Há muito tempo que a humanidade sonha com o fim do mundo. Como se quisesse ver-se livre de seus compromissos e atribuições, o homem dedica-se com afinco ao propósito de destruir tudo quanto pode e o mais breve possível, sem ter a menor pretensão de refazer coisa alguma. Filmes a exemplo de “Ataque Brutal” deixam bastante claro nosso desassombro com o tal apocalipse, como se essa fosse mesmo a sorte com que temos de nos conformar, esquecendo de uma vez por todas qualquer promessa de redenção. Levanta-se um sadismo deleitoso na forma como Tommy Wirkola expõe-nos ao nosso dom para o autoextermínio, talento que ele vem refinando desde o inspirado “Onde Está Segunda?” (2017), acerca de sete irmãs gêmeas que escapam a um cataclismo. Agora, são dois desastres em um.
Tubarões à porta
Annieville, na Carolina do Sul, padece com as intempéries da natureza desde sempre, mas depois do aquecimento global, as altas temperaturas do oceano trazem ainda mais vendavais e furacões, como Henry, colocado na categoria 5, a última da escala Saffir-Simpson, com ventos de mais de 252 quilômetros por hora. Annieville é uma cidade fictícia, mas é evidente o apuro de Wirkola quanto a narrar com riqueza de detalhes as mudanças climáticas e de que maneira esses fenômenos têm nos afetado. O diretor-roteirista começa a dotar seu filme da aura distópica que lhe cai tão bem quando inclui além do dilúvio uma infestação de tubarões, que chegam às ruas de Annieville atraídos pelo sangue que vaza do caminhão-pipa de um frigorífico (!). O segredo para se aproveitar “Ataque Brutal” é sem dúvida ignorar a lógica e mirar em Whitney Peak e Djimon Hounsou.

