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Lee Daniels dirige “O Mordomo da Casa Branca” com Forest Whitaker, Oprah Winfrey, David Oyelowo e Mariah Carey num drama que acompanha Cecil Gaines desde a infância na Geórgia segregada até os anos em que ele trabalha na Casa Branca. Ainda menino, Cecil vê o pai ser assassinado e a mãe sofrer uma violência brutal numa plantação, e esse início não aparece apenas como passado distante ou lembrança isolada. É desse lugar que sai um homem treinado para medir o que diz, controlar o corpo, escolher o silêncio e transformar disciplina em regra de sobrevivência antes de servir sucessivos presidentes dos Estados Unidos.

A plantação não fica restrita à primeira parte da história, porque o trabalho de Cecil exige justamente a contenção que nasceu ali. Quando ele deixa o sul, consegue emprego num hotel e depois chega a Washington, há mudança de endereço, salário, roupa e prestígio, mas o limite continua visível em cada etapa dessa ascensão. Ele passa a circular por salas mais elegantes, veste outro uniforme e entra num espaço associado ao poder, só que permanece submetido a regras de silêncio, cortesia e obediência. A ascensão profissional vem acompanhada da necessidade de aceitar todos os dias um lugar definido por outros, com melhora material de vida e permanência de uma posição subordinada.

Casa Branca e distância

Esse limite aparece nas cenas em que Cecil serve e observa presidentes dentro da Casa Branca. Ele entra em salas solenes, acompanha a troca de governos de Eisenhower a Reagan e participa da rotina de um dos endereços centrais da política americana, mas só permanece ali porque sabe ouvir, servir e não ocupar espaço além do permitido. O cenário pesa, mas o que organiza essas passagens é o modo como o corpo dele precisa se comportar, onde ficar, quando falar e até como olhar. O homem trabalha perto de decisões históricas e, ao mesmo tempo, continua sem poder agir sobre elas, o que dá outra medida a essa proximidade com o centro do poder.

Essa proximidade sem autoridade impede que a sucessão de presidentes vire simples coleção de aparições. O desfile de figuras públicas e primeiras-damas às vezes se aproxima de uma galeria de caracterizações, mas a repetição marca uma passagem concreta do tempo enquanto a posição de Cecil continua quase a mesma. Décadas passam, os ocupantes do gabinete mudam, a pauta racial do país se transforma, e ele segue servindo à mesa, arrumando espaços oficiais, recebendo ordens e preservando a compostura exigida pelo cargo. A diferença entre estar presente no centro simbólico do país e poder decidir alguma coisa permanece em cada uma dessas cenas e ajuda a definir o tamanho exato dessa presença.

A casa e o conflito

Fora dessas salas, o peso do trabalho aparece de outro modo. Em casa, a rotina de Cecil afeta a relação com Gloria, e o casamento passa a carregar ausência, desgaste e uma inquietação que Oprah Winfrey mantém ligada à vida prática daquela família, sem separar o desarranjo íntimo do trabalho do marido. A história não trata a casa como intervalo entre fatos públicos. É ali que aparecem as consequências do emprego sobre o convívio, sobre o modo como marido e mulher se falam, sobre o que ele leva para dentro de casa depois do expediente e sobre a dificuldade de isolar a vida doméstica da disciplina exigida no serviço.

A tensão principal se concentra na relação entre Cecil e o filho Louis. O pai acredita na permanência, na prudência e na ideia de que seguir em frente exige conter a reação imediata, enquanto Louis escolhe o confronto direto e passa por etapas do ativismo negro ligadas aos Freedom Riders e aos Black Panthers. Esse conflito não fica no campo da ideia nem serve apenas para ilustrar posições históricas. Ele entra nas refeições, interrompe a rotina da família e transforma cada conversa entre os dois numa discussão sobre risco, dignidade, sobrevivência e limite. De um lado está um homem moldado pelo medo e pelo cálculo. Do outro, um jovem disposto a pôr o corpo em perigo para não aceitar o lugar que o pai aprendeu a suportar.

Lee Daniels coloca essas posições lado a lado quando recorre à montagem paralela. Cecil aparece preparando ou servindo jantares de Estado na Casa Branca, enquanto Louis sofre violência em sit-ins contra a segregação, e a justaposição dessas ações trabalha com diferenças muito materiais de roupa, espaço, postura, exposição e risco. Um mantém a ordem de um ritual oficial e precisa esconder a reação para continuar no emprego. O outro senta, espera o ataque e faz do próprio corpo o ponto de confronto. A política deixa de circular apenas nas falas e passa a existir no contraste entre a sala de jantar oficial e o balcão onde a violência irrompe, com o pai preservando a compostura que lhe garante permanência e o filho recusando qualquer acomodação.

História vista da margem

Por isso “O Mordomo da Casa Branca” se apoia nesse ponto de vista lateral. Cecil está cercado por acontecimentos decisivos, serve presidentes por décadas e acompanha mudanças importantes no país, mas a vida dele é determinada menos pelo brilho dos ocupantes do gabinete do que pelo custo íntimo desse serviço continuado e pelo tipo de conduta que esse trabalho exige. As cenas com Gloria em casa e as passagens de Louis no ativismo recolocam a história no plano do uso diário do corpo, do casamento, da mesa de jantar e da família. É nessas partes que a política deixa de ser cerimônia e aparece como coisa que organiza silêncio, separa pai e filho, pesa sobre o casamento e desgasta a vida doméstica de modo persistente.

Quando a história volta à plantação da infância, ao treinamento para o serviço, ao emprego que exige contenção e ao choque entre um pai disciplinado pelo medo e um filho disciplinado pela revolta, o filme fixa melhor seu centro. O excesso de rostos históricos e de caracterizações conhecidas às vezes espalha a atenção, mas o núcleo permanece no que cada etapa cobra de Cecil, de Gloria e de Louis em termos de postura, convívio, perda e ruptura. “O Mordomo da Casa Branca” fica mais preciso quando acompanha esse custo em situações concretas, no trabalho, na mesa de casa e nas ruas, onde a mesma história produz respostas opostas dentro da mesma família. É nesse atrito entre serviço, casamento e confronto político que Lee Daniels encontra a medida mais nítida do que está em jogo para Cecil ao longo de décadas.


Filme: O Mordomo da Casa Branca
Diretor: Lee Daniels
Ano: 2013
Gênero: Biografia/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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