No dia 26 de agosto de 1966, o público de Porto Alegre assistiu a três peças que haviam esperado cem anos para chegar ao palco. Não eram traduções de um dramaturgo estrangeiro, nem textos de um autor que tivesse acabado de morrer. Tinham sido escritos em 1866 por um brasileiro chamado José Joaquim de Campos Leão, conhecido pelo nome literário de Qorpo-Santo. Foi preciso atravessar um século para que suas comédias encontrassem atores, plateia e diretor.
A noite aconteceu no Clube de Cultura e reuniu “Mateus e Mateusa”, “Eu sou vida; eu não sou morte” e “As relações naturais”, com direção de Antônio Carlos de Sena. A montagem, prevista inicialmente para poucos dias, foi recebida com entusiasmo e teve a temporada prolongada. De uma hora para outra, um escritor guardado em coleções raras se tornou uma questão para a história do teatro brasileiro. O espanto maior era pensar que todas aquelas cenas estavam disponíveis havia tanto tempo.
Qorpo-Santo nasceu em 1829, no Rio Grande do Sul, e viveu de escrever, ensinar e disputar opiniões. Em 1866, produziu uma sequência de peças em que as conversas mudam de direção sem pedir licença, as relações domésticas se tornam escandalosas e personagens parecem ter entrado pela porta errada. São textos que se recusam a funcionar como o teatro de bons modos esperado de um escritor do Império. Não surpreende que seus contemporâneos tenham tido dificuldades com eles. Surpreende o tamanho da demora.
O que aconteceu em 1966?
No Clube de Cultura de Porto Alegre foram apresentadas “Mateus e Mateusa”, “Eu sou vida; eu não sou morte” e “As relações naturais”. A direção foi de Antônio Carlos de Sena.
Às vezes o nome de Qorpo-Santo aparece acompanhado da afirmação de que ele inventou o teatro do absurdo antes de Samuel Beckett e Eugène Ionesco. É uma frase vistosa, mas a comparação exige cuidado. A expressão “teatro do absurdo” pertence a outra época e reúne experiências muito diferentes. Certas situações de suas peças se parecem, de fato, com o que o século seguinte reconheceria nessa tradição. Isso não torna o autor um francês ou irlandês antecipado, nem transforma 1866 numa versão imperfeita de 1950.
O homem de carne e osso não cabe facilmente no personagem que a posteridade construiu. Sofreu processo de interdição judicial e teve sua capacidade mental contestada. Ao mesmo tempo, continuou defendendo suas ideias e trabalhando para publicá-las. Criou uma grafia particular, com alterações ortográficas que explicam o Q de seu pseudônimo. Quando decidiu reunir os escritos, mandou imprimi-los em sua própria tipografia. Chamou o conjunto de “Ensiqlopédia”. O título é quase uma declaração de independência.
A coleção mistura gêneros sem muito respeito às divisões de uma biblioteca. Há peças, poemas, observações e outras formas de escrita. Essa mistura ajuda a entender o problema de lê-lo como simples precursor de alguma escola literária. Qorpo-Santo parece querer ocupar todos os lugares ao mesmo tempo. Uma fala que começa como discussão familiar pode terminar em desordem. Não há grande esforço para agradar quem procura uma moral clara. Tampouco é possível atribuir cada extravagância à condição pessoal do escritor, como se a literatura fosse apenas um sintoma.
A redescoberta dos anos 1960 também diz algo sobre os leitores. Um grupo de estudantes, professores e artistas resolveu olhar de novo para volumes que haviam sobrevivido fora do circuito teatral. O que antes parecia inaceitável passou a interessar justamente por sua estranheza. O Brasil já conhecia outras experiências com a desmontagem da cena e da linguagem. Tinha aprendido a receber o inesperado. O texto antigo encontrou, enfim, uma plateia contemporânea.
É tentador contar essa história como uma reparação perfeita. O escritor teria sido injustiçado e o tempo, com atraso de cem anos, teria resolvido tudo. A vida literária não funciona com tal pontualidade. A estreia de 1966 não devolveu a Qorpo-Santo as oportunidades que perdeu enquanto estava vivo. Também não apagou as ambiguidades de sua obra. Permitiu, isso sim, que suas peças fossem discutidas como teatro e não apenas como curiosidade de um passado provinciano.
Naquela noite de agosto, quando os atores começaram a falar, o texto já tinha um século. Qorpo-Santo morrera em 1883 e nunca poderia saber o que se passava no Clube de Cultura. Sua experiência chegou a outra geração sem pedir autorização aos que a haviam desprezado. Talvez a literatura tenha poucas formas tão concretas de desmentir um julgamento antigo. Basta que alguém encontre o livro e resolva ensaiar.

