orbitam nesse universo pleno de nuanças. Isso só deixa a história contada aqui ainda mais saborosa.

Sofisticação ou loucura?

Há duzentos mil anos a variação do hominídeo mais próxima do homem moderno como o conhecemos, não suportando mais basear sua dieta em frutos, larvas e, nos períodos de grandes chuvas, peixes e moluscos dos mares e rios, passou a arriscar-se com lanças, tacapes e machados atrás de cervos, javalis e mamutes, “atitude” fundamental para que, pelos dois mil séculos que se seguiram, atingisse o desenvolvimento cognitivo que o capacitou a inventar ferramentas, máquinas e veículos e poupasse tempo e energia. Passados dois mil séculos, os muito ricos fazem o caminho inverso, à procura das tais experiências, o que inclui espumas de cores vivas e densidade suspeita, cujo sabor eles dizem ser incomparável. Os roteiristas Seth Reiss e Will Tracy são sagazes ao expor a ironia por trás dessa conduta, e jamais deixam de flertar com o nonsense, denunciado em insânias como ter de desembolsar 1.250 dólares por um prato (quase) vazio. Margot e o namorado, Tyler, reagem cada qual a sua maneira ao jantar oferecido pelo chef Slowik. Enquanto Tyler não consegue disfarçar a empolgação, ela custa a acreditar que abalou-se até uma ilha afastada para fingir que come — e que gosta do que come. Na pele de Tyler, Nicholas Hoult encarna o medo, ao passo que Anya Taylor-Joy é a própria bravura, bastante necessária para afrontar Slowik, vivido por Ralph Fiennes com a habilidade persuasória de sempre. Os três juntos fazem de “O Menu” um verdadeiro banquete.


Filme: O Menu
Diretor: Mark Mylod
Ano: 2022
Gênero: Comédia/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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