Autor: Fred Navarro

Telmo Martino: a falta que faz o seu veneno

Telmo Martino: a falta que faz o seu veneno

A overdose de notícias, opiniões e depravações decorrentes da campanha eleitoral em curso faz o cidadão ter saudade do tempo em que os jornais faziam uma cobertura digna da vida cultural brasileira. Época em que opiniões sensatas (ou não) sobre livros, filmes, peças e shows tinham espaços garantidos na chamada “mídia”. Hoje, o colunismo cultural, por exemplo, está extinto. Seu último grande representante no Brasil foi o jornalista Telmo Martino, que nos deixou em setembro de 2013

A opinião é uma ideia aposentada

A opinião é uma ideia aposentada

A frase-título desta crônica é de Millôr Fernandes, a quem concedi o título de “Único Filósofo Vivo do Brasil”. O fato dele ter morrido não quer dizer nada nesses tempos de fake-news e nem invalida a honraria, que seria recusada de imediato pois Millôr desprezava olimpicamente as medalhas e salamaleques, principalmente se viesse dos poderosos da vez.

Oito romances para reler até o mundo se acabar

Oito romances para reler até o mundo se acabar

Jorge Luis Borges disse certa vez que, após os 50 anos, não tinha mais tempo ou paciência para arriscar a leitura de lançamentos, mesmo os cercados de elogios gerais. Preferia a companhia dos livros que o marcaram e que mereciam releituras sem fim. Estava coberto de razão. Todos têm os seus livros prediletos, mesmo que não os tenham relido ou feito isso há anos ou décadas. A

As palavras e a fraude ou o malabarismo ideológico

As palavras e a fraude ou o malabarismo ideológico

Às vezes, as palavras revelam mais do que deveriam, vão além do que era a intenção original, escorregam em cascas de banana, cometem atos falhos, deixam rastros nos chistes e expressões. As palavras não são traiçoeiras, mas a forma como são utilizadas, sim. A vingança não demora: elas desmascaram a intenção do mau uso.

16 conselhos inúteis (e gratuitos)

16 conselhos inúteis (e gratuitos)

Preste atenção às fisionomias. Durante uma negociação, o olhar muitas vezes trai e desmente o discurso. O observador atento tira a média entre os dois e se aproxima das intenções do interlocutor. Suspeitar e desconfiar de alguém são as coisas mais fáceis do mundo; decifrar e compreender as pausas, olhares, tiques nervosos, parênteses e entrelinhas, isso dá trabalho.

A face oculta de Lolita

A face oculta de Lolita

Recusado por diversas editoras americanas, quando saiu em 1955 por uma editora francesa especializada em publicar livros em inglês, o escândalo foi de alta voltagem. Lolita, a personagem, transformou-se de imediato num símbolo da revolução de costumes em curso. O autor não conseguia compreender o sucesso, logo ele que escrevia textos sofisticados, burilados ao extremo, peças de teatro, ensaios críticos, traduções para o russo e uma biografia de Nikolai Gógol.

Tanto faz

Tanto faz

Quase na entrada da estação do metrô ouço a voz rouca e empostada que desafia a mesmice do início da noite: “A tristeza é a morte do assalto celestial”. No vão central da praça o dono da voz, um mendigo de meia-idade, age como se fosse um imperador romano que enlouqueceu no último ato. Dramático, o soberano dá passos lentos, faz paradas repentinas e, sem ninguém esperar, estufa o peito, ergue o queixo e repete, imponente: “É a morte do assalto celestial!”