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Uma cama de hospital em Nova Orleans recebe Daisy, o diário de Benjamin e a chuva do Katrina enquanto David Fincher conduz Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson e Julia Ormond por uma vida fora de compasso. Benjamin nasce em 1918 com o rosto e as doenças de um homem muito velho, perde a mãe no parto e vai parar na porta de um asilo depois que Thomas Button o abandona ali. Daisy entra ainda menina nesse mesmo espaço e segue envelhecendo na contagem comum do corpo, enquanto Benjamin caminha na direção contrária, sempre chegando ao lado dela com uma idade aparente imprópria para a estação da vida em que os dois se encontram. Caroline lê as páginas ao lado da cama, e a água que se aproxima da cidade mantém cada lembrança presa ao quarto, aos aparelhos e à voz que segue até o fim de cada linha.

O relógio da estação

Uma estação de trem recebe um relógio feito por um relojoeiro cego para andar para trás, erguido como memorial para os filhos mortos na guerra antes que Benjamin surja em cena. Os ponteiros aparecem cedo e voltam depois sempre que ele surge velho demais para uma infância normal, adulto demais para a idade do corpo de Daisy ou jovem demais para o ano em que vive. A leitura no hospital puxa essa peça de volta porque cada página devolve um homem que entra no asilo, no cais, no barco ou no apartamento de Daisy com um corpo desalinhado do tempo de calendário que organiza as pessoas ao redor. A estação fica no começo, mas os ponteiros retornam toda vez que Caroline passa para a página seguinte e Daisy continua imóvel na cama.

O asilo

Queenie responde ao abandono com banho, remédio, mamadeira e vigília, e o lar de idosos vira para Benjamin a primeira escola, feita de corredores, quartos, cadeiras de rodas, parentes que chegam para a despedida e moradores que já perderam força, memória ou fôlego. Daisy entra como neta de uma residente e encontra um menino da sua idade com pele enrugada, mãos frágeis e doenças de octogenário, sentado no meio de tosses, visitas e enfermeiras que atravessam o corredor. A varanda do asilo concentra esse começo quando Benjamin inclina a cadeira de rodas até a beira e observa as crianças correndo na rua sem poder descer com elas, preso a um corpo envelhecido no momento em que a infância deveria empurrá-lo para fora da casa. Taraji P. Henson dá a Queenie o peso desses gestos pequenos, pegando o bebê na porta, atravessando o corredor com ele no colo e devolvendo a cada dia o mesmo banho, o mesmo remédio e a mesma mamadeira.

O “Chelsea”

O convés do “Chelsea” tira Benjamin dos corredores do asilo e o põe entre cabo, óleo, água escura e ordens de Mike Clark, num trabalho em que o corpo ainda precisa servir apesar da aparência desconcertante. Os cartões-postais que seguem para Daisy mantêm Nova Orleans à vista, mas Murmansk abre outro quarto e outra despedida quando Elizabeth Abbott aparece ligada à missão comercial britânica, longe demais do asilo para caber apenas na lembrança da menina que ficou em casa. A guerra alcança o barco, o “Chelsea” cruza um transporte quase afundado e depois enfrenta o ataque de um submarino alemão, e o risco que antes vinha da doença e da morte no asilo passa a vir de tiros, metal e água entrando no casco. Thomas reaparece com a confissão do abandono e transfere a Benjamin a fábrica de botões e a propriedade da família, deixando papel assinado, empresa e dinheiro onde antes havia apenas uma varanda e um pano embrulhando um recém-nascido.

Paris

Paris interrompe Daisy com um acidente de carro que esmaga a perna e encerra a carreira erguida em treino, ensaio e disciplina, num golpe que o corpo registra antes de qualquer explicação. Quando Nova Orleans finalmente reúne os dois numa idade aparente parecida, o apartamento recebe junto os cartões guardados, a herança do pai, as lembranças do “Chelsea” e uma dançarina que já não pode voltar ao palco do mesmo modo. Brad Pitt evita transformar Benjamin em truque permanente e segura no rosto, no andar e na postura a estranheza de quem entra numa sala trazendo uma idade que nunca coincide com a esperada. Cate Blanchett responde a esse descompasso com o corpo ferido, com a memória do balé interrompido e com os objetos que se acumulam na casa dos dois.

De volta ao hospital de 2005, Julia Ormond lê o diário ao lado da cama e devolve Benjamin à cidade justamente quando o Katrina sobe do lado de fora. A voz de Caroline não explica a condição de Benjamin nem a comenta de cima, e sim recoloca uma porta de asilo, uma cadeira na varanda, um convés em guerra, um quarto em Murmansk, uma perna esmagada em Paris e uma escritura entregue pelo pai no centro da lembrança. Esses objetos impedem que aquela vida fique solta no ar, porque cada passagem chega presa a trabalho, ferida, papel, dinheiro, remédio ou água batendo nas janelas. Cate Blanchett escuta, Caroline vira a página, os aparelhos continuam ligados e o diário permanece aberto sobre a mesa.


Filme: O Curioso Caso de Benjamin Button
Diretor: David Fincher
Ano: 2008
Gênero: Drama/Épico/Fantasia/Romance
Avaliação: 4.5/5 1 1
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