Não há mais lugar na nossa pós-modernidade para as pilhas de fitas cassetes e LPs nos quais estão contidos alguns dos grandes momentos da indústria fonográfica. Paradoxalmente, não existe sobre a face da Terra um homo sapiens sapiens com mais de quarenta anos que não tenha saudade das horas e mais horas de melancolia, regozijo, pensamentos distantes e inadequados e, sobretudo, ilusões perdidas e choro diante de toca-fitas a girar incansáveis — ao menos até que a fina camada de partículas magnéticas engrolasse e à magia sobreviesse a chateação e, quiçá, o desespero. Rick Power é desse tempo, participou dessa pequena revolução e, como se o destino lhe pregasse uma peça, também encarna a velocidade como a cultura pop levanta e derruba seus ídolos. Ao longo dos cem minutos de “Hit para Dois”, Rick inspira afeição, respeito e ardor, mas também dó e revolta, em especial depois de uma nova tratantada da vida. Habilidoso em valer-se da música para destrinchar as emoções mais nobres e comportamentos os mais repreensíveis, malgrado comuns, John Carney urde uma história sobre amizade e traição, honra e vileza, botando em xeque conceitos como identidade e sucesso, com a eterna chance do recomeço.
Música e mágoas
Rick está longe de casa há muito mais de uma semana (e às vezes até se esquece disso). Depois de trocar os Estados Unidos pela Irlanda, a grande metamorfose em seu percurso foi deixar de lado a glória de apresentações nababescas e encarar as plateias mais intimistas de casamentos e cerimônias que tais, onde também é sensação. Numa dessas, conhece Danny Wilson, amigo do noivo e ex-integrante de uma boy band que parece arrependido de ter se arriscado na carreira solo e busca desesperadamente a oportunidade para o seu regresso triunfal. Nesse ponto, Carney e o corroteirista Peter McDonald investem na afinidade quase sobrenatural entre Rick e Danny, dois homens separados por uma geração, mas que passam pelas mesmas dores, pelo confronto de ego e realidade, fustigados pela diferença entre o que já foram e aquilo que se tornaram, talvez para sempre. O primeiro encontro dos dois, regado a cerveja, histórias e improvisos, fica muito longe do que se passa do segundo para o terceiro ato, depois que Danny usa uma composição do veterano num trabalho que sacode as massas — sem, no entanto, partilhar o crédito com Rick. A inconstância entre os personagens de Paul Rudd e Nick Jonas se traduz no vigor do filme, certeiro ao dar ênfase àquelas nossas vaidades que sufocam o que tem valor, absoluto e perene.

