Jalmari Helander dirige “Sisu” com Jorma Tommila, Aksel Hennie e Jack Doolan num filme de ação e guerra ambientado na Lapônia finlandesa de 1944, quando tropas nazistas já estão em retirada. Aatami Korpi vive sozinho, garimpa longe do front e encontra uma grande quantidade de ouro numa paisagem aberta, seca e coberta de crateras, ferrugem e restos de guerra. Com o cavalo, o cachorro e o metal recém-extraído, ele segue em direção à cidade. No caminho, cruza a coluna alemã comandada pelo oficial da SS Bruno Helldorf, que toma o saque e transforma a viagem numa perseguição. Helander segura esse começo no que importa, com a estrada, o ouro e a decisão desastrada de soldados que resolvem roubar um homem sem fazer ideia de quem ele é.
A Lapônia não entra ali só para compor quadro. O percurso de Aatami passa por estradas de terra, áreas minadas, veículos militares, carcaças espalhadas, pontes precárias e trechos abertos onde qualquer movimento pode ser visto de longe, e isso dá à perseguição um desenho físico muito claro. Os nazistas não surgem como ameaça vaga, porque saqueiam, queimam e transportam prisioneiras finlandesas enquanto recuam, e a região já aparece organizada por esse tipo de violência. Aatami, por sua vez, não recebe apresentação longa nem fala que venha explicar o personagem por fora. Ele é mostrado cavando, carregando, montando, atravessando terreno hostil e reagindo ao roubo do ouro, quase sempre em silêncio e sem que o roteiro precise parar para definir quem está diante da câmera.
Território e perseguição
Essa escolha aparece diretamente no modo como Helander conduz o protagonista. As críticas acessíveis insistem que Aatami é um ex-soldado quase mudo, e isso passa para o corpo de Jorma Tommila, para o jeito de andar, para a forma de medir distância e para a insistência em seguir depois que o ouro é tomado. Em vez de cercar o personagem com lembrança, explicação ou conversa, o filme deixa que ele exista pelo que suporta e pelo que tenta recuperar. Cada obstáculo recoloca o mesmo dado concreto. Aatami precisa sair dali com o ouro, e os homens que o cercam precisam detê-lo num território já deformado por minas, destroços, fumaça e rotas destruídas.
O campo minado, citado em mais de uma crítica acessível, concentra bem esse procedimento. Numa paisagem aberta da Lapônia, as minas deixam de ser parte do fundo e entram no combate, transformando o chão em risco imediato e também em arma. Não sobra muita margem para comentário, porque a tensão depende de onde se pisa, de quem avança primeiro, de quem lê o terreno com mais cuidado e de quem entra ali achando que está no controle. Helander trata a guerra como coisa feita de explosão, metal, distância, lama, ruído, fumaça e corpo exposto. Por isso “Sisu” se aproxima de um western de sobrevivência sem perder o dado histórico da retirada nazista em 1944 e sem esquecer que aquele espaço continua sendo zona de guerra, rota militar e área de saque.
Corpo, silêncio e lenda
O silêncio de Aatami também organiza a maneira como ele ocupa a tela diante dos outros. Ele atravessa boa parte do filme quase sem falar, e o roteiro não tenta preencher esse vazio com conversa demais dos homens ao redor. Quando Aino, entre as prisioneiras finlandesas levadas pelos alemães, explica quem ele é e verbaliza o sentido de “sisu”, a cena não desvia o centro da ação nem interrompe o que vinha sendo armado no terreno. Ela põe em palavras aquilo que os alemães já têm diante dos olhos, uma obstinação que aparecia na marcha contínua, na resistência física e na recusa a parar. A palavra chega depois que o corpo do protagonista já mostrou o essencial, e essa ordem impede que a fama apareça antes do homem.
A presença das prisioneiras amplia o alcance da violência praticada pela coluna de Bruno Helldorf. Elas não entram só para informar que aqueles soldados são brutais, porque isso já aparece no saque, na perseguição e no rastro de destruição deixado pelos alemães na retirada pela Lapônia. A presença delas põe outras vidas sob domínio daquele comboio e dá a Aino um ponto de fala decisivo dentro de um filme que trabalha sobretudo com deslocamento, gesto, ataque, captura e dano material. Helldorf, por sua vez, ocupa o centro desse comando nazista e age como homem acostumado a tomar o que quer na estrada, no garimpo e no corpo dos outros. O erro dele está em tratar Aatami como mais um homem sozinho diante do comboio, do uniforme e da vantagem numérica.
Violência e limite
Helander trabalha essa relação de forças sem desviar do básico. De um lado está um homem sozinho, com ouro, cavalo, cachorro e uma resistência fora da escala comum. Do outro, uma coluna militar com caminhões, armas, comando centralizado e domínio provisório da estrada. A perseguição avança a partir desse desequilíbrio, e os confrontos passam a depender da estrada, das minas, dos veículos e de quem consegue se mover primeiro. O filme não tenta complicar moralmente esse quadro, porque ali tudo depende de deslocamento, emboscada, ataque, perseguição e tentativa de cruzar vivo um território controlado por nazistas em retirada.
Em “Sisu”, cada nova cena volta ao mesmo problema imediato de Aatami. O ouro foi roubado, a estrada está sob domínio alemão, há prisioneiras no comboio, há minas no terreno e há um oficial da SS decidido a não recuar diante do homem que resolveu enfrentar. Aino põe em palavras o que os alemães já têm diante dos olhos, mas o filme confia sobretudo no corpo do protagonista, na paisagem e no dano físico que a perseguição vai acumulando. Quando permanece nesse eixo, entre a Lapônia devastada, o silêncio de Aatami e a caçada movida por ouro roubado, “Sisu” acompanha um homem que segue adiante em meio a ruína, comboio, explosão, captura e caça, sem sair desse terreno.

