Contíguas ao som e a fúria de que se faz a vida, vêm junto aspirações as mais diversas, as mais impensadas, muitas envoltas numa bruma de sonho, de delírio, quase todas acalentadas pelo desejo de adequação que norteia a vida do homem desde sempre. Precisamente por essa necessidade de se ajustar ao meio é que o gênero humano se lança a empreitadas não raro plenas de boa medida de loucura, apostando numa incertíssima ascendência sobre a realidade, por mais que saiba que é a austera realidade quem domina o homem e o forja ao sabor de circunstâncias nada menos que implacáveis. Sonhadores sempre povoaram o mundo, e em “O Preço de um Corpo” László Csuja e Anna Nemes fazem um recorte muito original sobre até onde alguém vai pelo que crê. Ao longo de 92 minutos, Edina, a fisiculturista a respeito da qual desdobra-se o enredo, torna-se uma figura simbólica, o retrato sombrio e poético de um ideal autodestrutivo.
Músculos e lágrimas
O desejo pode ser um impulso vital, uma força criadora que nos projeta para o mundo. Como nada é perfeito, muitas vezes os anseios degringolam em obsessão, sentimento dicotômico que termina chamando o absurdo e a tragédia. Metodicamente, os diretores-roteiristas esmiúçam o universo de Edina, mostrando uma mulher forte e vulnerável a um só tempo, absorta em seus exercícios, alheada de tudo. Ela dispõe da ajuda de Ádám, um marido que é, no fundo, insensível às suas reais carências e comporta-se como um ergastulário, levando a gladiadora à arena para o show de horrores que diverte sadistas. A história vai ganhando um incômodo senso realista graças à performance visceral de Eszter Csonka, expoente do fisiculturismo na Hungria, e hábil em iluminar os meandros da alma sofredora de sua anti-heroína, e quando ela decide aceitar propostas para exibir-se em trajes sumários para além dos torneios, espectadores leigos temos uma ideia de quão ultrajante pode ser o caminho para o sucesso. Ultrajante e quiçá letal.

