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“Estômago” começa com Raimundo Nonato (João Miguel) chegando à cidade sem dinheiro, sem amigos e sem qualquer perspectiva. Ele dorme onde consegue, anda pelas ruas tentando encontrar emprego e aceita trabalhar para Zulmiro (Babu Santana), dono de um bar pequeno, sujo e perdido em meio ao caos urbano. O serviço parece miserável até para os frequentadores do lugar, mas Nonato percebe uma oportunidade quando começa a cozinhar salgados melhores do que os vendidos ali. Pela primeira vez, alguém presta atenção nele.

Marcos Jorge conta essa primeira parte quase como uma reportagem sobre sobrevivência informal. O bar de Zulmiro vive cheio de trabalhadores cansados, homens bêbados e clientes interessados apenas em comer barato antes de seguir o dia. Nonato observa tudo em silêncio, aprende rápido e transforma pastel e coxinha em algo disputado pelos fregueses. Zulmiro gosta do lucro, mas passa a enxergar o funcionário com desconfiança. A cozinha melhora, os clientes aparecem em maior número e o dono do estabelecimento perde parte da autoridade que mantinha pelo medo e pelos gritos.

O filme faz desses pequenos constrangimentos cotidianos um pouco de humor. Nonato é tímido, fala pouco e parece deslocado em qualquer ambiente, mas sua habilidade na cozinha produz situações quase absurdas. Enquanto muita gente tenta impressionar pela força ou pela conversa fiada, ele conquista espaço servindo comida. E isso irrita alguns personagens mais do que deveria.

A chegada de Iria

Iria (Fabiula Nascimento), prostituta que vive perto do bar, aproxima-se de Nonato por causa das refeições que ele prepara. Ela não sabe cozinhar, vive cercada por homens inconvenientes e encontra conforto naquele sujeito silencioso que oferece pratos elaborados mesmo morando praticamente dentro de um depósito. A relação entre os dois cresce de maneira torta, cheia de interesse, carinho e conveniência. Iria gosta da comida; Nonato gosta da atenção. Os dois fingem algum equilíbrio emocional enquanto a realidade em volta continua brutal.

A presença de Iria também amplia o lado cômico do longa. Há cenas em que ela elogia um prato com entusiasmo muito maior do que demonstra pelo cozinheiro. Nonato aceita aquilo quase como um acordo comercial afetivo. Ele cozinha melhor, ela aparece mais vezes, e assim os dois criam uma espécie de rotina improvisada em meio à precariedade.

Upgrade na carreira

A situação muda quando Giovanni, dono do restaurante italiano Boccaccio, oferece emprego a Nonato. O ambiente muda completamente. Saem os salgados gordurosos do balcão popular e entram massas refinadas, vinhos caros e pratos organizados com rigor quase militar. Giovanni percebe talento no novo funcionário, mas cobra disciplina absoluta. Nonato passa a aprender técnicas mais sofisticadas enquanto tenta entender as regras daquele espaço onde prestígio depende de comportamento, aparência e hierarquia.

Marcos Jorge evita transformar o restaurante em fantasia elegante de programa culinário. A cozinha do Boccaccio é apertada, barulhenta e cheia de tensão. Funcionários disputam espaço, ordens chegam aos gritos e qualquer erro ameaça o emprego de alguém. Nonato suporta humilhações porque entende que cozinhar ali lhe dá acesso a um mundo antes distante demais para alguém na sua condição. O personagem cresce socialmente, mas continua carregando insegurança e ingenuidade.

Rotina na prisão

Ao mesmo tempo, o roteiro começa a alternar a ascensão profissional de Nonato com cenas dentro de uma prisão. O espectador percebe cedo que alguma coisa saiu terrivelmente errada naquele caminho. Preso entre criminosos violentos, Nonato encontra outro ambiente controlado por hierarquia rígida. Quem manda ali é Bujiù (Babu Santana), detento respeitado pelos demais e acostumado a resolver conflitos pela intimidação.

A prisão, porém, repete a lógica do lado de fora. Outra vez, comida significa poder. Nonato começa a cozinhar para os presos e transforma refeições miseráveis em pratos elaborados usando ingredientes limitados. O resultado é quase cômico: homens perigosos passam a tratar o cozinheiro com admiração genuína. Dentro da cadeia, ele ganha o apelido de Rosemary e conquista proteção sem precisar agir como valentão.

Ironia e absurdo

Esse contraste entre violência e culinária sustenta boa parte da força de “Estômago”. Existe algo profundamente engraçado em criminosos brutais discutindo tempero, macarrão e ponto de cozimento com enorme seriedade. Mas Marcos Jorge nunca transforma os personagens em caricaturas vazias. Cada gesto de gentileza carrega interesse, disputa ou necessidade prática.

Nonato quase sempre parece observar antes de agir. Ele aprende ouvindo e percebe rápido como as relações funcionam em cada ambiente. A cozinha vira ferramenta de sobrevivência, sedução e influência. Em vez de força física, ele usa talento culinário para circular entre pessoas que poderiam destruí-lo facilmente.

“Estômago” também chama atenção pela forma como mistura gêneros sem perder unidade. O humor aparece em diálogos secos e situações constrangedoras; o drama cresce conforme Nonato entende o preço de subir socialmente; o elemento criminal surge ligado a ambição, desejo e violência cotidiana. Tudo acontece de maneira fluida, sem transformar o filme em discurso sociológico pesado.

Quando a história se aproxima do encerramento, a sensação é de que Nonato finalmente compreendeu uma regra antiga: em qualquer lugar, do boteco mais imundo ao restaurante sofisticado, passando pela cela superlotada, sempre existe alguém disposto a mandar e alguém tentando sobreviver. E poucas coisas mudam tanto a posição de um homem quanto um prato servido na hora certa.


Filme: Estômago
Diretor: Marcos Jorge
Ano: 2007
Gênero: Comédia/Crime/Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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