Famílias são associações de pessoas com a mesma origem e sonhos diferentes. A partir de então, pululam as disputas por colo, as brigas por independência, os arranca-rabos em que cada um acha-se o dono da verdade, ainda que saibam que, cinco minutos depois, ou uma hora, ou vinte anos, essas patéticas disputas não irão significar mais nada — às vezes, essa óbvia conclusão se anuncia a tempo de ninguém ter ainda sumido para nunca mais, mas de um modo ou de outro, ela vem. Situações bizarras envolvendo dois irmãos são o mote de “Erros Épicos”, e trampolim para reflexões sobre vida, morte, vida após a morte e laços de sangue, mediadas por uma pletora de eventos nada verossímeis. Depois de ganhar uma fieira de prêmios com “Schitt’s Creek” (2015-2020), Dan Levy mostra disposição para reinventar-se e se lança à empreitada de fazer uma comédia nonsense com dois personagens centrais repletos de possibilidades, mas não consegue evitar a tentação do clichê.
Uma morta muito louca
Nicky e Morgan fizeram escolhas diferentes, mas estão unidos por um estranho dom. Nicky presta assistência a seus fiéis numa igreja protestante, Morgan dá aula para crianças numa escola pública e nos compromissos familiares se abraçam e trocam gentilezas, tentando não cometer nenhuma gafe e não falar nenhuma besteira. A doença da avó materna volta a reuni-los em visitas no quarto do hospital, e a mãe, Linda, exige que eles continuem assim, presentes e disciplinados. Os gêmeos decidem fazer um agrado à avó e aparecem com um colar de diamantes falso, mas chegam um pouco tarde, o que soa como um mau agouro. E era.
Ladrões por acidente
O colar não era falso, mas a moribunda o recebe assim mesmo — e vai para a cova com ele. Levy e sua parceira Rachel Sennott juntam-se à corroteirista Jacqui Rivera para desenvolver as subtramas nas quais Nicky e Morgan respondem pela subtração (acidental, dizem eles) da joia, e a narrativa desdobra-se por oito episódios marcados por uma nítida inconstância, ora divertidos, ora artificiosos. Na pele de Nicky, o próprio Levy é o símbolo desse vaivém, cabendo lances mais felizes à Morgan de Taylor Ortega. Nenhum dos dois, porém, chega perto de Laurie Metcalf como Linda, uma personagem que cresce a partir do terceiro capítulo, adquirido nuanças outras além das concernentes à mãe extremada e afeita a discursos chorosos de autopiedade. A campanha de Linda à prefeitura de New Jersey e uma diatribe antifeminista numa conversa com Morgan suavizam uma parcela dos danos.

