Numa época em que termos a exemplo de “masculinidade tóxica” e “sororidade” pularam das rodas de conversas direto para as páginas dos jornais e os debates na televisão, quando mulheres reivindicam — e conseguem — os mesmos direitos que os homens, filmes como “Vingança” podem, claro, ser uma temeridade. O comportamento masculino nunca foi modelo em diversos aspectos, e esse é o ponto de onde o enredo começa a ganhar substância, os descaminhos emocionais de uma jovem mulher numa jornada de autodescobertas que sai do plano do desejável num episódio com a marca de violências de muitos feitios, inauguradas pelo sexo. Há um laivo de feminismo militante, artificioso no que a diretora Coralie Fargeat oferece ao espectador, mas a algum custo, a história se encaixa no padrão em que a mocinha padece suas agruras, lamenta-se, chora, mas recobra o domínio sobre a própria vida de um jeito muito peculiar, escolhendo com cuidado do que quer se lembrar e o que não pode esquecer ao longo do caminho, feito de mil pedaços nada felizes que já não podem ser varridos para debaixo do tapete da memória.
Terror colorido
Fargeat estica a corda ao máximo, sem medo de patrulhas, e não faz feio. “Vingança” reflete o espírito do tempo, um tempo em que certos homens só conseguem afirmar sua macheza subjugando mulheres vulneráveis, com um gosto especial por encará-las como um objeto dado pela natureza para a saciar seus apetites. Richard, um milionário de quarenta anos, casado e pai de dois filhos, vive um caso com Jen, uma garota de vinte e poucos, e parece haver entre eles uma espécie de pacto, sacramentando que cada qual tira sua vantagem um do outro, sem neuroses ou cobranças. Até aí, tudo bem: trata-se de dois adultos no gozo de seu livre-arbítrio. Eles passam a noite juntos, como namorados numa primeira viagem a sós, e a história poderia ter um final feliz, se não aparecesse uma dupla de sujeitos mal-encarados, com rifles de longa distância a tiracolo. Stan e Dimitri vieram para o fim de semana de caça marcado pelo anfitrião, e na manhã seguinte, quando Richard sai para resolver um problema inesperado, Stan, com quem a moça tivera alguma afinidade, a cerca. Não é difícil antever no que isso dá, mas o pulo do gato da diretora-roteirista é a forma como torce o trivial e chega à barbárie, no gore cheio de azuis e rosas néon valorizado pela performance de Kevin Janssens e Matilda Lutz.

