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Não é de hoje que Los Angeles desperta uma curiosidade entre inocente e mórbida nos pobres mortais que nunca irão saber ao certo o que se passa naquele lugarejo meio sem graça do oeste americano. O cinema tratou de eternizar a Cidade dos Anjos como uma terra na qual as oportunidades brotam do chão e projetam-se em direção ao sol vigoroso da Califórnia, como uma das tantas palmeiras que tratam de suavizar a aridez do cenário. Esses filmes conquistaram seu lugar no coração do público justamente por reverenciar a ideia de que na América o sol nasce mesmo para todos, argumento que por seu turno dá margem a uma pletora de interpretações, visceralmente ligadas ao conceito de trabalho duro, meritocracia, o capitalismo encarnando o papel de grande redentor dos homens, vitaminado, por óbvio, pelo rio de dólares de uma economia pujante, que vez ou outra até tem seus períodos de baixa, mas que nunca seca por completo. Naturalmente, o caldeirão de lugares-comuns que a indústria cinematográfica faz questão de manter sempre muito bem-abastecido entorna de quando em quando, momento em que vêm a luz joias raras que castigam os costumes sem pesar a mão, com uma margem de recuo para movimentos nos mais inusitados sentidos. Inspirados pelo romance homônimo de James Ellroy, de 1990, Curtis Hanson (1945-2016) e o corroteirista Brian Helgeland fazem de “Los Angeles: Cidade Proibida” um tributo à beleza diabólica da meca do entretenimento e, claro, a seus tipos tão degradados quanto sedutores.

O reino das ilusões

Na introdução, ouve-se um resumo do que pode ser a vida em L.A. Ilusões com uma carreira no cinema, luxo, glamour, tudo isso contraposto a subempregos, desemprego, mendicância, fome, prostituição, são dissecadas por uma voz sólida, magnética até que se conheça, enfim, seu dono. Baixinho, calvo e gordo, Sid Hudgens é um dos maiores expoentes da imprensa marrom de L.A., esperto o bastante para juntar a cena policial e o showbiz em espetáculos freaky dignos de Oscar. Ele combina esquemas com gente como Jack Vincennes, um seu homólogo no Departamento de Polícia, e assim consegue flagras de atores e celebridades em geral, pegos com a boca na botija. No outro polo, está Bud White, o detetive insubornável que impede que uma mulher seja surrada pelo marido, deixando-o algemado no corrimão da sacada para ir à festa de Ano-Novo do distrito.

A máfia quer dançar

White imagina que poderá ter uma breve folga das preocupações com a escória, mas o dever o chama. Um massacre numa cafeteria deixa um policial corrupto morto, e três jovens negros são detidos como suspeitos. Pouco antes, Mickey Cohen (1913-1976), o rei dos gângsteres, e Johnny Stompanato (1925-1958), seu guarda-costas, já haviam aprontado, e Ed Exley, um novato ambicioso, quer uma chance de provar que é o homem certo para este caso. Aos poucos, a escalação de Danny DeVito, Kevin Spacey (com quem Ellroy nunca simpatizou), Russell Crowe e Guy Pearce mostra-se uma das mais felizes da história de Hollywood. Por essas e outras, Helgeland ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado — e não nos esqueçamos de Kim Basinger, a vencedora do prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, por sua Lynn Margaret Bracken, uma femme fatale bastante vulnerável.


Filme: Los Angeles: Cidade Proibida
Diretor: Curtis Hanson
Ano: 1997
Gênero: Crime/Thriller
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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