Crônica

A má notícia é que há trombadinhas em Paris

A má notícia é que há trombadinhas em Paris

Má notícia para mim, que nunca tinha pisado na Europa. Não vou ficar me gabando por, finalmente, ter conhecido Paris. Sou fraco em vaidades. E tenho plena consciência de que isso, viajar para fora do país, é privilégio para poucos brasileiros, ainda mais num cenário econômico e cambial extremamente desfavorável. Agora, no momento em que escrevo essa crônica, são necessários 6,5 reais para se comprar 1 euro. Quer dizer, só rico, doido ou abnegado para enfrentar uma viagem até a França, num contexto tão inóspito.

Salmo de um pagão, de número 69 — dr. Alonso Monteiro da Silva

Salmo de um pagão, de número 69 — dr. Alonso Monteiro da Silva

Um médico boêmio, um jardineiro tardio, um humanista convicto. Alonso Monteiro da Silva viveu como poucos ousam: entre a leveza das madrugadas e a gravidade da Medicina, sem jamais perder a integridade. Descobriu lesões que salvaram vidas, fundou instituições, acolheu pacientes com afeto e colegas com riso. Preferia estar presente a ser lembrado — e, mesmo assim, é inesquecível. Viveu 69 anos, mas carregava séculos nos olhos. Esta é uma homenagem a quem transformou a existência em arte imperfeita e inteira.

A certeza da incerteza

A certeza da incerteza

Muito se fala sobre os dilemas da adolescência, mas pouco se discute o que acontece quando um adolescente simbólico ocupa o cargo mais poderoso do planeta. Com atitudes impulsivas, vaidade exagerada e um desprezo quase divertido por consequências, Trump encarna o arquétipo do jovem mimado com poder demais nas mãos. Seus decretos performáticos, suas falas narcisistas e sua relação com o espelho sugerem mais um garoto entediado do que um estadista. Em vez de governar, ele joga — com o ego, com o país, com o mundo. A economia reage com espanto, os analistas se confundem, e a única certeza parece ser a incerteza.

Tempo perdido é tempo gasto com gente ruim

Tempo perdido é tempo gasto com gente ruim

Tempo bom, sujeito a pancadas de chuva na minha horta. Em matéria de lama, cada gota que finca a poeira do chão me conclama, me importa. Já faz tempo que estou voltando ao pó, seja dando a cara a tapa, seja chorando atrás da porta. Sobram lágrimas, no entanto, há uma escandalosa escassez de água nas plagas do planeta. A falta de empatia tem provocado a desertificação dos corações humanos. De tal sorte que sinto uma inconteste vontade de chorar.

Orçamento secreto

Orçamento secreto

Na casa deles, o arroz e o feijão viraram artigo de luxo. Para comprar, só com emenda aprovada. O orçamento doméstico acabou — agora tudo funciona como no Congresso. Playstation, maquiagem e Coca-Cola já foram liberados com voto unânime dos filhos. A mãe, sem cartão e sem comida, ficou com o discurso. O pai se elegeu presidente da Comissão das Emendas numa sessão extraordinária de domingo. Transparência? Só se for no rótulo da Coca-Cola. Bem-vindo ao Orçamento Secreto em versão família.