O que terá a primazia, a loucura sobre a solidão, ou, ao contrário, a solidão, quando pungentemente intensa e à prova do tempo, acaba se metamorfoseando em algo ainda mais nefasto, como a doença mental? A verdade é que a saúde psíquica de uma pessoa está diretamente ligada à quantidade de vínculos que ela é capaz de estabelecer ao longo da vida, malgrado existam aqueles que vivem muito bem no seu próprio mundo, a desfrutar de uma condição particularmente cômoda: têm a capacidade de interagir com quem quer que seja sem abdicar de ter seus muitos momentos de retiro consigo mesmo, e tampouco ceder a uma psicopatologia qualquer, grave ou não. Steven Soderbergh inspira na plateia um certo incômodo frente à realidade, e em “Distúrbio” é esse o objetivo. Ao longo de 98 minutos, cresce a sensação de que ninguém deve confiar em ninguém, ninguém sequer gosta de ninguém, de que por trás de todo sonho existe uma ameaça, restando-nos apenas a ilusão — ou a insânia. Esse destino calamitoso abate-se sobre uma mulher que tenta refazer-se após um trauma, completamente vulnerável ao próximo golpe.
Enganos e autoenganos
Os males da alma foram se tornando uma banalidade no decorrer dos anos, e conforme avançava a marcha da insensatez nossa de cada dia, a medicina tentava dar uma resposta à altura, surgindo em paralelo os inúmeros tratamentos alternativos que, se não resolvem, amenizam o peso da cruz. Sawyer Valentini pensa tomou a melhor decisão ao sair de sua cidade e ir morar em Boston, a 750 quilômetros, mas a sensação de estar sob a mira de um predador não arrefece de jeito algum. Como se quisesse preencher uma lacuna, Sawyer tem o hábito de marcar encontros casuais com homens que conhece em aplicativos de namoro, e depois da crise de pânico que a obriga a fugir de um, ela busca atendimento numa clínica psiquiátrica. Soderbergh vai desdobrando o roteiro de Jonathan Bernstein e James Greer nas cenas claustrofóbicas e enquadramentos irregulares que consegue ao ter optado por filmar com um smartphone. Uma vez dentro da clínica, ela é capturada por um mecanismo pensado para dominar, mas também para dar lucro, dois elementos da narrativa arrematados pelas boas atuações de Claire Foy e Jay Pharoah.

