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Quando o cinema vira aula de história: o thriller de guerra que acaba de chegar à Netflix Divulgação / UFO Films

Quando o cinema vira aula de história: o thriller de guerra que acaba de chegar à Netflix

Há momentos em que continuar respirando já é um ato político, e falar a verdade pode custar a própria vida. “O Mundo Vai Tremer” acompanha justamente esse limite extremo, em que sobreviver significa conviver diariamente com o horror e, ainda assim, encontrar forças para reagir. Dirigido por Lior Geller e estrelado por Oliver Jackson-Cohen, Jeremy Neumark Jones e Charlie MacGechan, o filme mergulha na história real de Solomon Wiener e Michael Podchlebnik, judeus poloneses forçados a trabalhar no campo de extermínio de Chełmno durante a ocupação nazista.

Solomon, vivido por Jackson-Cohen, e Michael, interpretado por Neumark Jones, são obrigados a cavar valas comuns na floresta antes mesmo de entender completamente o que está acontecendo ao redor. Logo percebem que fazem parte da engrenagem da morte: recolhem roupas e pertences de judeus recém-chegados, que são levados a um caminhão de gás sob falsas promessas de trabalho em Leipzig. A rotina é brutal, controlada pelo comandante Herbert Lange e pelo Polizeimeister Lenz, figuras que exercem poder com frieza e humilhação pública. Cada ordem é acompanhada de ameaça concreta. Cada erro pode ser o último.

O roteiro não suaviza o impacto dessas tarefas, mas também não transforma os personagens em símbolos abstratos. Michael entra em colapso ao reconhecer a esposa, Klara, entre as vítimas. Solomon tenta manter a lucidez onde quase ninguém consegue. E Wolf Kaminski, vivido por Charlie MacGechan, surge como aliado na ideia que começa a tomar forma nos alojamentos: fugir e contar ao mundo o que acontece ali. Não se trata apenas de escapar. Trata-se de registrar nomes, cidades, provas. Um lápis escondido vira instrumento de resistência. Escrever passa a ser tão urgente quanto respirar.

A direção de Geller evita discursos grandiosos e aposta no detalhe concreto: a vala aberta na terra, o caminhão retornando, a cal espalhada sobre os corpos, os exercícios punitivos que misturam sadismo e espetáculo de poder. Há cenas de humilhação pública que deixam claro como o controle funciona pela exposição e pelo medo. Ainda assim, o filme nunca transforma o sofrimento em espetáculo gratuito. Ele mantém o foco nas decisões práticas que esses homens precisam tomar para continuar vivos por mais um dia.

Quando a chance de fuga finalmente aparece, ela não surge como momento heroico, mas como cálculo arriscado. Distrações, cortes improvisados, corrida pela floresta, um rio atravessado sob tensão. Michael carrega uma ferida na perna, o que torna cada passo mais difícil. Um uniforme ferroviário emprestado, uma motocicleta roubada, um encontro inesperado com soldados, tudo vira obstáculo ou oportunidade, dependendo da rapidez com que eles reagem. O filme trabalha essa sequência com nervosismo contido, sem exagerar na trilha ou na encenação, o que torna tudo ainda mais angustiante.

Ao chegarem ao gueto de Grabów, Solomon e Michael sabem que a parte mais difícil talvez ainda esteja por vir: convencer alguém a acreditar. O encontro com o rabino Schulman não é tratado como redenção automática. Há hesitação, choque, incredulidade. E, ainda assim, há escuta. O testemunho começa a ser escrito, transformando memória em documento. O que antes era segredo cercado por arame farpado passa a ter chance de circular.

“O Mundo Vai Tremer” é um drama histórico duro, mas necessário. Não traz consolo fácil nem heroísmo exagerado. O que impressiona é o foco na ação concreta: cavar, carregar, anotar, correr, atravessar, contar. Oliver Jackson-Cohen constrói um Solomon contido, quase silencioso, que parece sempre calcular o próximo movimento. Jeremy Neumark Jones dá a Michael uma vulnerabilidade que nunca soa frágil demais, apenas humana demais. E Charlie MacGechan, como Wolf, deixa uma marca forte mesmo com tempo limitado em cena.

O título sugere um impacto global, mas o filme entende que o mundo só treme quando alguém decide falar. Aqui, a denúncia nasce de gestos pequenos e perigosos. E essa escolha de transformar o testemunho em ação concreta é o que torna a experiência tão poderosa, não pela grandiosidade, mas pela coragem prática de quem se recusa a deixar que o silêncio vença.

Filme: O Mundo Vai Tremer
Diretor: Lior Geller
Ano: 2025
Gênero: Biografia/Drama/Guerra/História
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.