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Thriller sensual com Diane Kruger vai mexer com suas emoções (e seus hormônios), no Prime Video Divulgação / BondIt Media Capital

Thriller sensual com Diane Kruger vai mexer com suas emoções (e seus hormônios), no Prime Video

Em “Um Crime Passional”, Neil LaBute coloca um ex-presidiário diante da tentação que pode desmontar sua segunda chance, e constrói um thriller íntimo onde o maior perigo não está na ação, mas nas conversas que ultrapassam limites. Connor Bates, interpretado por Ray Nicholson, saiu da prisão depois de cumprir pena por agressão e tenta reorganizar a vida com disciplina quase obsessiva: trabalha em uma biblioteca, corre na orla, nada todos os dias e evita qualquer situação que possa levá-lo de volta a um tribunal. Ele sabe que sua ficha não desapareceu e que a cidade ainda o enxerga como risco. Essa rotina controlada é sua forma de recuperar dignidade e manter a liberdade.

Tudo muda quando ele conhece Marilyn Chambers, vivida por Diane Kruger, esposa de um empresário rico e influente. Ela surge elegante, segura, acostumada a circular em ambientes de poder, mas claramente entediada dentro do próprio casamento. O envolvimento entre os dois cresce rápido, alimentado por atração física e por uma espécie de cumplicidade imprudente. Connor se sente visto por alguém que não o reduz ao passado; Marilyn encontra nele uma fuga da vida previsível que leva. O problema é que essa relação não acontece no vazio. Existe um marido, existe dinheiro, existe reputação, e tudo isso pesa.

Neil LaBute conduz a história sem grandes explosões, apostando em diálogos que vão ficando cada vez mais perigosos. Em determinado momento, o casal começa a falar sobre o marido de Marilyn de uma forma que ultrapassa o mero desabafo. O que antes era fantasia vira sugestão, e a sugestão passa a soar como possibilidade concreta. É aí que o filme ganha tensão de verdade. Connor entende que não está apenas traindo alguém poderoso; ele pode estar entrando em território criminal novamente. E, para quem já conhece o sistema por dentro, essa não é uma ameaça abstrata.

Ray Nicholson constrói Connor como um homem dividido entre o desejo e o instinto de sobrevivência. Ele quer acreditar que merece uma nova história, mas cada passo ao lado de Marilyn coloca essa reconstrução em risco. Diane Kruger, por sua vez, entrega uma personagem ambígua, que alterna fragilidade e frieza com naturalidade desconcertante. Nunca fica totalmente claro até onde Marilyn está disposta a ir, e essa incerteza sustenta boa parte da tensão. Gia Crovatin aparece como presença que amplia a sensação de que ninguém está realmente isolado nessa trama, lembrando que sempre há alguém observando, avaliando, julgando.

“Um Crime Passional” transforma conversas em ameaça real. Não é um suspense de perseguições ou reviravoltas espalhafatosas, mas de decisões sussurradas que podem ter consequências irreversíveis. LaBute filma de perto, valoriza olhares e silêncios, e deixa o espectador desconfortável ao perceber como uma ideia dita quase em tom de brincadeira pode ganhar peso. O filme sugere que crimes começam muito antes do ato, nas pequenas concessões que fazemos a nós mesmos.

Sem tentar dar grandes explicações ou lições de moralismos, a história acompanha Connor enquanto ele mede o que está disposto a perder: o emprego na biblioteca, a liberdade recém-recuperada, a chance de não ser definido para sempre por um erro passado. A relação com Marilyn oferece intensidade e risco na mesma medida, e essa combinação é o motor do filme. “Um Crime Passional” deixa claro que, quando desejo e frustração encontram oportunidade, o preço costuma ser alto demais para quem já está em dívida com o próprio passado.

Filme: Um Crime Passional
Diretor: Neil LaBute
Ano: 2022
Gênero: Crime/Drama/Road movie/Suspense
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★