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Eles estavam à beira. Alguns, de uma janela real, aberta num prédio qualquer, uma cidade indistinta. Outros, de uma desistência mais discreta: comer o mínimo possível, desaparecer nas entrelinhas da rotina, permitir-se apenas a repetição das horas. Às vezes, o que os resgatou não foi um amigo, nem uma promessa ou oração — mas um livro. Sim, um objeto inerte, com suas páginas silenciosas, esperando numa prateleira de biblioteca pública ou entre promoções digitais. E ainda assim: um gesto absoluto de escuta. Porque há livros que não dizem “vai passar” — dizem “eu sei”. Que não oferecem soluções, mas companhia. Que não resgatam do abismo com um discurso, mas sentam-se ali, à beira, como quem entende a profundidade sem nome de certas dores.

Há quem diga que livros não salvam. Talvez, de fato, não ressuscitem. Mas salvam de outras formas: do mutismo, da loucura que se esconde sob o verniz da normalidade, da sensação de que ninguém, em lugar algum, sentiu o que você está sentindo. Um personagem que sangra do mesmo modo que você. Uma frase que parece ter sido escrita no momento exato em que você mais precisava — mesmo que o autor já esteja morto há cinquenta anos. Isso é uma forma de milagre, ainda que ninguém acenda velas para ele.

Não há glamour no processo. Não é como nos filmes. É ler de madrugada, em lágrimas, sublinhar uma sentença com a mão trêmula, voltar ao início do parágrafo porque o coração perdeu o ritmo. É respirar com o outro, ainda que o outro não exista senão em papel. Mas isso — quem sabe — já seja existir de novo.

Sim. Às vezes, é só isso que impede o fim: uma história que insiste com delicadeza, uma personagem que sobrevive e, ao fazê-lo, autoriza você a continuar. Não porque tudo vai melhorar. Mas porque há alguém ali, entre uma vírgula e outra, que compreende.

Carlos Willian Leite

Jornalista com atuação em cultura e enojornalismo. Escreve sobre vinhos, livros, audiovisual e streaming. É sócio da Eureka Comunicação e fundador da Bula Livros.

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