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Literatura Perfil

Ao lado de Ricardo Guilherme Dicke e Dalcídio Jurandir, o escritor goiano pertence ao primeiro time da literatura brasileira, ainda sem o público que sua obra merece

Edival Lourenço faz parte, felizmente e infelizmente, de um seleto grupo de escritores brasileiros. Felizmente, pela companhia de autores extraordinários, como o mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke e o paraense Dalcídio Jurandir. Infelizmente, porque o reconhecimento de suas qualidades pela crítica e por outros escritores não lhes assegurou uma projeção nacional à altura de suas obras. São autores que, pelo que escreveram, pertencem ao primeiro time da literatura brasileira.

Agora, aos 74 anos, Edival publica “Um Palmo ou Dois Acima do Chão”, pela Faria e Silva, retomando na ficção a infância entre trabalhadores rurais. O romance venceu, em 2025, o Prêmio de Literatura Bariani Ortêncio, do governo de Goiás, destinado a romances e contos inéditos. Com R$ 150 mil por obra selecionada, a premiação é apresentada pela Secretaria de Estado da Cultura como a maior do país para livros inéditos. O escritor que volta a esse mundo é também o autor do delírio urbano de “A Centopeia de Neon”.

Lançado em 1994 e vencedor do Prêmio Nacional de Romance do Estado do Paraná, “A Centopeia de Neon” já tinha capítulos premiados como contos antes de chegar às livrarias. O livro inaugurou a editora que Edival havia criado para publicar também outros autores. Escrever, conseguir publicar e encontrar leitores eram trabalhos que precisavam ser feitos quase ao mesmo tempo.

Edival Lourenço sorrindo, de óculos e casaco, em enquadramento do peito para cima.
Edival Lourenço, autor de A Centopeia de Neon e do novo romance Um Palmo ou Dois Acima do Chão

Em 2017, Edival ainda apontava o romance entre seus preferidos. Ao explicar o mundo que havia criado, mencionou um Deus que cultivava seres humanos para consumir suas almas nas torradas. É difícil esperar muita compostura das criaturas de um Deus desses. O escritor definia o romance como “pop e delirante”.

No romance, o narrador recorda que a mãe, já muito debilitada, lhe disse que ele era seu filho predileto. Mas talvez ela nem soubesse com quem falava; talvez tivesse distribuído a mesma confidência entre os filhos. “Acho que puxei a minha mãe”, ele acrescenta. Depois disso, fica mais difícil acreditar sem reservas nas histórias desse filho.

“A Centopeia de Neon” integra também o primeiro volume de “Literatura Goiana: Pioneiros & Contemporâneos”, organizado por Ademir Luiz. Publicada pela Ex Machina e patrocinada pelo governo de Goiás, a antologia reúne obras integrais de dez autores, entre eles Gilberto Mendonça Teles, Leodegária de Jesus e Hugo de Carvalho Ramos. Cada obra vem acompanhada de um ensaio biobibliográfico. A inclusão do romance oferece uma ocasião para discutir seu lugar entre os livros brasileiros publicados nos anos 1990.

“Lugar Público”, de José Agrippino de Paula, saiu em 1965 e só teve uma segunda edição em 2004, pela Papagaio. Trinta e nove anos. “A Centopeia de Neon” teve uma trajetória editorial diferente, com sucessivas reedições. Os dois livros, contudo, permitem pensar nesse desencontro entre a admiração que uma obra desperta em seus leitores e o espaço que consegue ocupar na vida literária do país.

Na Festa Literária Internacional de Paraty, em 2013, o escritor Bráulio Tavares contou que um amigo lhe havia dado, em 1967, os dois romances de Agrippino, “Lugar Público” e “PanAmérica”. Ao relê-los, depois das reedições, não encontrara sinal de envelhecimento. “Às vezes, o que envelhece não é o livro, mas a pessoa que está lendo”, observou.

Há livros que circulam entre leitores que emprestam seus exemplares, recomendam a leitura e querem saber o que o amigo achou. Aos poucos, tornam-se míticos dentro desses círculos. “A Centopeia de Neon” pertence a essa família, mas também chegou a um público mais amplo por meio da escola. Adotado nos vestibulares de Goiás nos anos 1990, estava entre as leituras do vestibular de 1996 da Universidade Federal de Goiás.

