Alan Rickman dirige “Um Pouco de Caos” como um romance de época instalado no centro de Versalhes, com Kate Winslet, Matthias Schoenaerts, o próprio Rickman e Stanley Tucci à frente do elenco. Sabine de Barra surge como viúva e profissional independente, figura deslocada num ofício dominado por homens e por regras de corte. Sua entrada já diz muito. Antes da entrevista com André Le Nôtre, ela move um vaso de um arranjo geométrico num corredor que leva ao trabalho do rei, e esse gesto breve já anuncia o atrito entre uma imaginação menos obediente e um mundo em que desenho, classe e etiqueta seguem a mesma linha reta.
Le Nôtre primeiro a rejeita e depois a chama para colaborar na expansão dos jardins reais, e essa mudança dá o tom da relação entre os dois. Sabine não recebe uma tarefa discreta, mas um espaço de baile ao ar livre com água e aparato cenográfico, assentado num terreno difícil dentro de Versalhes. Terra, pedra, água. O interesse do filme cresce quando acompanha essa parte prática, com a paisagista tentando se impor num canteiro vigiado por gente que pesa talento e sobrenome na mesma balança, como se até a escavação do solo precisasse obedecer ao cerimonial.
Trabalho e corte
A aproximação entre Sabine e Le Nôtre nasce desse convívio de obra, da diferença entre o traço disciplinado dele e a sensibilidade menos rígida dela, e avança apesar do casamento dele e da distância social entre os dois. Nada ali desaparece. Helen McCrory, rondando essa relação, ajuda a lembrar que Versalhes não é só sede do poder, mas também lugar de mexerico, ciúme e vigilância, onde qualquer pausa entre tarefas pode chegar depressa a outros ouvidos. Por isso, as cenas entre Winslet e Schoenaerts têm mais força quando ficam presas às inspeções de terreno, aos encontros no canteiro e às brechas abertas pelo trabalho do que quando o melodrama pesa demais.
O passado de Sabine entra nessa engrenagem por meio de flashbacks ligados à perda do marido e da filha, trauma que interrompe o romance e também o avanço da construção. O peso existe desde o início. A personagem já aparece como viúva, e o filme acerta ao não tratar isso como simples adorno biográfico, mas essas lembranças reaparecem com insistência, deslocando o centro de uma história que havia encontrado na corte, no jardim e no serviço seus pontos mais firmes. Quando isso acontece, a tensão entre o que Sabine constrói em Versalhes e o que carrega fora dali perde nitidez, porque o drama íntimo passa a disputar espaço com a parte mais concreta do enredo.
O rei em cena
Rickman, como ator, parece mais seguro do que Rickman diretor quando Luís XIV cruza o caminho da protagonista nos jardins e nos salões do poder. Nessas passagens, Sabine deixa de responder apenas a Le Nôtre e passa a medir sua tarefa diante do rei, de sua amante e de uma corte acostumada a vigiar cada gesto, cada visita, cada pequena quebra de protocolo. Stanley Tucci quebra o cerimonial. Como Philippe d’Orléans, ele aparece com ironia suficiente para tirar o palácio da moldura e devolver àqueles passeios entre sebes, fontes e corredores uma vida menos decorativa, mais próxima do jogo de vaidade e desejo que sustenta aquele ambiente.
“Um Pouco de Caos” acerta sobretudo quando não esquece que Versalhes foi erguida por mãos, caprichos e relações desiguais, e não apenas por desenhos perfeitos vistos de longe. Sabine enfrenta sabotagem, desconfiança por causa de sua origem e o risco constante de circular entre pessoas que decidem quem pode ou não ocupar aquele espaço, enquanto tenta concluir um jardim que precisa juntar cerimônia, água e imaginação. É aí que o filme se sustenta. Sem se encantar demais com a própria reconstituição, encontra sua melhor medida ao manter os pés no canteiro, onde barro, pedra molhada e trabalho braçal pesam mais do que o verniz da corte.

