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Bula AchadosLinguagem e invenção

Em francês, a palavra que corresponde a “o” é “le”. A que corresponde a “de” é “de”. Para escrever um romance inteiro sem a letra E, portanto, é preciso começar abrindo mão de palavras que aparecem quase em toda frase. Georges Perec fez exatamente isso em 1969. Seu livro “La Disparition” tem a dimensão de um romance convencional, personagens, mistério e investigação. O que não tem é a vogal mais frequente da língua francesa. O problema é que ninguém avisou o idioma.

Chama-se lipograma o texto produzido com a exclusão deliberada de uma ou mais letras. A ideia é muito anterior a Perec, mas poucos escritores assumiram uma proibição tão inconveniente num livro tão extenso. A primeira edição francesa, publicada pela Denoël, tinha 319 páginas, segundo o catálogo da Biblioteca Nacional da França. O número de páginas varia entre edições. A ausência da letra, não. É ela que determina o que pode ser dito e a maneira de dizer.

O romance começa com um desaparecimento. Anton Voyl some, e as pessoas à sua volta tentam compreender o que aconteceu. O nome do personagem já carrega um pequeno aviso aos leitores atentos. Há uma vogal faltando também ali, embora a solução não seja simplesmente substituir uma letra por outra. Quanto mais a investigação avança, mais os personagens parecem topar com uma falta que não conseguem nomear. O artifício da escrita e a intriga policial começam a se observar mutuamente.

Uma letra ausente0letras EGeorges Perec escreveu um romance inteiro sem usar a vogal mais frequente do francês.
A B C DF G H IJ K L MN O P QR S T UV W X Y Z
1969 · publicação319 páginas na edição originalOulipo
Como se escreve sem E?

O autor reformula palavras, sintaxe e frases inteiras para evitar a letra proibida. Esse tipo de escrita é chamado de lipograma. Em “La Disparition”, o desaparecimento também é assunto da trama.

Perec era integrante do Oulipo, grupo francês dedicado a estudar o que acontece quando um escritor escolhe obedecer a regras que ninguém lhe pediu para obedecer. Raymond Queneau, criador dos 100 trilhões de poemas combináveis, esteve entre seus fundadores. Não se trata de uma escola de literatura em que tudo seja permitido. É quase o contrário. A liberdade aparece depois que se inventa uma dificuldade e se decide conviver com ela durante o trabalho.

Isso exige uma negociação permanente com as palavras. Um objeto familiar precisa ser descrito por outro caminho. Uma ação banal obriga a encontrar um verbo menos natural. O período que parecia pronto volta à oficina porque contém a vogal proibida. A graça do livro está em transformar esse trabalho obsessivo em movimento narrativo. A proibição não fica guardada nas notas de rodapé, esperando o leitor impressionado descobri-la. Ela interfere no que pode acontecer com as personagens.

Seria fácil tratar “La Disparition” como uma exibição de virtuosismo, dessas que provocam um cumprimento respeitoso e ficam fechadas na estante. A dificuldade formal é real, mas a obra não se limita à façanha. A Biblioteca Nacional da França lembra que a ausência pode ser lida também como uma maneira de pensar outras perdas. Perec nascera em Paris, em 1936, numa família judia. Seu pai morreu durante a guerra. Sua mãe foi deportada e morreu em Auschwitz. O escritor cresceu sem os dois.

É preciso ter cuidado para não reduzir o livro a uma equação biográfica. Não se pode demonstrar que toda escolha de vocabulário reproduza uma experiência pessoal. Mas a história de quem escreve muda a leitura do vazio. A letra que falta não é apenas um desafio de palavras cruzadas. Também lembra que certas ausências organizam a vida de alguém e continuam presentes justamente porque não podem ser preenchidas com facilidade.

A experiência criou trabalho para os tradutores. Manter a história já exige encontrar equivalências difíceis; manter a ausência exige refazer uma parte da engenharia do livro noutra língua. Há versões que adaptaram o princípio e procuraram outra maneira de conservar o desafio. A tradução deixa de ser uma operação discreta. O tradutor passa a experimentar um pouco da mesma espécie de tormento que o autor decidiu impor a si próprio.

Quem chega ao fim de “La Disparition” pode esquecer algum personagem secundário, confundir uma pista ou não perceber um de seus jogos. É possível até ler várias páginas sem notar o que há de estranho nelas. Basta, porém, tentar escrever um único parágrafo sem E para perceber a dimensão do problema. O francês mais comum desaparece. Em seu lugar surge uma língua que Perec precisou aprender a fabricar enquanto escrevia.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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