Em 2017, dois anos antes de assumir a Secretaria de Cultura de Goiás, Edival chamou de “tirania geográfica” a dificuldade de circulação dos escritores de fora dos grandes centros. Voltou ao assunto ao comentar o prêmio recebido em 2025, quando manifestou a expectativa de que o reconhecimento ajudasse o novo livro a superar essas barreiras. Agrippino, paulista, é um lembrete de que o isolamento também se produz perto das editoras.

Dalcídio Jurandir recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra, em 1972. Ainda assim, “Linha do Parque” passou 33 anos sem reedição, até voltar a ser publicado em 2020. Ricardo Guilherme Dicke tinha em Hilda Hilst uma admiradora que o incluía entre os maiores escritores brasileiros, mas precisou buscar patrocínio para publicar. A aproximação com Edival está nesse descompasso entre a importância reconhecida e a circulação dos livros.

Nascido em Iporá, em Goiás, Edival começou a estudar aos 11 anos, depois de vender sua parte numa colheita de feijão para comprar o material escolar. Aos 15, a pobreza e a reprovação dos parentes quase o fizeram desistir de escrever. Uma professora de português lhe prometeu um livro que o reanimaria. A mãe achou que seria um livro de reza. Veio “Sem Família”, de Hector Malot.

Edival conta que saía da escola, caminhava cerca de 7 km e trabalhava na roça até o anoitecer. Na casa do avô, a candeia ficava longe do lugar onde dormia. Para ler deitado, virava o volume conforme a página, procurando aproveitar a iluminação. As ímpares eram lidas na posição habitual; as pares, de cabeça para baixo. Acostumou-se aos dois jeitos. O menino do romance, submetido à fome, ao frio e às humilhações, deu algum ânimo ao leitor goiano, que prosseguiu nos estudos.

Mais tarde, a amizade com o poeta Pio Vargas apressaria a publicação de “Estação do Cio”. Edival estava perto dos 30 anos quando os dois se conheceram, em 1981. Cuidava da família, buscava ascensão profissional e, segundo recordaria, já se conformava com a condição de escritor diletante. O entusiasmo de Pio o fez retomar os projetos. Ao recordar o amigo, contestou a versão segundo a qual teria sido seu pai literário. “Eu é que sou filho de Pio Vargas.”

Em “Naqueles Morros, Depois da Chuva”, publicado pela Hedra em 2011, Edival voltou ao Goiás do século 18, à exploração do ouro e à violência da ocupação. A narrativa acompanha a viagem de Luís de Assis Mascarenhas pelo relato de um sentinela castrado. Pôr a autoridade colonial sob observação desse personagem já complica qualquer celebração dos conquistadores. O romance ficou em segundo lugar na categoria romance do Jabuti de 2012.

A desconfiança diante da autoridade aparece também no humor. Numa perseguição, testemunhas informam que o fugitivo tomou a direção sul. A patrulha segue para o norte, com ares de quem executa uma “astúcia bilontra”. Os homens sabem que ele foi para o sul. Escolhem o caminho contrário para evitar o risco de encontrá-lo e morrer atingidos por uma flecha. Depois, voltam de mãos vazias, com ar de dever cumprido. A alegada esperteza encobre o medo.

Edival conta que passou mais de sete anos reunindo informações sem conseguir começar a redação do romance. Para vencer o bloqueio, inventou um autor e o suposto encontro de seus manuscritos em Portugal. O achado dos papéis fazia parte da ficção. Ao assumir a perspectiva desse autor imaginário, conseguiu escrever.

Edival Lourenço sorrindo, de óculos e camisa azul, em retrato do peito para cima.
O romance Naqueles Morros, Depois da Chuva foi premiado na categoria romance do Jabuti de 2012

Na poesia, “Pela Alvorada dos Nirvanas”, publicado em 2009, está entre os melhores livros de poesia que apareceram no Brasil nas últimas duas décadas. A memória familiar passa por imagens que atrapalham o conforto da nostalgia. Logo na abertura, uma manhã de dezembro “comete atrocidades / ao meu coração”. Mais adiante, os sorrisos de fotografias antigas se parecem com anúncios de uma campanha eleitoral frustrada. Aqueles rostos também prometiam um futuro. A aproximação entre o álbum de família e a propaganda política introduz uma amargura que dispensa a lamentação.

