Augusto de Campos, o maior poeta brasileiro vivo, certa vez disse que o arquiteto e artista Flávio de Carvalho (1899-1973) foi o inventor do happening, essa mistura de teatro, performance, artes visuais e borogodó. Exatos 70 anos atrás, em 18 de outubro de 1956, Carvalho vestiu uma blusa vermelha coberta por um tecido de nylon branco transparente, botou um saiote branco, pôs meias de bailarina, calçou sandálias de couro cru e arrematou com uma touca na cabeça. Chamou o visual de new look, reclamou que São Paulo era muito quente no verão e sentenciou que aquela seria a roupa do homem do futuro — sem nem fazer ideia de que as temperaturas ficariam ainda piores com o colapso climático do século seguinte.
Foi assim que ele caminhou, chocando a quase sempre provinciana e conservadora sociedade paulistana, pela Rua Barão de Itapetininga. Carvalho chamou a intervenção sociocultural-artística de Experiência Número 3. Antropofágico e inquieto, forjado no pensamento do modernista Oswald de Andrade (1890-1954), o artista argumentava que a solução final para enfrentar a metrópole calorenta seria o retorno ao modo selvagem, com todos andando nus pelas ruas, naquilo que ele classificava como ressurreição do primitivo, libertação dos tabus ocidentais, em uma vida sem propriedade tampouco Deus.
Carvalho chegou a ser apontado como candidato ao Nobel de Literatura em 1939, tamanha a sagacidade de seu pensamento, expresso em livros como “A Origem Animal de Deus” e “O Bailado do Deus Morto”.
Não foi o único caso de alguém que fez da própria aparência e do vestuário ferramentas de manifestação artística. Para desafiar a obrigatoriedade das gravatas, adereço masculino cujo uso até poucas décadas atrás era indispensável em teatros, cinemas e restaurantes de São Paulo, uma dupla de atores decidiu transformar roupas em panfleto.
Quem me contou foi o Sérgio Mamberti (1939-2021). Em março de 1974, ele e o amigo Raul Cortez (1932-2006) armaram de ir ao Theatro Municipal de São Paulo es-can-da-lo-sa-men-te vestidos — o Mamberti que falou assim mesmo, separando com cuidado as sílabas, bem ao seu modo saboroso de enfatizar a peripécia.
— Estávamos absolutamente comprometidos com toda a contracultura. E criticávamos o fato de o Municipal engravatar as pessoas. Naquela época, quem não usava terno era marginal. A sociedade era extremamente excludente e muito preconceituosa — foram as palavras dele.
A trama havia começado meses antes. Raul Cortez tinha voltado de férias na Bahia e reunira os amigos para uma janta na cantina Gigetto. Estava bonitão, todo bronzeado pelo sol e ostentando um rabo de cavalo. Vestia uma camiseta regata.
— E um lenço lindo — completou Mamberti, quando me contou o episódio. — O Raul sabia muito bem usar essas coisas.
Mas aí apareceu o gerente do restaurante. Empolado. Petulante. Com empáfia, se sentindo autoridade. Indignado, mas com boa educação:
— Ora, ora, senhor Raul… Me surpreende muito que o senhor entre aqui nesses trajes. Por favor, queira pegar uma camisa ou serei obrigado a solicitar que o senhor saia deste recinto. Aqui é ambiente de família.
O ator não pestanejou. Rebateu. Achou que aquilo era absurdo e improvisou um discurso ali falando que quem não concordasse com aquele regulamento estava convidado a ir embora naquele mesmíssimo momento.
— Metade do Gigetto saiu! — recordou Mamberti, aos risos.
O acontecimento foi o germe para que a dupla pensasse sobre o código de vestimenta do Municipal. Para eles, parecia algo “inacreditável”, como comentou o Mamberti, “que em 1974 a gente ainda tinha de seguir esse tipo de convenção”.
Então os dois combinaram que, separadamente, ambos iriam vestidos de forma transgressora para assistir à peça “Yerma”, do García Lorca (1898-1936), em montagem do gênio argentino Víctor García (1934-1982).
— Eu usava uma sandália unissex, de couro cru, com salto plataforma, meias coloridas, uma calça cor de tijolo… Veja só os detalhes… — descreveu Mamberti. — Vesti um quimono, não japonês, mas francês, de seda, dos anos 20 talvez. Todo bordado, cor palha, com a borda rosa. Coloquei uma camiseta por baixo e puxei o cabelo.
Raul Cortez botou um traje todo colorido, destacou o rabo de cavalo e caprichou nos lenços orientais.
— Entramos triunfalmente — celebrou Mamberti.
Para o meio artístico, aquele dia ficaria marcado como o que derrubou a obrigatoriedade das gravatas no Municipal.
Lembrei-me dessas histórias dias atrás quando li que o governo peruano, conservador e de direita, capitaneado pela filha de um antigo ditador, agora proíbe que meninos usem cabelos compridos nas escolas. Imagino que regras semelhantes também sejam cogitadas ou postas em prática nas tais instituições de ensino cívico-militares que um segmento tem defendido no Brasil. E me lembro de uma ex-ministra que alardeava que meninas devem usar rosa e meninos, azul.
Não tenho dúvida alguma do lado em que Mamberti, Cortez, Carvalho e Oswald de Andrade estariam, se vivos fossem, na atual disputa eleitoral. Porque, principalmente, não se trata apenas de uma questão político-partidária.
Estamos falando de direitos e liberdades conquistados. O vestir é só um detalhe quando imposições querem uniformizar pensamentos, condutas e ideologias — isso tem nome, mas é pior que um palavrão.

