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Em “Zona de Perigo”, Rowdy Herrington coloca Bruce Willis, Sarah Jessica Parker, Dennis Farina e John Mahoney numa Pittsburgh de água escura, pontes e corpos retirados do rio. Willis é Tom Hardy, policial afastado da divisão de homicídios depois de depor contra o próprio primo num caso de brutalidade, gesto que o rompe com a família e com parte da corporação. O caso não o abandona. Quando o “Polish Hill Strangler” volta a assombrar a cidade, Hardy permanece preso à hipótese mais incômoda, a de que o assassino pode usar distintivo.

Pittsburgh, patrulha e desgaste

Herrington abre o filme sem demora. A perseguição inicial pelas ruas de Pittsburgh, ligada ao serial killer e à morte do pai de Hardy, lança o personagem num desgaste que não arrefece. Em seguida vem o rebaixamento para a patrulha fluvial, humilhação pública para um investigador que insistiu em acusar alguém de dentro. Água, sirene, casco, ponte. Esse arranque dá ao longa um peso físico imediato, com a cidade molhada entrando em cena menos como paisagem do que como parte da pressão.

Bruce Willis acerta ao não fazer de Hardy um herói sem marcas, desses que atravessam qualquer desastre intactos e seguem distribuindo frases duras. O cansaço está no rosto. O personagem continua revendo o caso antigo, tentando recompor o padrão dos corpos enquanto o tio Nick Detillo usa a autoridade para contê-lo e o peso do primo condenado reaparece a cada encontro. Quando surge a cena da ponte em que Hardy tenta impedir o parente de saltar, a crise doméstica deixa de ser simples dado de prontuário e ganha corpo como desespero em espaço aberto, com água embaixo e a família em frangalhos lá em cima.

Sarah Jessica Parker entra como Jo Christman e muda o compasso das cenas em que Hardy trabalha na “River Rescue”. Ela não está ali para enfeitar o quadro. Sua presença obriga Hardy a dividir barcos, buscas, resgates e silêncios com alguém que mede cada palavra e cada gesto, desconfiando do parceiro ao mesmo tempo que depende dele. Quando as novas vítimas aparecem ligadas a Hardy, Jo passa a ocupar um lugar decisivo, porque o caso deixa de rondar apenas a memória do policial e começa a apertar a rotina dos dois.

Corpos no rio e cerco

O melhor de “Zona de Perigo” aparece no atrito entre suspense policial e ação de rua, sem grande preocupação em parecer mais refinado do que é. Tudo aqui tem peso e matéria. Os corpos de mulheres surgindo no rio, a volta do pânico a Pittsburgh e a suspeita crescente sobre Hardy empurram a história adiante com brutalidade, às vezes até em excesso, mas quase sempre com urgência. O que fica na memória não é tanto o quebra-cabeça do assassino, e sim o uso insistente das margens, das pontes e das embarcações, como se a cidade inteira puxasse o protagonista de volta para a mesma água barrenta.

Também pesa o fato de Hardy não ter onde descansar, já que perdeu apoio na polícia, virou incômodo para a própria família e ainda precisa lidar com vítimas que o aproximam do caso de modo sufocante. O cerco aperta. O alcoolismo, o trauma pela morte do pai e a desconfiança dos colegas aparecem colados ao trabalho, ao uniforme e ao rio, sem sobra de explicação. Mesmo quando “Zona de Perigo” pesa a mão, ainda se sustenta nessa combinação de humilhação, perseguição e espaço urbano, até fechar na frieza de um barco riscando a água escura sob a ponte.


Filme: Zona de Perigo
Diretor: Rowdy Herrington
Ano: 1993
Gênero: Ação/Crime/Mistério/Suspense
Avaliação: 4.5/5 1 1
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