Ao examinar a poesia reunida de Edival, em 2015, o crítico Carlos Augusto Silva aproximou esse poema longo do “Poema sujo”, de Ferreira Gullar. No ano seguinte, a revista literária “Words without Borders” publicou “Invenção efêmera” em inglês, na tradução de Eric M. B. Becker.

“A Centopeia de Neon”, “Naqueles Morros, Depois da Chuva” e “Pela Alvorada dos Nirvanas” justificam uma revisão do lugar de Edival na literatura brasileira. O primeiro desses livros saiu em 1994. Passaram-se mais de 30 anos, e seus admiradores continuam a apostar que será mais lido no futuro. Mas Edival está lançando outro romance. A discussão sobre sua obra pode se ampliar agora, com o autor por perto para ouvir seus novos leitores, conversar sobre os livros e discordar deles.

A obra de Edival

Três livros para reler

  1. 1994

    A Centopeia de Neon

    Romance · Prêmio Nacional de Romance do Estado do Paraná

  2. 2009

    Pela Alvorada dos Nirvanas

    Poesia

  3. 2011

    Naqueles Morros, Depois da Chuva

    Romance · Segundo lugar no Jabuti de 2012

O novo romance

Um Palmo ou Dois Acima do Chão

Capa de Um Palmo ou Dois Acima do Chão, de Edival Lourenço, publicado pela Faria e Silva.

Edival Lourenço

Faria e Silva · 2026 · 392 páginas
Prefácio de Miguel Sanches Neto

Vencedor do Prêmio de LiteraturaBariani Ortêncio · 2025

O menino que contava os bichos entre os seus

Em “Um Palmo ou Dois Acima do Chão”, a primeira discordância do menino é com a mãe. Ela diz que eram três. Ele inclui os cachorros, os gatos, as galinhas, o papagaio e o jabuti. Quando o papagaio foge, os pais ficam semanas sem cantar. A ave não entrava na conta da mãe, mas sua ausência é sentida como uma perda na família. O menino tinha alguma razão.

A família precisa deixar a fazenda depois que o proprietário insinua que o pai deve ir embora. Mas, segundo o filho, o pai já estava mesmo querendo se mudar. O ribeirão tinha pouco peixe, havia desmate demais e o fazendeiro era implicante. Razões para sair dali, portanto, não faltavam. Resta saber se teriam bastado sem a conversa com o dono da terra. O menino tem outras preocupações. Acredita que o mundo termina onde o céu encosta no chão e teme que o carro de boi avance além desse limite. A viagem dura três dias, entre solavancos, poeira e paradas para beber água nas grotas. E a borda do mundo vai se afastando conforme a família avança. O trecho a seguir acompanha essa mudança nas primeiras páginas do romance de Edival Lourenço.

Leia um trecho

Um Palmo ou Dois Acima do Chão

Edival Lourenço · Capítulo 1

Era eu, meu pai e minha mãe. Isso é o que a mãe dizia. Pra mim, a gente era muito mais. Ela não contava os cachorros, os gatos, as galinhas e os porquinhos. Nem o papagaio verde que cantava: “Cabeça inchada, morena, tô, tô e tô”. Ela não contava os bichos que eu via nas árvores e no chão, por onde olhava. Não fazia conta dos pássaros que voavam em círculos, roda ciranda pelo céu. Não contava sequer o jabuti, que entrou feito um bicho encantado em nossa vida. Não contava, porque não queria contar. Mas eu contava sem ela saber.

O papagaio, certa manhã de sol aceso, depois de chuva na véspera, saiu voando, meio estabanado, a grasnar, parecendo um selvagem, esbarrando nas copas das árvores. Sem olhar para trás, sumiu no mundo com os da sua igualha e nunca mais voltou. Nem pra agradecer nosso carinho e o milho que comeu até se fartar, pelo tempo que quis. Se para ele foram tempos de alforria, para nós foram dias de abatimento e luto. Em nossa casa, desceram nuvens de silêncios e lamentações. Meus pais ficaram até sem cantar ao som da viola, por semanas. Por isso, penso que todo mundo deveria ser contado.

