Movidos pelo amor que transcende a natureza, bons pais fazem tudo por seus filhos. Adultos cheios de inseguranças e medos, pais e mães viram leões em nome da cria, defendendo e sacrificando suas vontades por crerem que esse é o dever que lhes outorga alguma força suprema, o que nada tem a ver com formação religiosa. Há quem abdique de si para assegurar que seu rebento encontre a felicidade, embora saiba que isso pode levar a dupla frustração. O mundo vem abaixo, a ruína das finanças deixa de ser uma ameaça para converter-se numa sufocante realidade, mas os filhos continuam a tomar o centro das atenções de gente como Julie Delpy, a diretora, roteirista e personagem central de “Minha Zoe, Minha Vida”. Enquanto não chega ao desfecho meio batido (e, de qualquer forma, polêmico), Delpy mostra ao espectador uma mãe, sua filha e as muitas idas e vindas e altos e baixos dessa convivência, urdindo a crônica involuntária de uma perigosa obsessão.
Vidas comuns
“Não há limite para o amor de uma mãe”, diz o cartaz de divulgação de “Minha Zoe, Minha Vida”. É mentira, claro — e como se vai ver, é melhor que seja mesmo. Delpy é Isabelle, uma geneticista americana-francesa vivendo em Berlim que tenta conduzir sua carreira sem descuidar das atenções a Zoe, que, como sugere o título, demanda-lhe muito tempo. Houve uma família convencional ali, e o filme ganha novas possibilidades com o surgimento de James, o ex-marido de Isabelle e pai de Zoe, um sujeito manipulador, egoísta, rancoroso e que nunca perde a chance de dizer que a ruína do casamento é culpa dela. Akil, um namorado palestino, compõe a equação como um fator a mais de instabilidade, e a diretora-roteirista vale-se dessa figura para robustecer o mal-estar que torna-se o eixo da narrativa. E vêm os problemas.
A indesejada
Ao chamar Zoe para a escola, Isabelle nota que a filha continua imóvel na cama. Um episódio misterioso está por trás do que parecia uma inocente gripe, e o bom enredo descamba para um terreno pantanoso e cheio de banalidades. Delpy ensaia reflexões sobre a obrigatoriedade muitas vezes cruel da morte, mas põe tudo a perder com a solução fácil que estarrece. Richard Armitage e Daniel Brühl amenizam os danos, mas resta um travo azedo de decepção.

