Ser mulher nos estertores do século 19 era uma condição que empurrava a mulher, ou para a irrelevância mais ultrajante ou para uma vida marcada pela luta constante, e em muitas ocasiões, inócua por condições que lhe assegurassem direitos mínimos, que ninguém juiz algum jamais ousaria negar a um homem. Desde aquele tempo, existiam, e sempre hão de existir, aquelas mulheres que se davam por muito satisfeitas em gerar filhos, administrar a casa e assistir ao marido numa obediência cega e numa submissão para além do razoável — e se estão os dois de acordo, não há nada de errado nisso —, mas havia também as que não se contentavam com as migalhas que a sociedade lhes repassava pelas mãos sovinas de um patriarcado tacanho, sádico, criminoso. Refinando-se ainda mais o corte, principiavam a surgir as que recusavam todos os péssimos papéis que poderia lhes destinar o duro mundo real, driblavam as expectativas da vida que julgavam-lhes a ideal, e se transformavam no que criam ser a figura que a história esperavam que elas se tornassem.
Quando Marie Curie rompe o molde
Sem dúvida, Maria Salomea Skłodowska (1867-1934) foi dessas mulheres. Skłodowska, Marie Curie depois do casamento com o físico francês Pierre Curie (1859-1906), encarnou o arquétipo da mulher que soube construir uma carreira independente da trajetória do marido, ainda que contasse com Curie para vencer a misoginia no meio científico, ainda mais feroz à época. A diretora franco-iraniana Marjane Satrapi observa todos esses aspectos da vida de Marie Curie e compõe “Radioactive” de forma a homenagear sua protagonista, ainda que faça questão de escarafunchar feridas de sua protagonista. Seu “Radioactive” (2020) renega o que se esperaria que fosse uma cinebiografia, pretensamente laudatória de saída, para abordar as grandes controvérsias na história de Marie Curie. O resultado é um filme acintosamente honesto, estruturalmente ousado — decisão corajosa, uma vez que a pletora de analepses e prolepses deixa os mais puristas quase zonzos —, mas acima de tudo inquestionavelmente caloroso, um seu predicado que surpreende.
A glória cobra o preço do corpo
Rosamund Pike parece ter sido talhada para viver Marie Curie, um prodígio da ciência a despeito do tempo que se queira tomar por parâmetro. Física e química de excelência, condecorada com o Prêmio Nobel por duas vezes, em 1903 e 1911, aqui Marie Curie é emotiva, impetuosa, passional — primeiro embalada pelo teor revolucionário de suas descobertas; depois pelo marido mesmo —, o que a leva a ser também, em contraponto, vulnerável, insegura, irascível. A personalidade contagiante de Marie Curie, com a licença do trocadilho, cai como uma luva para atrizes como Pike, das mais versáteis e dinâmicas de Hollywood, e das mais capazes em fazer uma personagem virar a chave da comicidade para o drama trágico num único movimento, que assombra pela delicadeza — foi assim em “Garota Exemplar” (2014), dirigido por David Fincher; “Eu Me Importo” (2020), levado à tela por J Blakeson; e “Educação” (2009), de Lone Scherfig, nessa ordem. É esse empenho que torna sua versão da polonesa radicada na França, cientista, mas também mulher (e, portanto, dada a melindres), um tipo invulgar, que certamente passou a arrebatava aplausos depois da descoberta do rádio e do polônio, dois novos elementos que colocavam por terra postulados estabelecidos de há muito, como o que apregoava a inércia dos átomos. “Radioactive” torna-se uma narrativa tão imbricada a sua atriz principal que a participação de Sam Riley como Pierre Curie torna-se quase irrelevante, e essa impressão segue numa disparada a galope, primeiro quando, já vítima de uma tuberculose terminal, tem o crânio em pedaços ao ser atropelado por um coche, morre e volta sob a forma do que os afetos ao tema denominam como espírito zombeteiro; depois, com o roteiro do britânico Jack Thorne derivando para a segunda fase da trama, com uma Marie Curie já idosa comparecendo às frentes de batalha da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) com a filha Irène, de Anya Taylor-Joy — essa, sim, à altura da desenvoltura de Pike —, para manipular corretamente os aparelhos que salvariam muitos soldados de amputações desnecessárias e da morte por hemorragia.
Do feminismo ao raio-X, e de volta ao feminismo, “Radioactive” chega a esquadrinhar o período em que Marie Curie, acossada por pesquisas que apontaram os danos da exposição descuidada a elementos radiativos, é perseguida e ultrajada, mas acaba permanecendo na França, resistindo até onde pôde. Marie Curie morreu em 4 de julho de 1934, de anemia aplásica, um tipo raro da doença, justamente por causa da contaminação por rádio e polônio.

