Elvis morreu. Elvis morreu de velho. A decadência física teve início com a queda gradual dos pelos. Depois, a perda dos dentes, um a um, começando — que ironia! — pelos caninos brancos. Elvis era o cão da família. Obviamente, como qualquer canídeo, por mais inteligente que fosse, não lia os clássicos da literatura mundial, mas, lia as pessoas e — pasmem! — as decifrava. Farejava de longe o fragrante cio da angústia e consolava gente com lambidas. O agravamento da catarata culminou na cegueira absoluta aos 13 anos. Passou a enxergar e a distinguir os seres vivos pelo nariz. Por fim, a displasia do quadril — morbidade recorrente entre os Golden Retriever — degringolou para a artrose, que produzia dor o suficiente para que ele se furtasse a correr atrás dos objetos reiteradas vezes atirados no gramado. “Pega, amigão!” Elvis já não pegava coisa alguma, mas, agradecia o incentivo pousando o queixo no assoalho e abanando do rabo suavemente.
Mesmo sabendo que a hora de Elvis apagar se aproximava, a família sentiu o baque pela sua morte, principalmente, “as crianças”, ou melhor, os adolescentes, melhores amigos que ele teve na vida. Dizia-se que Elvis era o irmão caçula da prole, pois, cresceu com o casal de filhos. Estorvado, esbarrava neles enquanto ensaiavam os primeiros passos, derrubando-os. Só faltou ser alfabetizado também, mas, não tinha interesse em aprender o que os seres humanos tinham a ensinar, além das divertidas lides domésticas.
Elvis possuía ótimo temperamento. Era manso, pacífico, carente e bonachão. Para o alívio da sua tutora, jamais cavoucou os canteiros para enterrar pertences. Cavoucou, por outro lado, o coração daquela gente para esconder o amor lá dentro. Elvis era desse mundo. Não comia sofás. Não comia chinelos. Não comia o controle remoto da TV. Mais do que muitos marmanjos, aliviava a bexiga nos lugares permitidos. Nunca rosnou para um ser humano, mesmo que fosse merecido. Aliás, a única vez que demonstrou agressividade foi contra uma mosca. Uma insistente mosca metálica. E quem não as odiava? O próprio Deus, investido com o verniz da bondade, devia odiar moscas, mosquitos, fascistas e outros bichos sem um papel reconhecidamente útil na escala animal.
Por causa da pelagem dourada, Elvis mostrava-se mais majestoso e mais elegante nos dias de sol arregalado. Com o passar dos anos, mostrou-se um verdadeiro regalo para a família. Apesar de grandalhão, tinha medo de quase tudo: trovões, traques, foguetes, cachorros menores do que ele e a própria sombra. Ladrava quase nunca, a não ser quando o deixavam sozinho na casa. Ele foi o animal mais dócil e carinhoso com o qual a família convivera. Distribuía afeto, mesmo durante a decrépita fase da senectude, quando já se mostrava fisicamente combalido, prestes a conhecer Baleia, a cadela descrita por Graciliano Ramos em “Vidas Secas”.
Não foi bem tristeza o que a família sentiu quando o coração do Elvis parou de bater. Foi um sentimento de melancolia rascante que beirava o alívio pelo fim do seu martírio. Um misto de abatimento e de gratidão pelos incontáveis momentos de alegria compartilhada. Num mundo permeado de sofrimento, de injustiça e de iniquidade, não dava para olvidar os preciosos momentos de felicidade. Como se diz usualmente, os entes da nossa estima jamais morrem, desde que continuemos a nos lembrar deles. Rememorando fatos. Ressuscitando risos. Eternizando o amor que se traveste de saudade. Ainda que tal reação pareça tão ingênua quanto o comovido réquiem para um animal doméstico que tem nome de cantor de rock.
*Dedicado a Elvis e aos seus tutores

