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Poucos reconhecem, sem disfarce, aquela hora estranha em que o silêncio pesa mais do que a dor explícita, quando o dia encosta a cabeça nos joelhos e se recusa a seguir em frente. Quem já atravessou o corredor nu das crises existenciais — e quem, enfim, não atravessou? — sabe que as perguntas chegam como visitantes inesperados, tropeçando nos móveis, sem pedir licença ou tirar os sapatos. Não há trégua ou cronograma. Só uma espécie de vento frio correndo por dentro, um desejo secreto de largar tudo e rir, mesmo que seja da própria falta de jeito. Talvez seja isso que nos empurre, de repente, para as estantes. Não tanto em busca de respostas (as respostas, sabemos, não costumam durar), mas de alguma companhia imperfeita, alguém que, ainda que fictício, atravesse conosco o pântano do absurdo.

Há livros que não prometem salvação nem alívio, mas ofertam — e já é muito — uma nova fresta por onde a luz hesita, ri e vacila. Obras assim não anestesiam; preferem rasgar o verniz das certezas com um gesto oblíquo, ironia delicada, essa graça torta que só reconhece quem já se perdeu antes. Ler, nesses momentos, é mais do que refúgio; é um ato de delicada sobrevivência. Certas páginas possuem a rara habilidade de rir do desamparo, de brincar com a gravidade da existência como quem improvisa um abrigo com guarda-chuvas velhos e piadas que só fazem sentido depois do terceiro suspiro.

Quem experimenta o riso nas bordas da angústia aprende a desconfiar do consolo fácil, do otimismo ligeiro, dessas frases redondas que fingem tapar o buraco — não tapam. O que consola, de verdade, é a voz que hesita, que tropeça, que deixa o leitor rir por conta própria, meio sem saber se chora depois. Talvez o mais próximo de redenção seja justamente a gargalhada desconfortável, aquela que irrompe entre lágrimas, sem prometer cura, mas devolvendo — ao menos por instantes — uma forma estranha de paz. Sim, sobreviver e rir: eis a dupla heresia dos que se recusam a afundar sozinhos.

Carlos Willian Leite

Jornalista com atuação em cultura e enojornalismo. Escreve sobre vinhos, livros, audiovisual e streaming. É sócio da Eureka Comunicação e fundador da Bula Livros.

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