Não é exagero dizer que o Oriente abriga muitos dos rituais com que o homem se locupleta, e vêm da Ásia algumas das possíveis fórmulas para que se consiga, quem sabe, chegar ao ponto alto do existir, com mais serenidade, mais equilíbrio, pensando-se menos vulnerável aos tantos golpes do destino, até que se constata que para cada boa prática espiritual levantam-se mil demônios, prontos para nos engolir sem piedade. Shieh Meng-Ju recorre a elementos clássicos do terror a fim de levar à audiência a história de uma criatura de outro mundo que invade este plano, e à medida que o faz, transmite suas impressões sobre as crenças de Taiwan. “O Boneco de Barro” explora esse veio, apresentando cena a cena imagens que provocam susto e reflexão.
Interferências ocultas
Tudo parece correr como ouro sobre azul na vida de Hsu-Chuan, um designer de jogos de realidade virtual, cuja esposa, Mu-Hua, espera seu primeiro filho. Antes que se conheçam os momentos de harmonia do casal, Shieh e os corroteiristas Huang Yen-Chiao e Chiang Yu-Chu lançam mão de um flashback a fim de explicar como começa a maldição que serve de mote central ao filme, e a abertura é plena de sequências um tanto oníricas de homens perambulando por um ambiente escuro e claustrofóbico no qual se destaca o tal ícone de barro do título. A fotografia dá ênfase à contraposição do denso breu do cenário e o sangue que verte de um corpo, ação que desdobra-se em Hsu-Chuan e Mu-Hua fazendo planos para quando a criança nascer. Dedicado, o pai até atende ao clamor de um brinquedo que imita o choro dos recém-nascidos. Pena que não adiante.
Cenas (diabólicas) de um casamento
Pouco depois desse prólogo rosicler, o diretor entra nas paranoias de Hsu-Chuan e Mu-Hua, ocasião para chegar à entidade que habita o boneco, agora na casa deles. Percebe-se a vontade de Shieh de fomentar a discussão de problemas conjugais sob um ponto de vista novo, aparentemente vesano, mas que vai revelando sua lógica. Costumes arcaicos transformam-se na fortaleza na qual refugiam-se os amores despedaçados, o que eles só entendem quando já é tarde demais. Cada um a seu tempo, Yo Yang e Cecilia Choi insistem nessa ideia, e fazem de “O Boneco de Barro” um terror de semântica inusitada e complexa.

