Discover

Dramas de família podem terminar de muitas formas — ou não terminar nunca. Por mais íntimas que pareçam, escolhas nunca são individuais de todo, podendo definir a vida de uma pessoa para o bem ou para o mal e um dia, muito antes do que se pense e do que se queira, revelar tudo o que esconderam. Sem grandes pretensões, “Aprendendo a Ser Pai” tem um quê de filosófico, exatamente como umas tantas situações que rondam a existência. Em 98 minutos, Hajni Kis elabora cenas de derreter o mais empedernido dos corações observando o vínculo que um homem solitário passa a manter com a filha, ansiosa por revê-lo depois de um afastamento longo e traumático. Numa história contida, Kis e a corroteirista Fanni Szántó são hábeis em destrinchar assuntos desventurosos a exemplo de vulnerabilidade social, afetos moribundos e aquela tentadora vontade de sumir, todos eles de alguma forma ligados a um tipo de masculinidade ruinosa, que mina as possibilidades de um final feliz (ou completamente feliz).

Tal pai, tal filha

Ter toda sorte de problemas, dos que tocam à própria biologia aos mais severos, sendo impossível o ajuste ao padrão de condutas e regras do tal sistema, é o paradigma do martírio chamado adolescência. Niki não foge à regra, com agravantes como ter sido criada pela avó depois que a mãe morreu e seu pai ter enroscos com as autoridades de quando em quando. Mentiras e planos megalomaníacos de uma súbita virada de mesa estão sempre a fervilhar num caldeirão de ócio e inquietude, até saber que o outro desordeiro da família está na rua. Kis alterna os momentos de rebeldia juvenil da garota, materializados nas sequências em que aparece experimentando tênis de marca com as meias sujas ao lado de Karola, a melhor amiga interpretada por Mikolt Szelid, à jornada pela noite de Budapeste à procura de Tibor, tentando se defender como segurança de um inferninho. Muito da beleza de “Aprendendo a Ser Pai” deve-se às performances de Zorka Horváth e Gusztáv Dietz, atores não profissionais que seduzem a câmera e o espectador sem a menor cerimônia. A estreia de Kis em longas já faz cinco anos e não se sabe quando ela dirigirá um novo filme.


Filme: Aprendendo a Ser Pai
Diretor: Hajni Kis
Ano: 2021
Gênero: Coming-of-age/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

Leia Também