Para os personagens de “Indecência”, as humanas misérias ressoam como sinos de uma estranha catedral perdida no deserto, reverberando aquele barulho aos confins do mundo na lembrança da danação eterna, fim de que muito poucos conseguem ver-se livres em se tomando ao pé da letra o pessimismo e mesmo o severo niilismo da mensagem central. O romeno Radu Dragomir faz de seu filme uma espécie de caldeirão em que despeja a pletora de velhas mágoas e tantos outros sentimentos malditos que atazanam uma sociedade, fervendo-os e os refervendo até que desse caldo emerja a substância com a qual elabora uma trama marcada por rancores. Para Dragomir, mesmerizar o público, incrementar o suspense e fazê-lo metamorfosear-se num terror psicológico que ultrapassa a tensão e molesta também a disposição física de quem ousa assistir até o final é parte de uma estratégia acertada, capaz de superar as melhores expectativas de quem se flagra enfeitiçado pelo que vai à tela e surpreender aqueles que resistem.
Velhas questões, novos enfoques
O peso das tradições sempre recaiu sobre os ombros dos mais vulneráveis. Costumes que vão passando de uma geração para a outra prestam-se a estabelecer um laço entre o que já passou e o que está por vir, às vezes sem muita atenção aos tormentos silenciosos do hoje. Quando um trauma impõe-se no seio de uma comunidade, exigindo resposta urgente e efetiva, essa herança invisível tecida através dos séculos a fim de moldar comportamentos faz nascer uma questão que clama pela voz da justiça. Em seu primeiro longa, Dragomir põe a colher num assunto que chegou também à Romênia e, a seu modo, quer inspirar alguma reflexão. Mo, a personagem-título no original, e Vera, sua melhor amiga, dão a entender que levam a sério a universidade, até cometerem um deslize e serem pegas colando num exame. Para que possam continuar frequentando as aulas, Ursu, o professor, sugere que os três dirijam-se ao seu apartamento, tarde da noite. Não há grandes mistérios quanto ao que virá, mas “Indecência” acaba num inaudito terror, muito bem levado por Dana Rogoz, Mădălina Craiu e Răzvan Vasilescu.

