A artimanha não é novidade: construir um romance em que ficção e realidade se misturam em um jogo que seduz e confunde o leitor. Tecer um enredo assim com maestria, contudo, é para poucos.
Foi com um misto de fascinação, curiosidade e um riso sarcástico que vez por outra escapava diante de sacadas narrativas que li — devorei, para ser exato — “O Escutador”, esta obra pontiaguda que o escritor e jornalista Carlos Marcelo lançou em 2025 pela Impressões de Minas. A trama escorre feito crônica. Mas, graças ao talento de engendrar a história a partir do entrelaçamento de fiapos que vão de notas de rodapé ao ego da primeira editora, a personagem Virgínia Lemos (1925-1999), o livro se esparrama por capítulos em uma novela saborosa e instigante.
Contudo, o melhor meio de apresentar essas escritas recuperadas por Carlos Marcelo é recorrendo àquele que, muito provavelmente, foi o primeiro resenhista de repercussão nacional a prestar atenção ao trabalho literário do autor-personagem Ademir Lins (1937-1958). Refiro-me ao jornalista e crítico de arte Epifânio Costa Jr. (?-1984), que, no auge de sua carreira, publicava com frequência no “Suplemento Literário” do jornal “O Estado de S. Paulo”.
Tive acesso ao acervo mantido pelos herdeiros de Costa Jr. em sua cidade natal, onde ainda reside sua família, em Taquarituba, no interior paulista. Lá encontrei um bilhete da proprietária da editora Montanhesa, Virgínia Lemos. “O senhor me pede algo de Minas Gerais que não tenha encontrado vasto público. Aprecie este, um dos poucos exemplares restantes do único livro de um obscuro escritor que, certamente, será relegado ao esquecimento”. A mensagem não estava datada.

Junto às coisas do velho Costa Jr., empoeirado por décadas do ar carregado de partículas da terra roxa de Taquarituba, repousava “O Escutador”, na edição original, de 1958. Visivelmente manuseado, notei que em algumas páginas havia grifos e anotações ininteligíveis feitos com a indefectível caneta de tinta verde que o crítico gostava de usar.
Localizei o comentário crítico de Epifânio Costa Jr. na edição de 9 de julho de 1960 do “Suplemento Literário”. Em um texto de três parágrafos, intitulado “Ecos Roucos de Barbacena”, o jornalista pincela a trajetória e o desaparecimento de Ademir Lins — pontuando seu triste fim no Hospital Colônia de Barbacena, conhecido como “cidade dos loucos” —, mas enaltece a qualidade literária deste, em suas palavras, “tesouro garimpado nas Minas Gerais que tanto ouro se nos deu [sic]”.
Costa Jr. reconhece “graça e estilo no fazer literário” de Lins, ao misturar “a ficção de seus prováveis delírios, posto que acabaria em um manicômio” com a “curiosa realidade do seu ofício de escutador”, emprestando, “na forma de ouvir”, o “seu tino, um bocado de talante e o suficiente talento” para salvar narrativas livrescas comerciais dos projetos que sustentavam a operação empreendida por Virgínia Lemos à frente da Montanhesa.
“A função, comum no mercado estadunidense, ganha no livro uma tonalidade alegórica. Lins faz do escutador não apenas uma peça da maquinagem editorial, mas uma personagem trágica: alguém que, ao dedicar a vida a ouvir histórias alheias, perde gradualmente a própria voz”, escreve Costa Jr.
Procurei os responsáveis pelo arquivo de Virgínia Lemos e da hoje extinta Montanhesa no intuito de obter alguma carta do jornalista a ela, ainda que em resposta ao pequeno bilhete. Até o momento, contudo, não obtive retorno. Caso seja verificada a existência dessa réplica, com prazer irei acrescentar aqui a este texto, se o editor da Bula não se importar em fazer a emenda.
Analisei com atenção as entradas do diário mantido por Epifânio Costa Jr. e me deparei com uma anotação na data de 15 de maio de 1960. Embora um tanto confusas, essas linhas permitem que vislumbremos como este livro foi recebido pelo notável crítico daquele tempo.
“‘O Escutador’: resiste a qualquer tentativa de aprisionamento em rótulos cômodos. Seria ele um relato? [ilegível] confissão? Um exercício de fabulação? É tudo isso e ainda algo que escapa pelas frestas. Lins urde sua narrativa [ilegível] como quem, na febre de uma urgência íntima [Costa Jr. riscou a expressão “urgência íntima”], ajunta páginas soltas de um caderno clandestino: entrelaça reminiscências pessoais, transcreve [ilegível] trechos de romances diletos, convoca referências dispersas e integra, com desvelo quase conspiratório [palavra também riscada], episódios colhidos nos bastidores da Montanhesa. Talvez melhor não citar isto na resenha, evitar problemas legais. Tal tessitura híbrida, longe de denunciar imperícia, é antes a própria ars poetica do autor — não um vício, mas um método deliberado.”
Fato incontornável da história da literatura: há livros que somem, reaparecem e, quando finalmente voltam à cena, carregam consigo algo mais que texto, trazem o peso de uma história editorial, de um autor perdido e de uma obra que parece ter sido escrita à beira de um abismo. “O Escutador”, nesta republicação organizada por Carlos Marcelo, se insere nesta categoria.
O volume ressurge depois de mais de seis décadas fora de catálogo, devolvendo ao leitor contemporâneo o único livro de Ademir Lins, autodidata, mineiro por adoção, frequentador da cena literária de Belo Horizonte no fim dos anos 1950 e desaparecido no mesmo ano do lançamento da obra. A nova edição inclui notas críticas e um ensaio de fôlego do professor Emídio Gomes de Medeiros, que ajudam a decifrar, embora não esgotem, o enigma dessa narrativa híbrida.
Em termos narrativos, o texto inteiro é atravessado por um tom confessional dirigido a um interlocutor nunca nomeado, quiçá à própria editora Virgínia Lemos.
A escrita vem travestida de registro íntimo. O entusiasmo inicial, com a empolgação pelo ingresso no mundo da “cidade dos escritores”, dá lugar a um crescente desassossego. Lins gradativamente vai se percebendo como alguém que não é dono de sua voz literária. Cabe-lhe apenas escutar. Ele está a serviço da literatura de outros, dos outros. O escutador, assim, observa o mundo literário mineiro como um território tão fascinante quanto corrosivo. Enquanto acompanha escritores talentosos, mas exaustos, ele mesmo se aproxima de um limiar psicológico perigoso.
Nos trechos finais, a prosa assume ritmo febril. Há frio, silêncio, visões. Há o pressentimento de um fim à espreita. Lido à luz do desaparecimento real de Ademir Lins, o desfecho ganha contornos quase míticos.

