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A abertura da temporada de 2026 da OSESP não foi apenas um evento do calendário cultural, mas um reencontro com o sublime. Ao testemunhar a execução da “9ª Sinfonia” de Beethoven, fui arrebatado por uma onda de emoção que transcende o auditivo para se tornar uma experiência sensorial plena, desencadeando uma catarse que ultrapassou o palco. A “Nona” possui o poder raro de nos açambarcar e renovar o espírito, e pude sentir o prazer dessa audição refletido no próprio rubor da face. Saio da Sala São Paulo com o espírito renovado e a certeza de um ano brilhante para a música.

A história da “Sinfonia n.º 9 em Ré Menor, Op. 125”, de Ludwig van Beethoven, é uma das mais dramáticas e triunfantes da história da arte. Ela não foi apenas uma evolução musical; foi uma ruptura que mudou o conceito do que era uma sinfonia e daquilo em que ela poderia se tornar.

Beethoven, desde priscas eras, tinha um fascínio incomum pelo poema “An die Freude” (“Ode à Alegria”), escrito por Friedrich Schiller em 1785. Seu sonho era musicá-lo e, por mais de trinta anos, seu intento não se consumou.

Com 28 anos de idade, Beethoven começou a apresentar distúrbios de audição, inicialmente com um quadro de tinnitus, o zumbido intermitente, que, com o correr do tempo, se agravou de tal maneira que lhe trouxe a surdez permanente.

Inicialmente, enclausurou-se, envergonhado com essa situação e receoso de ver destruída sua reputação de virtuose ao piano. Eis que sua audição interna supera sua audição física e, como consequência, surge a fase heroica, na qual ele deixa de tentar agradar o público. Passou a compor de maneira densa, rítmica e grandiosa.

Durante esse período, ele se comunicava lendo o que os amigos escreviam em um caderno, respondendo-lhes verbalmente ou através da escrita.

Há relatos de que ele cortou as pernas de seu piano para que o instrumento tocasse o chão, permitindo que ele sentisse as vibrações das notas através do assoalho. Ele também usava uma baqueta de madeira entre os dentes, encostada na caixa de ressonância do piano, para sentir o som através da condução óssea. E foi dessa maneira que ele escreveu a “Nona”, não sem antes retornar a compor usando seu espectro sonoro, de forma puramente intelectual e abstrata.

Então, em 1820, construiu aquela que é a sinfonia mais popular, mais grandiosa e determinante, quebrando paradigmas musicais, como o de inserir, em uma obra sinfônica, um coro baseado em um poema.

Em 7 de maio de 1824, aconteceu a estreia da “Nona” de Beethoven, no Theater am Kärntnertor, em Viena. Ele estava completamente surdo e, mesmo assim, insistiu em “reger” do palco, embora houvesse um regente oficial, Michael Umlauf, orientando a orquestra. Beethoven estava vários compassos atrás da música em sua mente, gesticulando freneticamente para sons que não conseguia ouvir.

Beethoven não havia se dado conta do final da execução de sua obra e permanecia de costas para o público, ainda compenetrado na partitura e imerso na apresentação, de tal maneira que o tempo não lhe importava. Contudo, num gesto solidário, a contralto Caroline Unger delicadamente se aproximou dele, deu-lhe o braço e o virou para a plateia. Qual não foi sua alegria quando viu todo o auditório em pé, agitando lenços e aplaudindo com um entusiasmo raras vezes visto antes.

Essa apresentação pródiga, que mostrou ao mundo a introdução do coro e de solistas no quarto movimento, foi um choque. Até então, a sinfonia era um gênero puramente instrumental. Beethoven decidiu que os instrumentos não eram mais suficientes para expressar sua mensagem de fraternidade universal; ele precisava da palavra humana.

É a maior sinfonia já escrita e tem a duração mínima de 70 minutos e, não por acaso, esse é o mesmo tempo de duração de um CD, cuja definição cronológica se deu em virtude do tempo da “Nona”, para que ela pudesse caber em um único disco.

Ela se tornou o hino oficial da União Europeia e é usada globalmente como símbolo de liberdade e união, como na queda do Muro de Berlim, em 1989.

Pois bem, em 6 de março de 2026, tive o imensurável prazer de assistir à OSESP na Sala São Paulo, sob a magistral batuta de Thierry Fischer, acompanhada pelo irrepreensível Coro da OSESP, bem como pelo tenor Issachah Savage, pelo baixo Sávio Sperandio, pela mezzo-soprano Ana Lucia Benedetti e pela soprano Camila Provenzale, executando com total maestria a “Sinfonia n.º 9” de Beethoven, fato que marcou minha vida indelevelmente.

Durante a apresentação da “Nona”, senti que não se tratava de uma execução protocolar, mas de uma experiência que transcendia o usual; a regência caminhou para o dramatismo final ao qual a obra compele. A orquestra permitiu que o maestro não se apressasse, deixando que as dissonâncias e os silêncios de Beethoven transcorressem naturalmente, criando uma espera quase insuportável antes da apoteose.

Os músicos incorporaram-se à obra: do vigor das cordas à precisão cirúrgica dos metais, em uma rara conexão em que o instrumentista se tornou canal do gênio de Beethoven. A OSESP manteve a lucidez rítmica mesmo no auge da obra, garantindo que cada nota do “Hino à Alegria” impactasse a todos. O rigor técnico de Fischer esmaeceu diante de sua entrega apaixonada, visível na cumplicidade simbiótica entre maestro e orquestra.

A entrada do coro e dos solistas foi arrebatadora. Pude sentir o coração traduzindo sentimentos que pareciam vir de fora, especialmente pela voz da soprano, que, com clareza cristalina, contagiou músicos e plateia. O que se viu na Sala São Paulo não foi apenas a execução de uma partitura, mas um rito de entrega absoluta.

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