O despertáculo de Pio Vargas

Pa­ra co­me­çar com uma fra­se dos sa­u­do­sos e dos meio ca­du­cos, eu me lem­bro co­mo se fos­se on­tem: Era ju­lho de 1981 quan­do me mu­dei de vol­ta pa­ra Ipo­rá e fui re­si­dir à Ave­ni­da Mi­nas Ge­ra­is. A mes­ma em que mo­ra­va um jo­vem po­e­ta cha­ma­do Pio Var­gas. Já ou­vi­ra fa­lar de­le, ti­nha o vis­to al­gu­mas ve­zes, mas a gen­te nun­ca se fa­la­ra. Não que hou­ves­se mal­que­ren­ça en­tre nós. O que fal­ta­va era o es­ta­be­le­ci­men­to da ami­za­de. Cer­ta ma­nhã, quan­do ele pas­sa­va à por­ta de mi­nha ca­sa, co­xe­an­do vi­si­vel­men­te (se­que­la dos ex­ces­sos da pe­da­go­gia ca­sei­ra), an­tes que eu to­mas­se a ini­ci­a­ti­va de in­ter­cep­tá-lo, ele me abor­dou. E fo­mos lo­go fa­lan­do de li­vros, lei­tu­ras, po­e­si­as. Em meio tem­po, éra­mos ve­lhos ami­gos.

Há 22 anos morria Pio Vargas

Pio Vargas seria o maior poeta de seu tempo. Mas morreu antes dele. A carreira meteórica do autor de “Anatomia do Gesto” e “Os Novelos do Acaso” foi interrompida tragicamente, aos 26 anos, por uma overdose de cocaína, na tarde de 8 de março de 1991. Pio Vargas foi apontado por Paulo Leminski como um dos mais criativos poetas de sua geração: “Pio Vargas tem um ‘eu’ coletivo tão forte que chego a vê-lo muitos. De sua poesia consigo extrair a certeza do que digo, insistente: há uma geração recente que usa e abusa da modernidade, fazendo dela o principal elemento a interferir na criação. Este Pio Vargas me trouxe uma poesia fascinante que não se atrela a falsos modelos de invenção, mas flutua, inventiva, com os mais amplos e possíveis signos do fazer poético”.