Um golpe pequeno acerta o bolso errado e muda o tamanho da história. Em “Golpe de Mestre”, George Roy Hill reúne Paul Newman, Robert Redford e Robert Shaw numa comédia policial ambientada em Illinois, em 1936, quando Johnny Hooker, vigarista jovem e ligeiro, mexe sem saber no dinheiro de Doyle Lonnegan, um chefão do crime. A vingança de Lonnegan mata um parceiro de Hooker, que foge e procura Henry Gondorff, trapaceiro mais velho, para montar contra o criminoso um conto do vigário grande o bastante para atingir dinheiro e orgulho.
A época aparece em roupas, letreiros, interiores, música e modos de circulação, mas Hill não deixa a decoração comandar a cena. O que move o filme são mesas ocupadas na hora certa, envelopes passados de mão em mão, portas que se abrem para o homem errado, telefones que precisam tocar como se nada tivesse sido combinado. A trapaça aqui tem peso de trabalho. Alguém prepara a sala, alguém decora uma função, alguém perde uma aposta de propósito, alguém permanece no fundo apenas para tornar o ambiente convincente.
Hooker em fuga
Robert Redford faz Johnny Hooker com pressa no corpo. Ele sabe aplicar um golpe, escapar por pouco, sorrir para ganhar segundos, mas ainda não sabe esperar. Ganha dinheiro e perde dinheiro como quem não suporta ficar parado diante da própria sorte. Essa instabilidade dá ao personagem uma graça menos polida do que parece, porque o charme vem junto com descuido, e o descuido empurra capangas e policiais para perto.
Paul Newman entra em outra velocidade. Henry Gondorff entende que uma fraude maior começa antes da chegada da vítima, na disposição da sala, no silêncio de quem observa, na escolha do cúmplice que deve falar primeiro. Newman trabalha com pausas, recuos e uma calma meio gasta, sem transformar o veterano em sábio decorativo. Quando Gondorff assume o plano, a vingança deixa de ser impulso e passa a depender de horários, papéis, sinais e gente comum fingindo cumprir expediente.
A casa de apostas
Doyle Lonnegan precisa ser perigoso para que a brincadeira não perca chão. Robert Shaw lhe dá rigidez, pouca paciência para o ridículo e um orgulho que pesa mais que o dinheiro. Hooker e Gondorff não podem apenas roubá-lo; precisam fazê-lo acreditar que entrou no jogo por superioridade própria. A falsa casa de apostas nasce dessa vaidade, com balcões, vozes, telefones, apostas, funcionários fabricados e uma rotina inteira montada para que Lonnegan confie no que está vendo.
A divisão em capítulos e o ragtime dão ao filme um passo leve, quase de número ensaiado. Os cartões ilustrados anunciam etapas, a música empurra a ação, e a montagem preserva a sensação de que cada peça conhece seu lugar. Em alguns momentos, a clareza chega perto de explicar demais, como se o filme temesse perder o espectador dentro da própria engrenagem. Ainda assim, essa mão estendida combina com a elegância popular de Hill, interessado menos em esconder a mecânica do que em deixar o público sentir o prazer de vê-la funcionar.
“Golpe de Mestre” continua vivo porque trata esperteza como coisa material. Uma mentira precisa de cenário, figurino, voz, atraso, papel sobre a mesa e pessoa certa no canto certo. Newman e Redford têm carisma suficiente para atravessar o filme sozinhos, mas Hill lhes dá tarefas concretas, e Robert Shaw mantém a ameaça parada na sala. O resultado não depende de pose nem de nostalgia vazia. Depende de um criminoso entrando numa casa de apostas falsa, cercado por homens que trabalham duro para parecer que não estão fazendo nada.