Não havia relógio em casa. O tempo era contado em manhã, tarde e noite. Tempo da seca e tempo das águas. Tempo de plantio e tempo de colheita. Tudo caminhava no ritmo de uma vida sem fim, sempre retornando. Meus pais iam ser meus pais pra toda a vida e eu jamais deixaria de ser a criança cuidada por eles. O tempo não passava, ou se passava era bem devagarinho, quase sem passar, rodando no próprio eixo, com as graxas da eternidade. O que passava muito por lá era o vento, principalmente pelo alto, sussurrando nas frondes dos buritis.

Agora, um desses ventos passou rasante, bateu rente e nos pegou de jeito, pra nos tanger pra longe. O proprietário insinuou que meu pai deveria se mudar. Por coincidência, ele já estava mesmo com vontade e até decidido. O Ribeirão das Lajes tava muito velho e usado, com muito ramo podre e pouco peixe para pescar. Havia desmate demais e caça de menos. Ele queria mudar pra onde tivesse um ribeirão novo, ainda sem uso ou muito pouco usado, pra pegar peixes a rodo. Um mato grande e ainda virgem, onde os bichos nem tivessem medo de gente. Além do que, achava o fazendeiro muito implicante, bruto e mandão. A relação com ele estava cada vez mais parecendo com urtiga.

Tínhamos abandonado a casa de capim-sapé, na região do Morro do Macaco, e mudado para muito longe. Tão longe que até acabou por me dar uma nova noção sobre as distâncias dos lugares e o tamanho do mundo. Porque o mundo pra mim era um objeto pequeno, um cone virado de ponta-cabeça, plano, com alguns calombos e meio circular, que lembrava uma rolha de buriti, de pé, boiando n’água. Protegido de um lado pelo Morro do Macaco e, de outro, desbarrancando nas imediações do logo ali à frente, onde a vista embaça e o céu encontra com a terra, trocando impressões. Se alguém quisesse ir mais longe, só se fosse voando pro alto, que nem os passarinhos, ou os urubus ao voejar na tarde, em rumo do sol, da lua e das estrelas. Como a gente não tinha asas, nem planos de instalar algumas, só se voasse com a imaginação. Ou se algum sonho, ou mesmo um vento atrapalhado, soprando de baixo para cima, nos pegasse pelas alças e subisse com a gente pelo céu.

Durante a viagem, passei o tempo todo cismado de que, logo pudesse ultrapassar a fronteira, a parte plana da terra chegaria ao final e começaria o desfiladeiro, uma região tenebrosa. Sem perceber de antemão, a gente cairia de súbito na borda do mundo, numa ribanceira, num abismo, não sei se congelado ou de mormaço infernal. Onde houvesse pouco ar, quase nenhuma luz, e sombras estilhaçadas trombando pelo espaço. Abismados, sofreríamos a danação de passar a eternidade inteira, e até um pouco mais de tempo, numa queda vertiginosa, ouvindo o mugir soturno dos bois, com seu surdo e vago tropel, caminhando em falso, sem encontrar o apoio de algum chão, para firmar o golpe e recolocar o carro nas trilhas.

Foram três dias puxados, sob as brasas de um sol descoberto, pendurado com rebaixamento. Atravessamos brejos, arroios, ladeiras e escarpas, passando por trilhas empinadas, nos solavancos dos sobes e desces, zigue-zagues e volteios, comendo poeira com farofa de frango e bebendo água de grotas na concha das mãos. Três dias que me pareceram três séculos.

Finalmente chegamos à nova moradia, bem pra lá da divisa, onde a vista embaça e o céu se mistura com a terra. Por sorte, ou proteção de Deus, não caímos em nenhum abismo. O lugar de encontro da terra com o céu foi se afastando, se afastando, caça arisca que foge do caçador, à medida que nosso carro avançava.

Trecho de “Um Palmo ou Dois Acima do Chão”, de Edival Lourenço. Faria e Silva, 2026.

Carlos Willian Leite

Carlos Willian Leite é poeta, jornalista e editor, fundador da Revista Bula e da Bula Livros. Escreve sobre literatura, cinema, streaming e vinhos.

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