Conheci uma família belga nos primórdios dos anos 1980. Eu sei que faz tempo pra chuchu. Eu contava míseros 14 anos. Eita! Confessei a minha idade. Que se dane. Já me lasquei mesmo. De acordo com os padrões demográficos vigentes no país, já sou considerado um homem idoso. Tenho até carteirinha, uma espécie de coleira de identificação que me garante certas prerrogativas, exceto urinar num poste em via pública — que pena… Idade cronológica, 61 anos; corpinho de 60 e cabeça de 91. Nada bom. Envelhecer não tem a menor graça.
Acho que fui o primeiro aluno da sala a conversar com o novato: um branquelo tímido, magricelo, desengonçado e de olhos claros. Mesmo sendo um colégio religioso, o acolhimento às pessoas não era o forte daquela instituição. Posso afirmar que houve uma conexão imediata entre nós. Ficamos muito amigos. Deve ter sido coisa de alma gêmea. Não posso garantir. Sequer estou certo de que almas existam. Gêmeos existem, mas são raros pra caramba. Quem sabe, energia vital, vibração ou coisa que o valha. Sei lá. Não me enche.
Passaram-se alguns dias e o meu amigo belga me convidou para conhecer a sua família. Ele morava perto da escola, juntamente com a mãe e duas irmãs. O pai tinha sumido do mapa, “graças a Deus”, nos dizeres deles. Era um homem mau e violento que constantemente surrava a esposa, até o dia em que o meu amigo belga catou uma faca na gaveta da cozinha e ameaçou de morte o próprio pai, se ele batesse nela novamente. Era fim de linha para o selvagem. Tocaram-no de casa.
Quando entrei no apartamento da família, fiquei imediatamente impactado com a beleza da irmã caçula. Era uma loira esguia, carismática, sorridente, cujos olhos eram de um azul tão impressionante que fazia lembrar um céu de primavera sem nuvens. Ainda assim eu me sentia nas nuvens. Balbuciei palavras das quais não me recordo. Devo ter gaguejado. Então, o meu amigo belga pediu para que eu arrotasse. É isso mesmo, você leu certo. Ele pediu que eu arrotasse como sempre fazia na sala de aula para divertir os colegas. “Os arrotos dele são incríveis, você vai ver”.
É evidente que ela não viu, muito menos ouviu. Eu não cometeria tamanho disparate na presença de uma gatinha como ela. Ainda chamam de gatas as mulheres bonitas? Idiotia tinha limite, até mesmo para um adolescente com o rosto cravejado de espinhas, como era o meu caso. Eu estava apaixonado. Com alguma sorte, com a ajuda do meu amigo belga, a sua irmã caçula cairia em meus braços, seria a minha namorada, a primeira namorada, aliás.
Lamentavelmente, o namoro flopou. Superei com resignação mais um de meus romances fracassados e a irmã caçula do meu amigo belga logo se engraçou com um menino mais velho, mais endinheirado e mais bonito do que eu. O cara tinha até um carro e dirigia sem habilitação. Um típico rebelde bem-sucedido. A despeito da desilusão amorosa, eu me afeiçoei bastante àquela família que pelejava no Brasil. Sentia pena deles, do lance da migração forçosa em busca de melhoria de vida e tudo mais. Além das comoventes e escabrosas histórias protagonizadas pelo pai troglodita.
Passado algum tempo — o ano era 1983, para ser tão exato quanto a cloaca de um maldito pombo —, a canção “Eyes without a face”, do cantor britânico Billy Idol, estourou, tornando-se uma das baladas roqueiras mais icônicas de todos os tempos. Ainda hoje é muito ouvida e apreciada por quem gosta de música de qualidade. Naquela época — eu juro que odeio essas palavras —, eu era calouro no curso de medicina. Afastamo-nos, pois o meu amigo belga tinha passado no vestibular para administração de empresas. A música e a poesia já tinham me capturado por completo. Eu tocava violão, escrevia poemas e me aventurava na composição de canções bobinhas que fizeram clamoroso insucesso lá em casa. Eu gostava de ouvir “Eyes without a face”. Era como se eu desse um mergulho, sempre que a escutava.
Certo dia, procurei a irmã caçula do meu amigo belga. Eu sabia que ela era artista, que pintava bem, que desenhava em tecidos para ajudar nas despesas da casa. Perguntei se ela conhecia a canção do Billy Idol e ela disse que sim, que era uma canção linda e que eu tinha um ótimo gosto musical. Cheguei a fantasiar que pudesse ter alguma chance com ela, mas a comichão passou rapidamente. Ela só queria pintar e pronto.
Entreguei em suas mãos delicadas uma camiseta branca e pedi que ela pintasse os dizeres “Olhos sem rosto”, que era a minha tradução para “Eyes without a face”. Além de beijar quase nada, eu sempre fora péssimo na língua inglesa. A princípio, ela não queria cobrar pelo serviço, mas, acredite, eu insisti e, miseravelmente, paguei uma mixaria pela verdadeira obra de arte que ela fizera na minha camiseta, a qual eu ostentava com orgulho dentro do ônibus que eu pegava diariamente para ir até a faculdade. Eu me contentava quando as pessoas — leia-se: garotas — olhavam aquela frase no meu peito e comentavam. Qual seria o significado de “Olhos sem rosto”, jovem estranho?
Os anos se passaram — e como passaram, cacete! — e eu continuo um estranho que é amante da música. Um mergulho de cada vez. Eu estava na varanda de casa. Calhei de ouvir “Eyes without a face” pelo rádio — sim, eu ainda ouço rádio, por quê?! — numa linda manhã ensolarada, sem que houvesse uma única nuvem no céu. Já não era mais o garotão deslumbrado, vestido com uma camiseta exclusiva, cujo verso criativo intuía significados os mais subjetivos, enquanto viajava dependurado dentro do coletivo lotado, em direção ao campus universitário.
Naquela manhã, eu me sentia meio otário. Achei que tinha perdido o ônibus. Achei que tinha perdido o rumo. Achei que tinha perdido a minha vida. De outra sorte, talvez fosse somente mais um daqueles recorrentes surtos de melancolia que aplacavam veteranos como eu, a devorar a paz pelas beiradas, a resgatar a fantasia, sem prévio consentimento, dalguma nuvem solitária, improbabilíssima, que flutuasse num céu primaveril que me fazia lembrar os comoventes olhos azuis da irmã caçula do meu amigo belga.

